Olívia prendeu a respiração, sentindo cada músculo do corpo contrair.
O grito de Ian foi como um trovão rachando o teto de mármore.
— MAS QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!
E depois, o silêncio caindo pesado. O eco bateu nas paredes brancas e o silêncio que se seguiu foi cortante. Mas o silêncio seguido aquele grito não durou mais que um sopro.
Ian entrou como uma tempestade. Estava parado no batente, a figura dele dominando o espaço. O olhar era gelo puro, mas havia um fogo perigoso logo abaixo da superfície.
Seus olhos queimavam de fúria, a mandíbula travada, os punhos cerrados. O peso dele sozinho já parecia esmagar o ar do banheiro.
Ele não perguntou. Não precisou. Os olhos dele varreram as duas, o corpo de Olívia ainda tenso, o de Carol vibrando em fúria.
Carol, em vez de recuar, sorriu. Um sorriso lento, quase triunfante. Mas em seguida, soltou o cabelo de Olivia devagar, quase teatral, mas sem recuar, como se saboreasse a demora. Os dedos deslizaram como se quisessem marcar cada fio arrancado.
Olivia, arfando, ajeitou-se contra a parede, mas não desviou o olhar de ninguém. O coração ainda corria uma maratona dentro do peito. Olívia respirava rápido, o corpo colado na parede fria, mas não recuava.
Olívia fechou os olhos. Tudo que queria era fugir aquele lugar, daquela vida, nem que fosse por um momento.
— Ah, Ian… — disse Carol, ajeitando o vestido como se nada tivesse acontecido. — Estava justamente explicando para a sua noiva que você sempre foi ótimo em… fingir.
Ian entrou de vez, o corpo dele dominando o espaço. Os olhos negros faiscavam ódio.
— Olivia... — Ian disse o nome dela baixo, mas firme, como quem testa se ela ainda estava inteira.
O olhar dele, no entanto, desviou rápido para Carol. E quando a encarou, parecia pronto para matá-la.
— Que porra você acha que está fazendo? — a voz dele era grave, carregada e ameaçadora.
Carol deu uma risada curta, quebrada, como uma lâmina que arranha vidro. Era um riso descompassado, cheio de sarcasmo, como se a violência de segundos atrás fosse apenas um detalhe cômico para ela.
— Ora, Ian... não seja tão dramático. — ajeitou o cabelo e vestido bagunçados, o batom borrado, a respiração ainda descompassada. — Só um b**e-papo entre mulheres. Eu só estava... dando boas-vindas a sua nova noiva. Um encontro entre mulheres, nada demais.
Olívia quase engasgou.
— Nada demais? — ela explodiu antes que pudesse se segurar. — Você me atacou!
Carol virou-se para devagar, os olhos claros faiscando um brilho insano, o rosto ainda mais iluminado pelo sorriso torto.
— Ataque? Oh, querida, isso não foi nada. — sorriu, e o sorriso era ácido. — Considere um ensaio… para o que ainda vem.
Ian avançou dois passos, a sombra dele engolindo Carol. Seu corpo dominava o espaço como se fosse empurrar o ar contra ela.
— Se você encostar nela outra vez... juro que eu mesmo te arranco daqui.
Carol não recuou. Pelo contrário, inclinou a cabeça, os lábios curvados em sarcasmo, deixando a luz fria do banheiro destacar o veneno por trás dos seus olhos azuis.
— Vai me arrancar? Aqui? — sussurrou e deixou escapar um riso debochado. — No restaurante preferido do seu avô? Com Vittorio sentado a poucos metros, observando cada gesto seu? — a voz dela ficou mais baixa, venenosa. — Você sabe que Nicolau adora me ter por perto. Você sabe que não pode mexer com aqueles que ele adora.
As palavras bateram em Ian como ferro contra ferro. Ele cerrou o maxilar, os músculos saltando.
Com sua voz assassina, ela disse:
— E se Nicolau souber que você está perdendo o controle... que sua noiva perfeita anda brigando em banheiros de restaurante... quem você acha que ele vai culpar?
— Você está se superando em miséria, Carolina. Nem nas suas piores fases eu pensei que cairia tão baixo. Você não passa de uma sombra do que já foi.
Carol arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.
— Piores fases? — ela riu de modo histérico, mas o riso quebrou. — Você fala como se não tivesse parte nisso, Ian. Quem foi que me usou até a última gota, e quando não servia mais… me jogou fora?
Olívia mordeu o lábio por dentro, sentiu o estômago embrulhar. As palavras dela caíam como navalhas. Mas foi o olhar que Carol lançou em seguida que deixou Olivia em alerta: havia algo escondido. Algo que ela sabia... e não estava dizendo.
Virou-se para Ian, mas ele não disse nada. Apenas encarou Carol com uma fúria contida, os punhos cerrados. Ian deu um passo ainda mais perto. Agora estavam tão próximos que o perfume doce e enjoativo dela misturava-se com a fúria dele.
Ela não conseguia acompanhar as suas reviravoltas e sob o seu controle, não conseguia respirar.
— Não fala nada, amor? — Que fracasso, Ian. — Carol provocou, envenenada. — Ah, claro, você nunca fala. Você destrói em silêncio.
Ela voltou os olhos para Olívia, aproximando-se até quase encostar o ombro nela, os olhos faiscando.
— Ele não te contou, não é? Se colocar de joelhos para você, não foi o suficiente, não é? — disse baixo, como um segredo íntimo, como se a voz fosse só para ela. — Ele nunca conta. Mas um dia vai. Quando não tiver mais como esconder.
— Escuta bem, Carolina. — a voz dele era um trovão baixo, controlado na superfície, mas prestes a destruir tudo. — Abre essa boca mais uma vez pra ameaçar e você vai descobrir exatamente até onde eu posso ir.
Carol não piscou. O sorriso dela cresceu, mas os olhos marejados de raiva denunciavam o colapso. Ele a olhou e encarou seus olhos profundamente, a segurando cada vez mais forte.
— Ah, Ian... Você sempre foi assim. Bruto. Controlador. Incapaz de admitir que eu conheço cada uma das suas sombras.
Ian semicerrou os olhos, e sem se importar se era brutal ou não, agarrou o braço de Carolina com mais força, enquanto a prendia contra a parede.
— Se você aparecer mais uma vez na minha frente, ou encostar nela de novo, eu mesmo vou garantir que não tenha nem banheiro para surtar. E nem Nicolau vai conseguir te proteger.
Carol tentou rir, mas a respiração dela falhava. Os olhos marejados de ódio. Havia desespero naquele som.
— Você não pode me calar, Ian. Eu sei demais. — os lábios dela tremeram num sorriso doentio, os lábios tremendo em um sussurro quase venenosa. — Eu só preciso de uma palavra. Só uma... e o castelo cai.
O silêncio pesou. Olívia sentiu cada sílaba como se fosse uma sentença. Mas Ian apenas respirou fundo, os olhos escuros como abismo.
Ele a empurrou para fora do caminho, apontando para a porta.
— Some da minha frente. Agora.
Ela puxou o braço de volta com força, ajeitando o vestido e a maquiagem borrada, como se ainda tivesse controle de cena.
E antes de sair, jogou o último veneno, o sorriso voltando como uma máscara rachada:
— Aproveite o teatro, Olivia. — murmurou, antes de sair. — Só tome cuidado para não ofegar no papel que escolheu.
A porta bateu atrás dela. Isso a atingiu como um trem. Ficou sem palavras. Os silêncios se apropriaram da sua voz. Não tinha nada a dizer.
O banheiro voltou a ficar silencioso.
Ian estava imóvel, a respiração dele pesada, os punhos cerrados.
Olívia o olhou, o coração em disparada, a pele ainda ardendo onde Carol a tinha segurado.
E pela primeira vez, não soube se Ian era a única proteção que ainda restava... Ou o perigo maior.

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