O corredor parecia pequeno demais para conter a tensão que explodia entre os três.
Olívia congelou, os olhos fixos na figura imponente de Nicolau. Ian, ao seu lado, manteve a postura impassível, mas por dentro, o mundo dele ruía.
Crescera aprendendo que Nicolau não deixava nada escapar. Não eram as palavras ditas que entregavam, mas os silêncios, as frestas, os olhares. E agora, diante do avô, Ian sabia: eles haviam acabado de exibir uma rachadura perigosa.
A sombra de Nicolau avançou pelo corredor com calma, firme, dono de cada passo. Ele parou diante deles, olhos frios, e soltou, quase como um murmúrio carregado de peso:
— Segredos… eles sempre pesam mais à noite, não é?
Olívia sentiu a garganta secar. Aceitava qualquer ajuda pra sair dessa conversa. O coração disparava, e ela entendeu que precisava se mover rápido, antes que aquela frase se transformasse em um laço em volta de seu pescoço. Precisava se expor… só o suficiente. Precisava dar a Nicolau algo para mascarar o verdadeiro erro. Precisava se jogar na linha de frente, jogar de volta.
Ela respirou fundo e falou, a voz trêmula, mas firme:
— Eu não queria que o senhor soubesse disso… não queria que pensasse que eu sou temperamental. Mas… — ela hesitou, o orgulho queimando por dentro — …eu tive uma briga com a Clara agora a pouco. Eu… eu dei um tapa nela.
O silêncio foi absoluto. O ar pareceu pesar toneladas. Sentia como se sua vida estivesse escorregando, o frio enchendo sua alma parecia congelar.
Os olhos de Nicolau se estreitaram por um segundo, surpreso, curioso. E aí já não tinha mais saída.
Olívia continuou, rápido demais, como quem teme perder o controle:
— Eu nunca quis trazer problemas, senhor Moretti. Nunca. Podem falar qualquer coisa de mim, podem me chamar do que quiserem… mas quando se trata do meu filho… — a voz falhou, quebrada pelo fervor da emoção. — …ninguém toca nele. Nunca vou perdoar insultos contra ele.
As palavras saíram como um desabafo. E, pela primeira vez naquela noite, Olívia sentiu que não estava atuando. Estava nua, com sua verdade em carne viva.
Nicolau a encarou longo e pesado, como quem avalia uma peça rara. Então, inclinou o rosto e disse num tom quase respeitoso:
— Isso… eu entendo perfeitamente.
Ian desviou os olhos, tenso. Nicolau não oferecia aprovação com facilidade, mas aquilo, de alguma forma, era uma concessão. Era quase como se fosse um sentimento que apenas verdadeiros pais entendiam. Ian não compreendia abertamente ainda.
Mas o instante durou pouco. Nicolau recostou as mãos nas costas, altivo, e murmurou:
— Ainda assim, lembre-se do verdadeiro papel de uma esposa na família Moretti.
Antes que Olívia pudesse responder, Ian interveio, a voz baixa, cortante:
— Clara também deveria saber disso, não acha?
Nicolau deu um suspiro lento, carregado de lembrança e julgamento.
— Clara jamais foi… esposa. E todos aqui sabem disso.
Olívia sentiu as palavras penetrarem fundo. Não soube dizer se era alívio ou ameaça. Apenas pensou que Clara, mesmo ali, ainda pairava sobre ela como um fantasma mal resolvido.
Quis perguntar por que Nicolau a mantinha ali, todavia, por que só o desgraçado do Benjamin não era o suficiente?
Era quase como se o patriarca Moretti quisessem todos reunidos ali, para um teste, para sua observação. Como uma maldita raposa.
Nicolau deu dois passos para trás, como quem encerra o assunto. Antes de virar-se, lançou uma última frase, gélida, carregada de certeza:
— E não se preocupe… não existem muitas coisas que eu não saiba nessa casa. Ela é grande, sim. Mas para mim, nada passa despercebido.
Ela tinha tantas cicatrizes e com o tempo a dor ficava ainda difícil. Mas agora, com Léo ali, ela não sentia nada. Sem dor. Sem marcas. Apenas amor em seu estado mais puro e incondicional.
Beijou a testa do filho. Se perguntou onde estaria sem a ternura que ele possuía? E aquele toque... O toque que a deixava forte, que a mantinha firme... Apenas seu amor era o suficiente para iluminá-la tanto.
Se despedindo do seu corpinho preguiçoso, ela saiu.
Quando chegou ao corredor, viu que estava completamente estava vazio agora e por isso, cada passo dela parecia ecoar alto demais contra o chão de madeira. Cada batida do coração, um tambor dentro do peito. Que poderia ser facilmente ouvido atrás de todas aquelas portas fechadas.
Completamente contra a sua vontade, dirigiu-se ao quarto de Ian.
A mão trêmula empurrou a porta.
E então, ela travou.
O ar escapou dos pulmões em um arquejo rápido, e os olhos se arregalaram. Pareceu mais difícil respirar.
Sério, o que mais podia acontecer naquela noite?
Ian estava ali. Nu.
Apenas a penumbra suave do quarto o iluminava, mas era o suficiente para exibir cada linha marcada de músculos, cada sombra que esculpia o corpo dele como se fosse feito para ser um desafio.
Olívia sentiu o chão sumir debaixo de si.
— O… o que diabos você está fazendo… nu? — perguntou, a voz vacilante, quase num sussurro.

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