Olívia travou assim que abriu a porta.
O quarto estava na penumbra, apenas o abajur aceso lançava luz suave sobre o corpo dele.
E ali estava Ian.
Nu.
Ou quase. Apenas uma cueca branca marcava a pele dourada. Os músculos do abdômen definidos como se fossem esculpidos, o peito largo subindo e descendo em uma respiração tranquila demais para alguém que a fitava com tamanha intensidade. Os ombros fortes, as veias discretas nos braços, até a curva dos quadris… tudo nele parecia propositalmente pensado para provocar.
Olívia sentiu o ar escapar da garganta, a pele se arrepiando contra a própria vontade.
— O que… o que você pensa que está fazendo? — ela gaguejou, mas logo recuperou o tom, erguendo o queixo. — Por que diabos você está nu?
Ian arqueou uma sobrancelha, a sombra de um sorriso jogando com ela.
— Não estou nu. — sua voz grave cortou o espaço entre eles. — Estou de cueca.
— Isso é a mesma coisa! — ela cuspiu rapidamente.
— Qual o problema, Olivia? Você achou que eu também dormia de terno?
Olívia bufou, cruzando os braços contra o peito como se isso fosse uma armadura.
— Existem pijamas, sabia?! — rebateu, virando-se para a porta. — Se continuar assim, eu vou sair desse quarto agora.
Em dois passos, ele já estava perto demais. A presença dele parecia preencher cada centímetro de ar. O perfume amadeirado misturado ao calor da pele dela confundia seus sentidos.
Por que ele estava fazendo isso? Naquele quarto, só estavam os dois e mais ninguém. Não havia necessidade de fingir.
— Se você não consegue lidar nem com isso, Olivia… — Ian inclinou a cabeça, os olhos fixos nos dela. — Como vai aguentar o que realmente vem por aí? Você é mãe. Não precisa fingir pureza.
O sangue dela ferveu, mas não de medo.
— Você adora me provocar, não é? — disparou, firme. — Manipula, j**a, encena. Mas a verdade é que você é só um covarde que se esconde atrás do poder que herdou.
Ian riu baixo, mas sem humor.
— Covarde? Você fala como se não tivesse seus segredos também. — ele avançou mais um passo, forçando-a contra a parede. O calor do corpo dele irradiava. — Você sabe jogar esse jogo tão bem quanto eu.
Quando o seu corpo colidiu com o dela, o seu coração bateu forte demais, como se fosse explodir contra as costelas. A proximidade queimava. Seu calor derretendo qualquer frio.
— Eu não sou como você.
— Não? — a voz dele baixou, rouca, perigosa.
Ele inclinou o rosto, tão perto que ela sentiu a respiração quente contra sua boca, depois deslizando até seu pescoço. Como se aquela distância fosse um caminho para um tesouro há muito tempo perdido.
— Então por que está tremendo?
Olívia cerrou os punhos, o corpo em alerta. Ele não a tocava, mas cada centímetro gritava pela colisão inevitável.
Ele sorriu contra sua pele e murmurou, como uma sentença:
— Você treme como se tivesse medo de mim. Mas eu sei que não é medo. É outra coisa.
As palavras a atravessaram como uma bala de canhão. O seu peito arfava, a mente em turbilhão.
Antes que perdesse o controle, ela empurrou o ombro dele e escapou, correndo para o banheiro.
Para o mais longe que podia dele.
Encostou-se na pia fria, respirando fundo. O reflexo no espelho mostrava uma mulher despenteada, suada, a maquiagem borrando levemente. A perfeita amostra do caos perfeito que estava dentro dela.
Aquele vestido perfeito, agora parecia uma prisão. O couro apertava, a cada movimento um ruído incômodo por causa do suor. Tinha que se livrar daquilo. Talvez essa fosse a razão do seu corpo estar trêmula, as mãos suadas, o calor insuportável queimando por toda sua estrutura.
Com certeza era o vestido, nada além disso. Decidiu se livrar daquele tecido.
Ela tentou abrir o zíper sozinha. Os braços se esticaram, a pele ardeu com o esforço, mas o fecho nem se moveu.
— Droga… — murmurou, um gemido de frustração escapando.
A lembrança de como Helena a ajudara mais cedo para vesti-lo veio como uma maldição. O maldito zíper era impossível de subir ou descer sozinho. Sempre dependente de outra pessoa. Quem arrancaria aquele maldito vestido dela agora?
Ela nunca que pediria isso a Ian.
Finalmente, humilhada, virou o rosto na direção dele, ainda sem encará-lo.
— Ian… — a voz saiu mais baixa do que pretendia. — Pode me ajudar… com o zíper?
O ar pareceu mudar no mesmo instante.
Lento, ele fechou o tablet, os olhos escuros prendendo-se nos dela como se tivessem esperado por aquilo a noite inteira.
Olivia sentiu a respiração presa no peito quando ele parou atrás dela. Os dedos tocaram o zíper no alto das costas, leves demais para serem causais. Firmes demais para não significarem nada.
Olivia fechou os olhos com força, tentando se desvencilhar de qualquer sensação.
O zíper deslizou devagar, e o som do fecho descendo soou alto demais, intimo demais. O vestido pesado começou a ceder sobre os ombros de Olívia, como se camadas de suas defesas também estivesse caindo.
Ela manteve os olhos fechados, tentando não pensar no que estava acontecendo, mas sentiu a pele arder sob os dedos dele. Sua pele macia e alva tremeu sob a luz suave do abajur.
Até que de repente, Olivia sentiu o silêncio mudando, porque Ian simplesmente congelou.
Ele não disse nada, mas ela sentiu. O ar ficou mais denso, a respiração dele parou.
O olhar dele se prendeu no desenho delicado gravado na pela dela, bem no centro das costas. Uma tatuagem pequena, discreta... Mas impossível de confundir.
— Essa tatuagem… — a voz dele saiu baixa, quase surpresa. — Eu já vi isso antes.
Olívia congelou. O coração dela disparou como um alarme. Parou de respirar.
— O quê? — tentou disfarçar, a voz falhando no meio.
Ian inclinou a cabeça, os olhos fixos no desenho nas costas dela, como se quisesse decifrá-lo. A expressão não era de desejo, mas de estranha familiaridade. O olhar escurecido.
— É isso mesmo… — murmurou, quase para si mesmo. — Eu conheço essa tatuagem.
O sangue fugiu do rosto de Olívia. Por um segundo, o quarto pareceu girar.
Ele não podia lembrar. Não agora. Não daquela noite.

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