O som distante de pássaros rompeu o silêncio.
Olívia abriu os olhos devagar, a luz suave da manhã filtrava-se pelas cortinas pesadas do quarto. Conseguiu dormir mais uma noite inteira. A consequência por não conseguir dormir por semanas realmente era real.
Por um instante, quase esqueceu onde estava. Quase. Até virar o rosto e ver Ian dormindo ao lado, a respiração lenta, o corpo relaxado em contraste gritante com a tensão que sempre emanava em vida desperta.
O coração dela apertou.
Respirou fundo, puxando coragem.
Levantou-se sem fazer barulho, pegou algumas roupas e entrou no banheiro.
Precisava de algum abrigo, pra sua própria proteção. Estar consigo mesma e se centrar. Precisa encontrar sua claridade, paz, serenidade.
Na frente do espelho, forçou-se a não pensar na noite anterior, no jantar, anel, no vestido, no zíper, na tatuagem, na respiração dele perto demais... O fogo que queimava por dentro ainda a enlouquecendo.
Estranhamente, o cheiro da pele de Ian permanecia nela agora. Talvez fosse o cheiro impregnado no lençol. Mas só isso... A deixou completamente incomodada. Sentia a pele arder. Tinha que tirar aquilo do seu sistema. Faria qualquer coisa para tirar a última noite da mente.
Molhou o rosto, penteou os cabelos, e começou a se vestir com pressa, como se escapar rápido daquele quarto fosse a única maneira de manter a sanidade.
"Só preciso sair antes que ele acorde."
Mas ao abrir a porta do banheiro, congelou.
Ian já estava acordado. Sentado na cama, os cabelos bagunçados, o olhar fixo nela.
Ela o olhou e de repente, ficou sem fôlego quando ele a olhou de volta. Seu coração quase saindo pela boca.
Naquele instante de silêncio, seu olhar parecia dizer mil palavras.
— Pra onde você vai tão cedo? — a voz rouca dele quebrou o ar.
Olívia praguejou internamente.
— Trabalhar — respondeu seca, ajustando a alça da bolsa.
A sobrancelha dele se ergueu.
— Trabalhar? Por quê? Você não precisa trabalhar.
Ela riu sem humor, rindo da ingenuidade, ou da arrogância, dele.
— Preciso, sim. — endireitou os ombros. — Faltam menos de três meses pro contrato acabar, Ian. Quando acabar, quero ter dinheiro guardado. Vou recomeçar. — disse, na esperança louca de que tudo acabasse antes. Se agarrava nessa fantasia pra sobreviver esses três meses.
Ele a observou por um longo instante. Então, com uma expressão quase confusa, soltou:
— Por que faria isso… se pode continuar comigo?
O mundo parou.
O coração dela disparou, como se tivesse dado um salto dentro do peito. Estava uns 100 graus ali?
Os olhos se encontraram, e naquele instante ela viu algo quase cru no olhar dele.
Mas foi rápido demais.
Ian corrigiu-se, como quem pisa em falso:
— Digo… continuar trabalhando comigo.
Olívia apertou a bolsa contra o corpo.
— Não, Ian. Quando esse contrato acabar, nunca mais quero ver você ou qualquer Moretti na minha frente. — A voz dela soou firme, mas por dentro, doía. — Não leve pro lado pessoal. E eu acredito que você quer a mesma coisa que eu.
Ele inclinou a cabeça, e para surpresa dela… riu. Não uma risada debochada, mas curta, quase verdadeira.
— Você tem coragem, Olivia.
Ela virou o rosto para não encarar, mas notou.
Ele sorriu...
Um sorriso que nuncia havia visto nele durante todas aquelas semanas. E, contra a própria vontade, algo dentro dela estremeceu.
"Não. Não vai me afetar."
Ela pigarreou.
— Preciso ir. Se me atrasar, meu chefe insuportável não vai deixar barato.
Ian apenas a olhou, um traço de divertimento nos olhos.
E ela, irritada com o efeito que aquilo causava nela, se despediu rápido e saiu do quarto dele.
O quarto de Léo foi seu primeiro destino.
Ao entrar, encontrou Helena ajustando uma fita métrica ao redor da cintura do menino.
O coração de Olívia disparou.
— O que está acontecendo? Algum problema?
Helena ergueu os olhos, tranquila.
— Está tudo bem, Olivia. É só rotina. A cirurgia está próxima e quero garantir que permanece estável em todos os detalhes.
Olívia suspirou de alívio e se aproximou, tocando os cabelos do filho.
— Viu só, campeão? — sorriu para Léo. — É só cuidado extra. Você está bem? Como foi sua noite ontem? Mamãe sentiu sua falta.
Leo sorriu para ela, muito animado para aquele horário da manhã. Era tão bom olhar em seus olhinhos e não haver mais sofrimento.
Logo começou a falar sobre a sua noite:
— O Nicolau ficou comigo… foi muito legal. Ele contou histórias. E depois veio aquele outro homem, o Benjamin. Mas eu não gostei muito dele, mamãe. Ele fala estranho.
Olívia congelou por dentro, o estômago revirando.
"Eles de novo. Chegando perto demais."
— … tá tentando arrancar tudo dele…
— … mais uma querendo subir na vida…
O coração dela disparou.
"Do que diabos estão falando?" Será que haviam visto as fotos do restaurante na última noite?
Olivia caminhou mais rápido pelos corredores, a respiração acelerada, o estômago embrulhado. Mas nada adiantava: os olhares a perfuravam, línguas afiadas seguiam seu rastro.
Sério? Ela nunca iria conseguir encontrar paz?
Quando chegou à sua mesa, parou em choque.
Havia um envelope pardo sobre o tampo. Pesado. Intimidador.
Com mãos trêmulas, puxou os papéis de dentro.
Um dossiê.
Fotos, documentos, supostos registros de crimes, acusações, números de contas. Um retrato cruel e falso, pintando-a como uma golpista profissional, especialista em seduzir homens ricos e destruí-los.
A garganta dela secou.
As letras se embaralharam diante dos olhos.
"Quem fez isso? Quem está por trás? E como… como conseguiram tantas informações pessoais?"
Um arrepio percorreu sua espinha.
Instintivamente, ergueu o olhar.
E o encontrou.
Na mesa imponente à frente, Ian estava sentado.
O mesmo envelope em mãos.
As mesmas páginas.
Os olhos fixos nela.
Mas não era apenas um olhar.
Era uma sentença.
Frio, calculado, profundo demais.
Olívia sentiu o mundo girar ao redor.
E só conseguiu pensar:
"Meu Deus… será que ele acredita nisso?"

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