O sol da tarde caía com suavidade, espalhando reflexos dourados pelo gramado. Crianças corriam de um lado para o outro, o riso delas era uma música leve, mas Olívia se sentia em outra frequência.
Sentada no banco de madeira, observava Léo, o verdadeiro sentido do amor na sua vida, subir na escorregador e se jogar com alegria, as risadas dele enchendo o ar. Era um som que deveria tranquilizá-la, sabia que este tempo era precioso, que todo tempo para ele era novo. Mas sua mente estava longe dali.
O dossiê.
As palavras de Ian.
O olhar enigmático de Nicolau.
E, por último, a voz venenosa de Clara ecoando em sua cabeça: “você vai se arrepender disso.”
Olivia tinha certeza de que quem estava por trás daquelas mentiras e boatos, havia sido os dois. Clara e Benjamin. Infelizmente, não tinha como provar. Mas em sua cabeça, planejava várias maneiras de voltar a sumir da vida daqueles dois.
Dessa vez, para sempre.
Sabia que era um tiro no escuro. Tudo que tinha ali, eram suas esperanças frustradas.
Olívia se encolheu, abraçando os próprios braços. Tentava sorrir cada vez que Léo olhava para ela, mas dentro estava um turbilhão. Se pudesse fazer um desejo, gostaria que nada fosse assim. Não importava para onde fosse, parecia sempre observada.
E não demorou a perceber.
Um casal de pais próximos cochichava olhando em sua direção. Mais à frente, uma mulher no celular parecia fixar os olhos nela por segundos a mais do que o normal.
É paranoia? — perguntou-se.
Mas o arrepio na nuca dizia o contrário. Por causa das fotos dela nas revistas de fofoca, ao lado de Ian, seu rosto invisível passara a ser conhecido da noite para o dia.
Ela odiou aquilo.
Odiou o anel.
Odiou o contrato.
Odiou, mais ainda, Ian.
E como em uma telepatia amarga, foi nesse instante que uma sombra se projetou sobre o banco. Olívia ergueu os olhos e o coração disparou.
Ian.
Estava ali, pronto para desfaze-la outra vez.
— Você acha que pode simplesmente me jogar a sua vida assim e depois me virar as costas? — foi a primeira coisa que ele falou ao chegar, a voz completamente impassível.
Sua postura estava impecável como sempre, mas havia algo no olhar dele, aquele controle frio, como se tivesse planejado cada passo até encontrá-la ali.
Todos olhares se voltaram para os dois. Óbvio. Pensavam que ela era sortuda por estar ao lado de um homem como ele. Elas só não podiam enxergar a gaiola de ouro que ela estava presa, refém dos seus próprios sentimentos.
Mas de algo mundo, ele fez todo mundo desaparecer, só fazendo com que Olívia enxergasse ele.
E o ódio.
— O que está fazendo aqui? — ela sussurrou, a voz carregada de surpresa e irritação. No mais profundo do seu coração, havia uma lacuna, a cortando em pedaços.
Ian não respondeu de imediato. Os olhos escuros se moveram do rosto dela para Léo, que acenava animado no alto da escada do brinquedo. Um pequeno sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios, mas logo desapareceu.
— Não achei que fosse seguro você andar sozinha por aí. — disse por fim, sentando-se ao lado dela sem pedir permissão.
Olívia bufou.
Era como pintar de colorido um céu cinza. Ele agia como se o último encontro não fosse nada, como se não tivesse deixado todas as suas memórias para trás.
— Não preciso de um guarda-costas.
— Precisa de muito mais do que isso. — a voz dele era baixa, firme, quase como um aviso.
O silêncio entre eles foi cortado pela voz de Léo.
— Mamãe! Olha! — Ele desceu pelo escorregador, os cabelos desgrenhados, rindo.
Correu até eles e, percebendo a tensão no ar, se enfiou entre os dois no banco, como se instintivamente soubesse que precisava ser ponte.
— Vocês estão brigando de novo?
Olívia se forçou a sorrir para o filho.
— Claro que não, querido. Só conversando.
Ian, sem piscar, completou:
— Uma conversa importante.
Olívia apertou o ombro de Léo e o incentivou a voltar para brincar. Assim que o menino se afastou, ela virou-se para Ian, os olhos faiscando.
— Você não tinha o direito de aparecer aqui.
— Eu tenho todo o direito. — rebateu, frio. — Você acha que pode simplesmente sumir e fingir que está tudo bem? Enquanto Clara e Benjamin estão tramando contra você? Contra nós?
— Contra nós? — Olívia quase riu, mas foi um riso amargo. — Não se atreva a me colocar no mesmo time que você.
Ian se inclinou um pouco mais, a voz baixa para que ninguém ao redor ouvisse:
— Quanto mais você luta contra mim, mais fraca fica diante deles. Benjamin não vai parar, Olívia. Ele já provou o que é capaz. Se você continuar assim, vai ser engolida viva.
— Ei, campeão… — ele se abaixou até ficar na altura do menino, o sorriso ensaiado surgindo. — Que tal voltarmos em uma máquina hoje? O motor desse carro ronca como um dragão, você vai adorar.
Os olhos de Léo brilharam no mesmo instante.
— Sério?
Ian assentiu, piscando cúmplice.
— Só se sua mãe deixar.
Olívia prendeu o ar, sentindo o controle da situação escapar pelos dedos.
— Ian, não é necessário...
— Deixa, mamãe! Por favor! — Léo a interrompeu, já agarrando a mão de Ian com entusiasmo.
O coração dela se apertou. O que queria era levar o filho para longe dali, sozinha, em paz. Mas agora estava presa outra vez na teia dele. Forçou um sorriso amargo, engolindo a frustração.
— Está bem. Vamos logo.
A viagem de volta foi silenciosa, exceto pelas risadas ocasionais de Léo a cada curva ou aceleração proposital de Ian. Olívia olhava pela janela, o estômago em nós, sentindo-se cada vez mais sufocada.
Mas nada poderia prepará-la para o que encontrariam na chegada.
Assim que o carro dobrou a alameda da mansão, as luzes vermelhas e azuis refletiram contra o para-brisa. Vários carros de polícia estavam estacionados em frente ao portão. Homens uniformizados circulavam pelo jardim, e o ar parecia carregado de tensão.
Léo, excitado, se inclinou para ver melhor.
— Mamãe, olha! Polícia!
Olívia gelou. O coração caiu no estômago.
E então, viu a figura imponente na entrada: Nicolau, parado com as mãos cruzadas nas costas, o olhar sombrio fixo nos três.
Ele não parecia surpreso.
Nem irritado.
Mas o peso em sua expressão era pior do que qualquer grito.
Quando Ian estacionou, Nicolau deu um passo à frente, a voz baixa e firme ecoando no silêncio de um fim de tarde:
— Estava na hora de vocês chegarem. Temos… assuntos sérios a tratar.
Olívia sentiu o sangue sumir do rosto.

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