A mansão nunca parecera tão fria. Tudo ao redor soava como um campo de batalha, esperando, sangrando.
Do carro, Olivia viu as luzes as refletindo nos vidros, espalhando o azul e vermelho pulsante como feridas abertas nas paredes de pedra.
Viaturas. Homens uniformizados. O coração dela afundou.
Ao lado, Ian permanecia impassível, como se já esperasse por aquilo.
— O que está acontecendo...? — a voz de Olivia falhou quando perguntou, mais para si mesma do que para ele.
Ian não respondeu. Apenas abriu a porta e saiu primeiro. Olívia sentiu o estômago virar quando desceu do carro também.
Parecendo os aguardar, Nicolau estava ali, firme na escadaria, de braços apoiados na bengala, os olhos escuros fixos neles como se já tivesse visto tudo antes mesmo de acontecer. A serenidade dele era mais assustadora do que a presença da policia.
Ian caminhava ao lado de Olivia, sem reação. Só Léo apertava a mão dela, sem entender, mas sentindo cada tremor. Olivia segurou a mão do filho com força. Sentiu a respiração curta dele, os olhos arregalados ao ver os policiais. Tentou sorrir, mas o rosto tremeu.
— Bom retorno. — disse, a voz grave ecoando como sentença. — Parece que chegaram na hora certa.
Dois policiais se aproximaram. Um deles ergueu a prancheta, mas os olhos não desgrudavam de Olívia.
— Senhorita Belmonte… recebemos denúncias formais. Documentos apontam seu envolvimento em crimes de fraudes financeiras e associação criminoso.
Aquelas palavras ecoaram como socos. Fraudes. Criminosa. Associação. Cada uma se cravou nela.
O coração dela disparou. Ela sentiu as pernas bambas.
— Isso é um absurdo! — a voz saiu trêmula, mas carregada de indignação. — Quem teve coragem de armar essas coisas para mim? Quem denunciou?
O policial manteve o tom neutro.
— Não estamos aqui para julgar. Apenas para informá-la de que está sob investigação.
Olivia engoliu em seco. Sentiu que o chão poderia sumir debaixo dos pés. Virou-se instintivamente para Ian, buscando algum traço de apoio. Mas o olhar dele... frio, indecifrável. Ele parecia medir, pesar, decidir se valia a pena defende-la ou não.
Léo puxou a mão da mãe, com os olhos arregalados.
— Mamãe, o que…?
Olívia se agachou na hora, segurando o rosto dele entre as mãos.
— Nada, amor. Não é nada. — A voz falhou, mas ela forçou um sorriso. — Vai ficar tudo bem.
Ian continuava observando toda a cena. A mandíbula cerrada, mas o rosto como uma pedra de gelo. Frio demais. Ele não deu um passo, não disse uma palavra para defendê-la. Aquilo doeu em Olivia mais do que ela poderia imaginar.
E foi Nicolau quem quebrou o silêncio, descendo dois degraus com uma calma que parecia debochar da tensão no ar, um suspiro quase teatral.
— Vejam só... — disse, encarando ora os policiais, ora Olivia. — As paredes desta casa já ouviram muitas histórias. Mas confesso... algumas denúncias chegam com ousadia particular.
Olívia o encarou, furiosa.
— Tudo isso é mentira! — ela explodiu, o rosto quente, a voz vacilante de tanta fúria. — Você realmente vai fingir que não sabe quem fez isso? Quem inventou isso?
Nicolau inclinou a cabeça, os olhos penetrantes. Se aproximou um passo. Mas não levantou a voz, não precisou.
— Segredos, minha querida... — A pausa foi longa demais, cruel. — Uma hora, sempre começa a pesar. E o seu parece muito mal guardado.
A frase bateu nela como um tiro. O sangue gelou. Sentiu o ar sumir dos pulmões. A frase caiu como um veneno letal, lento.
Ele sabia. Não tudo, não sabia exatamente o quê, mas sabia que havia algo.
Os policiais trocaram olhares e recuaram discretamente.
— Faremos nosso trabalho, senhor Moretti. Voltaremos em breve para novas averiguações.
— Claro… tinha que ser eles! Sempre envenenando tudo, sempre destruindo! — Olivia cuspiu. — E mesmo assim, vocês ainda parecem acreditar. Não veem o que estão na cara de vocês?
— Eles não sabem com quem mexem… — Ian rosnou, cerrando os punhos, a mandíbula travada.
Finalmente uma expressão pintando seu rosto.
Nicolau ergueu a bengala, interrompendo os dois.
— Não. Assim como vocês também não sabem. — Nicolau concordou, mas seu tom não tinha nada de alívio. Era uma ameaça velada, o olhar dele queimando nos dois. — Dentro desta casa, quem decide quem queima ou sobrevive sou eu.
As palavras pesaram como sentença. Caindo sobre todos. Até Léo, que segurava a mão da mãe com força, percebeu o clima.
Olívia engoliu em seco, ainda abraçada a Léo, que tremia ao lado dela. Tentou se recompor, se ajoelhou diante dele, e forçou um sorriso, acariciando os seus cabelos.
— Está tudo bem, meu amor. — A voz falhou, mas ela forçou do mesmo jeito. — Vai ficar tudo bem. Vamos subir, já, já você vai descansar.
Ele assentiu devagar, mas os olhos denunciavam o medo.
Nicolau não desviou os olhos, analisando cada detalhe daquela cena com atenção. O carinho dela com o filho, a forma como Ian observava, o peso do silêncio. Tudo aquilo era muito mais revelador que qualquer dossiê.
Por fim, respirou fundo, erguendo a voz:
— A guerra dentro desta família começou. — A frase saiu como um decreto. — E a partir de agora, ninguém mais sai ileso.
Virou-se lentamente, como se já tivesse decidido o destino de todos.
— Ian. Ao meu escritório. Agora.
E desapareceu pelo corredor, a bengala batendo no mármore como um relógio de contagem regressiva.
Olívia permaneceu no hall, abraçada a Léo, com a respiração curta e o coração em pedaços, sabendo que aquela noite tinha mudado tudo.

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