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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 46

O escritório de Nicolau parecia mais sombrio naquela noite. Sempre parecendo maior do que realmente era. Talvez fosse o silêncio pesado, as paredes forradas de madeira escura e aquele odor de charuto que parecia nunca desaparecer.

As cortinas pesadas fechavam o mundo lá fora, deixando apenas a luz baixa do abajur e o cheiro de charuto queimado pairando no ar.

Ian estava de pé, imóvel, diante da mesa maciça do avô, as mãos nos bolsos, o rosto controlado como uma estátua de mármore. Mas por dentro, os músculos dele queimavam. O corpo rígido, pronto para explodir.

Nicolau, sentado atrás da mesa de mogno, em sua poltrona de couro, tamborilava os dedos lentamente sobre a superfície polida. Cada batida parecia o som de um relógio, marcando não as horas, mas a paciência que se esgotava. Marcando um julgamento inevitável.

— Sabe o que mais me revolta, Ian? — a voz dele soou grave, pausada, como um juiz antes da sentença. — Em setenta e seis anos… setenta e seis… a polícia nunca, jamais, ousou pisar neste chão. Nunca houve manchetes desonrando o nome Moretti, sendo arrastado com tanta lama. Nunca houve olhares de desconfiança sobre nós. Até você.

O golpe foi seco. Ian respirou fundo, tentando conter o nó de raiva que subia pela garganta.

— Desde que trouxe aquela mulher — Nicolau continuou, o dedo acusador invisível no ar — todo santo dia é um escândalo novo. Uma vergonha nova.

As palavras cortaram como aço. Ian fechou os olhos por um segundo, lutando contra o impulso de apenas explodir, cerrou o maxilar, mas manteve o silêncio, como sempre fazia. Só que dessa vez algo queimava dentro dele, uma fúria que não quis mais conter.

Quando abriu os olhos novamente, o gelo habitual não estava lá. O fogo, sim.

— Isso não tem nada a ver com a Olívia! — a voz dele saiu forte, firme, reverberando pelas paredes, e até ele mesmo se surpreendeu com o tom.

Nicolau parou de tamborilar os dedos. Levantou lentamente o queixo, observando o neto.

— Ah, não?

— Não! — Ian deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Você sabe muito bem quem começou essa guerra. Benjamin. Clara. São eles. Foram eles que enfiaram essa bagunça dentro da casa. Se está procurando culpados, olhe para eles. Mas não… — a voz dele oscilou entre raiva e dor — você prefere fechá-los nos braços e soltar a corda em cima de mim. Deixando-os impune, como sempre.

O silêncio caiu como uma navalha, mortal. Nicolau observava-o com uma calma que era ainda mais ameaçadora do que um grito. Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. Não estava acostumado a ser contestado, ainda mais por Ian.

O velho Moretti respirou fundo, o olhar brilhando de um orgulho amargo.

— Então, finalmente… você cria coragem para me enfrentar. — o velho Moretti apoiou os cotovelos na mesa e uniu as mãos, encarando-o como se fosse um jogo de xadrez. — Sempre tão obediente. Sempre tão previsível. Eu estava quase entediado.

Ian respirava pesado. Não costumava se deixar levar, mas naquela noite não conseguia esconder a fissura.

— E sim, eu já esperava essa sujeira de Benjamin e Clara. Não se preocupe, já sei o que farei com eles. Mas, Ian... — inclinou-se para frente, o olhar cortante. — O assunto aqui é você.

Cada palavra que saia da boca do seu avô, deixava Ian ainda mais irritado. Lutou para manter a postura, mas os olhos fixos revelavam o esforço para não deixar escapar nenhuma rachadura.

Nicolau inclinou-se para frente e prosseguiu, a voz calma, quase calculada:

— Essa mulher… — ele disse devagar, saboreando as palavras. — Ela me lembra de algo. Você tem certeza de que não é um fantasma do seu passado?

O coração de Ian latejou em um compasso estranho. Por um instante, viu flashes confusos na mente, como se alguma lembrança antiga quisesse emergir, viu aquela maldita tatuagem outra vez. Mas não. Não era hora. Aquilo não era nada.

Por um momento, pensou em perder o controle, mas a frieza venceu.

— Você está delirando, avô. — respondeu, frio.

Um sorriso se abriu nos lábios de Nicolau. Não precisava de mais resposta. Sabia que tinha atingido um ponto sensível.

— Delirando? Ou talvez enxergando o que você tenta esconder até de si mesmo?

Ian sentiu a garganta secar. Mas não cedeu. Não diante dele.

— Seja claro.

— Claro? — Nicolau riu baixo. — Clareza não existe nesta família, Ian. Só sombras.

Léo suspirou baixinho e fechou os olhos. Quando ele finalmente dormiu, quarto mergulhou em silêncio, caindo sobre ela como um peso insuportável. Olívia sentiu o peso desabar sobre seus ombros.

Ela sentou-se no chão, ao lado da cama, as costas contra a parede, e finalmente deixou as lágrimas caírem. Desabou.

As lagrimas vieram sem controlar. Tudo parecia demais. O dossiê. Ian. Nicolau. A polícia. Cada inimigo que surgia na sombra. Cada acusação, cada olhar... tudo martelando em sua mente. E com a cirurgia do Leo chegando, o medo de perde-lo ainda corria mais do que tudo.

Por um instante, ela fechou os olhos e flashes voltaram em sua memória, atravessando tudo.

Léo pequeno, numa cama de hospital, os olhos cheios de medo, o soro pendurado em seu corpo tão frágil.

Ela no corredor, sozinha, com o som das máquinas apitando ao fundo, implorando a Deus para não levar seu filho.

Ela levou a mão ao peito, tentando controlar a respiração.

Eu não posso falhar com ele. Não posso. Não posso desistir agora.

De repente, surgiu um barulho no corredor. Passos pesados ecoando. O coração dela acelerou. A porta rangeu.

Era Ian.

Ele estava parado à soleira, o rosto na penumbra, a expressão carregada de algo novo. Os olhos estavam diferentes, cheio de algo que ela não soube disfarçar.

Havia peso ali, mas também… decisão.

Olívia engoliu em seco. Sabia. Nicolau tinha acabado de colocar algo nas mãos dele. E, de repente, um calafrio percorreu sua espinha.

O que Nicolau teria exigido agora?

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