Helena voltou silenciosa ao quarto quando encontrou Olivia e Ian ali, parados.
— Voltei, senhorita Belmonte. Senhor Moretti. — ela os cumprimenta e entra no quarto, indo diretamente seguir seu trabalho.
Com delicadeza, ela ajeitou a coberta de Léo e Olivia suspirou aliviada.
— Obrigada, Helena. — murmurou. — Mas você não precisa ficar esta noite de novo. Eu mesma fico com ele.
Helena sorriu com suavidade. Aquele sorriso doce que carregava segurança.
— Não há razão para se preocupar. Ele está bem e dorme tranquilo. Pode descansar também, senhora.
O menino dormia tranquilo, o peito subindo e descendo no ritmo sereno da infância. Mas, dentro dela, não havia paz. Apenas uma pressão sufocante, uma mistura de medo, raiva e exaustão.
Ela agradeceu à enfermeira com a voz quase rouca, e assentiu, mas seu corpo estava em chamas. Sentiu que não conseguia mais respirar naquele quarto, não enquanto Ian ainda permanecia ali, parado. Precisava sair dali. Não por Leo, mas por si.
Mas descansar era impossível. Quando saiu do quarto, Ian a seguiu e ficou ali, encostado na parede, as mãos nos bolsos, o olhar firme demais para alguém que finge calma. A postura de quem observa o mundo, mas sem se deixar observar. E ele a observava, como se pudesse decifrar seus pensamentos só pela respiração. Seus olhos estavam nela. Sempre nela.
O corredor pareceu mais estreito do que nunca, como se as paredes da mansão quisessem engoli-la.
— Você está bem? — a pergunta veio baixa, quase íntima, mas carregada de algo que não era simples preocupação. Ele soava quase... humano.
Olívia soltou uma risada curta, sem humor.
— Não. — disse, direta. — Não estou. Eu só queria sair daqui. Só por um momento. Respirar como uma pessoa normal, sem sentir o peso dessa casa. Desses olhos. Dessas intrigas.
Ian não respondeu. Não imediatamente. Ficou pensativo, a estudava em silêncio, como se medisse o peso daquelas palavras contra a própria experiência, repassando qualquer possibilidade em sua mente.
Finalmente, depois de alguns segundos, empurrou-se da parede e disse apenas:
— Vem comigo.
Ela arqueou a sobrancelha e o encarou, desconfiada.
— Pra onde?
— Confia.
A palavra caiu entre eles como um desafio. Olívia quase riu de novo, confiar em Ian Moretti parecia a coisa mais insana que poderia fazer. Mas, ao mesmo tempo, havia algo no tom dele que quebrou sua resistência. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse o coração.
Ele não disse mais nada, apenas inclinou a cabeça em direção a escada. Os olhos fixos, quase um desafio.
Olivia hesitou... Mas acabou o seguindo.
A estrada parecia interminável e o caminho foi feito sem que ninguém falasse nada.
O carro deslizava pela noite silenciosa, os faróis iluminando trechos de árvores e sombras que passavam rápidas. Ian dirigia concentrado, mas o silêncio entre eles não era vazio. Era denso, quase palpável. Havia algo nos ombros dele, uma rigidez diferente. Não era só o homem de negócios, o neto do patriarca. Era outro Ian. Um que ela ainda não conhecia.
Olívia olhava pela janela, mas sua mente estava inquieta. O que ele queria mostrar? Seria mais uma jogada? Mais uma manipulação?
Quando o carro parou, ela arregalou os olhos, em seguida piscou surpresa.
A frente, havia um pequeno lago, escondido entre gramados verdejantes. Olivia deixou escapar um suspiro quando viu o lugar cercado por aquelas gramas que brilhava sob a luz prateada da lua. O reflexo da água era tão perfeito que parecia outro céu deitado sobre a terra, quase como prata líquida.
Ali, o silêncio era sagrado.
Ela inspirou fundo, sentindo o peito abrir pela primeira vez naquela noite.
— Meu Deus… — sussurrou, sentindo um nó na garganta. — É lindo.
— É o meu lugar preferido. — Ian respondeu, ainda olhando para a água. A voz dele tinha uma suavidade incomum. — Quando eu era criança, vinha pra cá sempre que precisava fugir da mansão. Era o único lugar em que eu conseguia… respirar.
Olívia o encarou surpresa. Ele nunca falava de si. Nunca.
— E agora? — arriscou.
Ian assentiu em silêncio, mas não disse nada. Apenas deixou o silêncio tomar conta, enquanto olhavam o reflexo da lua no lago.
Até que, de repente, Ian falou:
— Às vezes… eu invejo o Léo.
Olívia virou-se para ele, surpresa.
— O quê?
Os olhos dele estavam fixos no reflexo da lua, mas a voz vinha carregada de algo cru, dolorido. Ele deu um meio sorriso, mas os olhos estavam escuros, sérios.
— Ele tem você. Tem alguém que lutaria contra o mundo por ele, que daria a vida por ele. Eu... nunca tive isso.
As palavras o traíram. Por um segundo, Ian Moretti não era o homem frio, calculista, impenetrável. Era apenas um menino ferido, escondido atrás de anos de muralhas.
Olívia sentiu o coração apertar. Aquelas palavras acertaram em cheio. Um aperto tomou a sua garganta. Ela nunca o ouvira falar assim. Tão nu, tão intimo.
— Ian…
Ele finalmente virou o rosto. E naquele instante, estavam tão próximos que ela pôde sentir a respiração dele. Quente. Perigosa. O ar entre eles vibrou.
Olívia não sabia se era medo, raiva… ou desejo. Mas o corpo dela reagiu antes que a mente decidisse.
Os olhos dele desceram para os lábios dela. Lentamente. Sem pressa. Como se tivesse todo o tempo do mundo.
O coração de Olívia disparou. A lua, o lago, o silêncio… tudo desapareceu.
E quando ele inclinou o rosto, tão perto que os lábios quase roçaram os dela…
Ela estremeceu.

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