O silêncio da mansão foi quebrado no instante em que Olívia surgiu na ampla porta da entrada.
Naquele hall iluminado apenas por um lustre pesado, Clara e Benjamin a aguardavam. Não era por acaso. Não era coincidência.
O sorriso de Clara foi o primeiro a aparecer, doce demais para ser sincero, venenoso demais para ser ignorado.
— Olha só… a grande estrela da noite voltou. — ela disse, a voz melosa como mel velho. — Estava ansiosa pra te dar os parabéns. Essa sua vida de novela… Noiva de Ian, mãe dedicada, mártir injustiçada. Quase dá pra esquecer de todos os detalhes sujos, não é?
Olívia congelou por um segundo, mas logo se recompôs. O estômago revirava, mas o olhar dela era firme.
— Clara… — disse baixo, como quem pesa cada palavra para não explodir de imediato. — Se você não tem nada útil pra dizer, eu sugiro que abra caminho.
Benjamin riu. Uma risada curta, amarga, que preencheu o espaço como faca arranhando vidro.
— Útil? — ele repetiu. — Eu diria que estamos prestando um favor. Você se infiltrou na nossa família com sua carinha de vítima, mas já está na hora de todo mundo saber quem você realmente é.
Ele ergueu um envelope grosso, como se fosse uma arma. O dossiê. O mesmo que havia virado a empresa de cabeça para baixo.
— Isso aqui não é invenção, Olívia. É prova. É a sua vida escancarada. Ou vai dizer que forjaram até a sua assinatura?
O sangue de Olívia ferveu, mas ela não deu a eles a satisfação de vê-la tremer. Aproximou-se um passo, a voz mais firme do que esperava que fosse.
— Vocês podem inventar o que quiserem, mas sabem tão bem quanto eu que esse dossiê é mentira. Vocês dois sempre souberam manipular, torcer, enganar. Mas eu não vou cair nesse jogo de novo.
Clara deu um risinho debochado, inclinando a cabeça para o lado.
— Ai, Olivia… sempre tão dramática. — disse, com falsa compaixão. — Não é preciso inventar muito quando a própria pessoa já é um escândalo ambulante.
Olívia fechou os punhos, respirou fundo. Estava decidida a não ceder. Mas então Clara falou:
— E esse seu menininho… tão frágil, não? — Clara deixou a frase escapar como uma serpente. — Será que herdou a mesma fraqueza da mãe?
Foi como um estilhaço no peito de Olívia. Um instante antes de perder o controle.
Ela avançou, os olhos faiscando, pronta para arrancar o sorriso do rosto da rival. Mas antes que pudesse chegar até Clara, Benjamin a segurou pelo braço com força.
— Olívia! — ele disse, o tom entre a ordem e a ameaça. — Não faça isso. Você não quer se mostrar ainda mais desequilibrada do que já aparenta.
— Solta! — ela cuspiu, tentando se soltar. — Me solta agora, Benjamin!
Clara se aproximou lentamente, aproveitando o controle da cena. A voz dela era puro veneno, doce e letal.
— Você devia se acostumar com a ideia. Se continuar nesse caminho, pode acabar me vendo muito mais perto do seu filho do que gostaria. Crianças precisam de referências fortes, estáveis. E vamos ser sinceras: você nunca foi exatamente isso.
Os olhos de Olívia arderam.
— Se você tocar no nome dele de novo, Clara, eu juro que…
— Vai o quê? — Clara interrompeu, sorrindo. — Vai me bater de novo? Vai mostrar a todos como é violenta?
Benjamin interveio com um sorriso satisfeito, como quem dá a última martelada.
— Escuta bem, Olivia. Isso aqui não é apenas uma provocação. É um aviso. Ou você se afasta do Ian… ou vai afundar junto com ele. Não existe meio termo.
As palavras ecoaram no ar.
Olívia ofegava, o corpo inteiro em chamas. A mente gritava para não mostrar medo, mas o coração estava despedaçado.
— Vocês são podres. — disse, com a voz baixa, mas cortante. — Podres até a raiz.
E foi nesse momento que a tensão se rompeu.
— Chega.
A voz não veio de Olivia, nem de Benjamin, nem de Clara.
Veio da porta de entrada.
Ian. Os olhos dele queimavam, a expressão carregada de uma fúria que raramente escapava de seu controle.
Ele atravessou o espaço com passos firmes, o ar ao redor dele parecia vibrar.
Benjamin ainda segurava o braço de Olívia quando a voz de Ian ecoou:
— Solta ela.
Ian o empurrou mais uma vez contra a parede antes de soltá-lo. Benjamin ajeitou o paletó com raiva, o orgulho ferido, mas não disse nada.
Clara, tentando quebrar a tensão, interveio com veneno:
— Engraçado ver você tão exaltado, Ian. Parece até que sente alguma coisa de verdade por ela…
Ian se virou, os olhos queimando, e respondeu de forma cortante:
— Não parece. Eu sinto.
As palavras caíram no ar como granadas. Clara arregalou os olhos, Olívia sentiu o chão desaparecer sob seus pés, e Benjamin ficou lívido de ódio.
Foi nesse momento que Nicolau apareceu no alto da escada, observando a cena como um rei diante de gladiadores na arena.
— Interessante… — disse, a voz grave, lenta, gélida. — Interessante ver como as feras da minha casa se destroem sozinhas.
O silêncio caiu como um manto mortal, se tornando absoluto enquanto ele descia os degraus com a calma de um predador.
Clara baixou os olhos. Benjamin fechou o punho. Olívia sentiu o corpo gelar. Ian permaneceu firme, mas a tensão em seus ombros era visível.
Nicolau parou no último degrau, o olhar passeando por cada um deles. Primeiro Clara. Depois Benjamin. Depois Ian. E por fim… Olívia.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios. Não havia humor, apenas ameaça.
— Continuem. — ele disse, com suavidade. — Quero ver até onde vai a coragem de cada um.
Olívia engoliu em seco.
Ian manteve os olhos fixos no avô, sem desviar.
Clara mordeu os lábios.
Benjamin respirou fundo, mas não ousou falar.
E a sensação era clara: aquela noite não terminaria ali.

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