O relógio de parede soava lento, cada tique-taque parecia amplificar o silêncio sufocante que pesava como chumbo no salão da mansão.
Nicolau descia os degraus da escada como se o tempo obedecesse ao compasso de seus passos. Cada batida da bengala no mármore reverberava como um veredito, os passos arrastados ecoando como um julgamento. Cada olhar vindo como uma sentença silencioso.
Clara ajustou o cabelo, inquieta, mas recuou um pouco. Benjamin manteve os braços cruzados, mas o maxilar contraído denunciava a tensão. Ian estava imóvel, mas seus olhos queimavam. E Olívia… o coração dela estava descompassado, cada batida um alerta de perigo, estremeceu sem nem perceber.
Quando Nicolau chegou ao último degrau, não havia mais ar. Só expectativa.
— Interessante. — disse finalmente, a voz grave arranhada pelo tempo, mas firme. — Ver como as feras da minha casa se dilaceram... diante dos meus olhos. — repetiu.
Ninguém ousou falar.
Nicolau parou no meio da sala, apoiando-se, os olhos varrendo cada rosto como se estivesse medindo suas sentenças. O olhar dele primeiro se fixou em Clara.
— Você. — disse seco, o tom carregado de desprezo. — Sempre nociva. Abre a boca como quem abre uma jarra de cobras.
O rosto dela ardeu, mas ela sustentou o olhar com um falso sorriso, como se fosse elogio. Depois, fingiu inocência, mas seus olhos faiscaram.
— Eu só falei a verdade, senhor Moretti. — disse com falsa doçura. — Se a verdade incomoda, não é culpa minha.
Olívia cerrou os punhos. O veneno da outra a corroía.
Nicolau então virou-se para Benjamin.
— Benjamin… — murmurou, lento, o nome saindo quase cuspido. — Um homem que carrega o nome da família. Agora reduzido a ataques mesquinhos e covardes, escondendo-se atrás de papéis e acusações, como se isso fizesse de você mais digno. Uma vergonha.
Benjamin endureceu a mandíbula, o ódio queimava nos olhos dele. Deu um passo à frente, raiva latejando.
— Eu não sou o que o senhor pensa, vovô. Não vou ficar quieto enquanto ela… — apontou para Olívia com desdém — destrói o que resta dessa família.
Olívia arfou, mas Nicolau ergueu a mão, calando-o como se fosse um servo.
— Você sempre foi movido pela inveja, Benjamin. E a inveja, cedo ou tarde, mata o próprio hospedeiro.
O silêncio seguinte pesou, Benjamin não ousou responder mais nada.
E então, os olhos de Nicolau caíram sobre Ian.
— E você, neto… — o tom mudou, carregado de decepção, a voz caindo como um golpe. — Perdendo o controle. Partindo para a raiva e explodindo diante de todos como um garoto sem disciplina. Isso não é a postura de um Moretti.
Ian sustentou o olhar, o peito subindo e descendo, respirando fundo, mas ele se manteve calado. Havia fúria, mas também contenção.
Por fim, Nicolau deixou os olhos recaírem sobre Olívia. Diferente dos outros, não havia ira em seu olhar. Não era um olhar raivoso, mas curioso, enigmático, afiado.
— E você, menina… — a voz suavizou, lenta, mas parecia lâmina oculta em veludo. — A coragem de uma mãe é louvável. Proteger o filho acima de tudo... isso eu entendo. Mas... — inclinou-se a cabeça, como quem saboreia a frase. — Lembre-se: tudo que se protege demais, cedo ou tarde, vira a fraqueza que destrói.
O coração de Olivia disparou. Ela engoliu em seco. Aquilo não era só uma observação. Era um aviso.
O salão inteiro respirava tensão. Nicolau deixou que o silêncio se prolongasse antes de continuar.
— Então... vamos cortar o teatro. — disse, se endireitando. — O dossiê. — Os olhos foram imediatamente para Benjamin e Clara. — Vocês trouxeram essa sujeira para dentro da minha casa. Quero ouvir da boca de vocês.
Benjamin ergueu o queijo. aproveitou a brecha e ergueu o dossiê, balançando-o como prova.
— Não trouxemos nada além da verdade. — sua voz estava seca. — Vovô, não ignore os fatos. Está tudo aqui. Datas, documentos, provas. Essa mulher não passa de uma golpista.
Clara completou, com aquele tom nocivamente doce que lhe era típico:
— Isso mesmo, Nicolau. Aí tem todas as conexões. Só não enxerga quem não quer.
Olívia sentiu o sangue ferver. Ela deu um passo à frente, a voz saiu mais firme do que ela esperava:
— Isso é mentira! Eu não tenho nada a esconder. Esse dossiê é forjado, manipulado! Vocês sabem disso!
— Se for apenas uma farsa, não irá sobreviverá aos primeiros meses. — disse Nicolau, os olhos fixos nos dois. — Nenhuma mentira ou encenação dura tanto.
Olívia piscou, tentando processar aquelas palavras. Mas antes que pudesse se recompor, Nicolau virou lentamente para Ian. Ele inclinou a cabeça, frio, e perguntou:
— Já marcou a data?
O coração de Olívia congelou. Ela girou o pescoço para Ian, os olhos arregalados.
— Data...? — a voz saiu num sussurro trêmulo, quase inaudível.
Ian endureceu o rosto, mas não respondeu. O silêncio era mais revelador do que qualquer palavra.
Ela não sabia se queria entender o que aquilo significava. Mas sabia que significa alguma coisa que ela odiaria. Algo que Ian estava escondendo.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Ian abriu a boca, pronto para responder, mas não teve tempo.
Antes que a verdade viesse à tona, passos apressados ecoaram na escada.
Helena surgiu, pálida, ofegante, o olhar cravado em Olívia.
— Senhora… — disse, quase sem fôlego, olhando diretamente para Olivia. — É o Léo.
O coração de Olívia parou.
O mundo congelou.
— O quê...? — sussurrou, sem ar.
Sem pensar, Olívia disparou pelas escadas, o corpo movido só pelo instinto de mãe. O salão ficou em silêncio, apenas os ecos do salto dela batendo contra o mármore.

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