O quarto de Leo parecia pequeno demais para tanta tensão. O menino, ainda pálido após a crise, respirava lentamente diante do aparelho medidor de Helena, mas estava estabilizado, ainda que frágil demais. O silêncio era cortado apenas pelo som baixo dos equipamentos que monitoravam seus batimentos.
Decidiram sair dali, porque Leo não precisava ou merecia ver o que ainda estava por vir.
O corredor da mansão ainda estava impregnado pelo peso do que acontecera. O coração de Olívia latejava no peito, a respiração curta, como se todo o oxigênio tivesse sido sugado daquela casa.
E agora Nicolau se atrevia a dizer que não poderia ir ao hospital? A verdadeira guerra estava prestes a começar.
Nicolau andou alguns centímetros, apoiando-se na bengala de forma quase teatral. Sua presença bastava para silenciar qualquer um. Os olhos frios percorriam Ian, Olivia, e por fim, pousaram em Helena, através da porta do quarto, como se até ela fosse um detalhe no meio do seu jogo.
Olivia se apressou e fechou a porta. Naquele momento, não queria que ele sequer olhasse para o seu filho.
— Ele não vai a hospital nenhum. — decretou outra vez. A voz soou como sentença, grave, definitiva. — OS melhores médicos virão até aqui.
Olivia estava prestes a dar um passo a frente, quando Ian a segurou. Ele respirou fundo, tentando manter o tom controlado.
— Avô... o caso do Leo é delicado. Mesmo com a equipe toda aqui, não há estrutura, nem equipamentos. Ele precisa ser internado.
Nicolau virou lentamente o rosto, estreitando os olhos em direção ao neto.
— Você não entende, Ian. — murmurou. — Um herdeiro Moretti não é visto caindo. Nunca.
Olívia não aguentou e sua voz, finalmente, explodiu:
— Chega! — o grito rasgou o silêncio, carregado de desespero. — O senhor pode mandar em tudo nessa casa. Pode decidir o destino de todos aqui dentro. — a voz dela estava firme, vibrando de dor. — Pode esmagar e manipular a vida dos seus netos, pode me humilhar o quanto quiser... Mas sobre a vida do MEU filho, Nicolau, o senhor não tem poder nenhum. Nunca.
O ar ficou instantaneamente mais denso. O silêncio foi tão absoluto que até Helena se encolheu atrás da porta. Ian piscou, surpreso com a coragem dela, os olhos um tanto arregalados. Porque ele estava ciente de que aquela afronta era algo que ninguém ousava fazer.
Nicolau, porém, não se alterou, não se irritou. Pelo contrário, lentamente, arqueou uma sobrancelha, surpreso e, de certa forma, divertido.
— Curioso… — disse com aquela calma gélida. — Todos esses anos, ninguém ousou me desafiar dessa maneira. E agora você, uma forasteira, tem a audácia de gritar comigo debaixo do meu teto.
Olivia deu um passo a frente, os olhos marejados, o peito subindo e descendo de raiva.
— Porque ninguém nunca teve algo a perder como eu tenho. — rebateu. — Eu morreria antes de ver o Léo sofrer mais do que já sofreu.
Nicolau sorriu. Não um sorriso amigável, mas algo sombrio, enigmático que arrepiava a pele.
— É sempre assim… — murmurou. — O que mais protegemos se torna exatamente o que nos destrói. Mas como falei antes, Moretti não expõem suas fraquezas ao mundo.
Olívia sentiu o estômago se revirar.
— Ele não é um Moretti! — gritou. — Não é parte desse seu jogo podre!
Foi então que Nicolau inclinou a cabeça, fixando-a com um olhar que parecia atravessá-la.
— Tem certeza? — perguntou, devorando-a com o olhar.
O coração de Olivia parou. O jeito como ele disse aquilo… A frase dita em tom baixo e carregado de intenção, fez sua pele arrepiar. Algo no olhar dele a fez congelar. Como se ele soubesse... mais do que deveria.
Como se soubesse de algo que ela lutava para manter enterrado. Como se estivesse arrancando os segredos dela à força, sem precisar ouvir uma palavra.
Ela tentou responder, mas a garganta fechou e a voz simplesmente não saiu.
E então ele continuou, implacável, se aproximando devagar e apoiando-se na bengala.
— Se você e Ian realmente se casarem, esse garoto será herdeiro, queira você ou não. Indiretamente, mas será. A não ser, claro… — ele inclinou levemente a cabeça, como quem espreme a verdade. — Que tudo isso seja realmente uma farsa. Nesse caso, não haverá casamento nenhum.
Olívia apertou os punhos até as unhas cravarem na palma da mão, ofegando. Estava a segundos de soltar a verdade, de jogar tudo para o ar, de gritar, de acabar com tudo. Mas Ian percebeu. E se isso acontecesse, tudo estaria perdido.
— Ele vai para o hospital. — a voz dele ecoou firme, cortante.
Nicolau parou. Em seguida, virou o rosto lentamente para o neto. Houve um silêncio pesado, quase mortal, um instante longo e tenso. E então, ao invés da explosão que todos esperavam, ele soltou uma risada seca.
— Hm. — murmurou. — Então é isso. Essa mulher já é a sua fraqueza, Ian.
Ele não discutiu mais.
Virou-se e desceu os degraus da escada com calma, como se tivesse vencido, deixando atrás de si o eco de sua sentença e um silêncio pesado.
Olívia levou alguns segundos para respirar de novo, e só então percebeu que estava tremendo, a garganta ardendo com as palavras engolidas. Ela só queria correr, agarrar o filho, leva-lo dali.
Ian não parecia mais um inimigo. Agora, eles estavam correndo juntos, lado a lado. Como aliados.
E no fundo, isso a assustava mais do que Nicolau.
Enquanto o resto da mansão se aquietava, depois da tensão sufocante com Léo, uma outra tempestade se formava a portas fechadas.
No estúdio, Clara trancou a porta com um giro lento da chave, o rosto ainda marcado pelo ódio que não sabia esconder. Benjamin estava de pé, andando de um lado para o outro como uma fera enjaulada.
— Ian perdeu o controle. — ele rosnou, os olhos queimando. — E se ele continuar desse jeito, Nicolau pode muito bem entregá-lo de bandeja. Mas não vou esperar. Eu mesmo vou destruí-lo.
Clara se encostou na mesa, cruzando os braços, a voz baixa e venenosa:
— E eu vou arrancar tudo o que aquela idiota da Olívia ama. Tudo. Quero ver se ainda terá forças para bancar a heroína depois disso.
Benjamin parou, fixando o olhar nela.
— Está falando do filho dela.
Um sorriso lento curvou os lábios de Clara.
— Um menino tão… frágil. Não precisaremos fazer muito. Só um empurrão, e ela mesma cai em pedaços.
Benjamin respirou fundo, o rancor crescendo.
— Melhor ainda. Vamos espalhar que essa doença nunca existiu. Que ela inventou tudo para manipular Ian e se segurar dentro da família.
Clara riu, amarga.
— Perfeito. Mas não vai bastar. O que realmente pode destruí-la é o que ela esconde do passado. — ela se inclinou para ele, como quem compartilha um veneno. — E eu sei que existe algo. Sempre soube.
Benjamin a encarou, sério, sombrio.
— Então vamos descobrir. Se ela tem um segredo… será a nossa arma.
E então, em um beijo doentio, aquele pacto foi selado. Não havia amor, nem lealdade entre eles. Apenas ódio. Ódio suficiente para transformar a fragilidade de Olívia em uma bomba-relógio prestes a explodir.

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