O carro deslizou pela noite em direção ao hospital, mas dentro dele, o silêncio era tão pesado que parecia gritar.
Olívia estava com as mãos grudadas nas de Léo, o coração batendo em um ritmo frenético. O menino respirava fundo, já mais estável, mas ainda pálido demais. Ian, no volante, dirigia rápido, os olhos fixos na estrada, firme, decidido, como se cada curva fosse uma batalha a vencer.
Quando o carro finalmente parou na entrada iluminada do hospital, o que Olívia não esperava era a cena diante deles.
Um grupo de repórteres e fotógrafos esperava na porta. As câmeras dispararam flashes assim que reconheceram o carro de Ian Moretti. Vozes se sobrepuseram:
— “Senhora Belmonte, é verdade que inventou a doença do filho para manipular os Moretti?”
— “Doutor Moretti, essa é a nova golpista da família? O que tem a dizer sobre o dossiê?”
— “O menino está realmente doente, ou é mais um teatro?”
Olívia congelou. O sangue deixou seu rosto, substituído por uma fúria silenciosa e uma dor aguda. A vontade era de gritar, de esmagar aquelas câmeras, de arrancar os olhos de quem ousava usar o nome de Léo assim. Mas Léo estava ali, no banco de trás, olhando confuso para o tumulto.
— Mamãe… por que eles tão bravos? — a voz fraca do menino foi como um punhal.
Antes que ela pudesse responder, Ian já estava fora do carro. Abriu a porta dela, ignorando completamente os repórteres, e estendeu a mão. O gesto foi imperativo, firme.
Ela hesitou um segundo, mas Léo a puxou, e ela segurou.
— Ninguém toca em vocês. — Ian disse baixo, mas com uma intensidade cortante.
Ele os conduziu para dentro, o braço firme nas costas dela, como se pudesse protegê-los do mundo inteiro. O hospital tinha segurança reforçada, e rapidamente os separaram da multidão. Mas o estrago já estava feito: as palavras ecoavam na mente de Olívia como veneno.
O hospital engoliu Léo tão rápido que Olívia quase não teve tempo de sentir o chão sumindo debaixo dos pés. Em poucos minutos, os médicos vieram e levaram o menino para exames. Olívia quis segui-los, mas foi impedida. Helena acompanhou os médicos, carregando a pasta com os exames, e de repente, ela ficou sozinha no corredor. Sozinha… não.
Ian estava ali, parado ao lado dela naquele corredor terrível de hospital, em silêncio. Mas não se afastou.
As portas se fecharam, deixando o barulho distante de vozes médicas e o cheiro frio de desinfetante.
E ali, naquele lugar silencioso, Olívia finalmente desabou.
Encostou-se na parede, fechando os olhos, lutando contra as lágrimas que teimavam em cair.
— Isso é culpa deles… — murmurava, sem olhar para Ian. — Clara, Benjamin, essa maldita família… estão me sugando até a última gota.
Parou e olhou para ele, o olhar faiscando, como se fosse um ataque.
— E você. Você os deixa me destruir.
Ian sustentou o olhar dela sem se mover. As mãos nos bolsos, o corpo rígido demais.
— Eu não deixo nada, Olívia. — disse, calmo, mas havia aço por baixo da voz. — Eu estou aqui, não estou?
Ela soltou uma risada seca, amarga.
— Está? — a voz embargou. — Porque às vezes eu não sei se você me protege ou me mantém como um joguete do seu avô.
Ian ficou em silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que queimava. Até que deu dois passos em direção a ela. Ficaram tão próximos que ela pôde sentir o cheiro dele, algo quente, quase perigoso.
— Se eu quisesse você como joguete… — a voz dele veio baixa, arrastada, como um segredo — …você já teria caído, Olívia.
O coração dela disparou. O rosto esquentou de raiva e de outra coisa que não queria admitir.
— Então o que você quer? — perguntou, a respiração curta.
Ian não respondeu de imediato. O olhar dele varreu o rosto dela, parando nos olhos, depois nos lábios, e voltando.
— Quero que você aguente. — murmurou, firme. — Porque, goste você ou não, o que Benjamin e Clara estão fazendo não é só contra você. É contra mim também. E eu não vou permitir.
Ela sentiu as pernas fraquejarem. Não esperava aquilo. Não esperava vê-lo, o homem frio, se incluir na batalha dela.
Se afastou, precisando de ar. Sentou-se numa das cadeiras, cobriu o rosto com as mãos.
— Eu não aguento mais… — a voz dela saiu fraca, quase um sussurro. — Estão me destruindo, Ian. Estão destruindo o meu filho.
E foi nesse momento que Ian a surpreendeu. Não com ironia. Não com frieza.
Ele simplesmente a segurou.
Uma mão firme em seu braço, a outra em sua cintura, trazendo-a para perto. Não havia espaço entre eles, apenas o calor dele e a respiração dela presa no peito.
Ela engoliu em seco. O mundo pareceu parar. Queria responder, queria gritar, queria fugir. Mas o coração batia tão alto que qualquer palavra seria mentira.
Um segundo longo demais se passou.
— Eu não posso me dar ao luxo de acreditar nisso. — disse finalmente, firme, como se fosse para si mesma mais do que para ele.
Ian suspirou, mas não insistiu. Apenas se levantou e voltou a se sentar ao lado dela. Perto o suficiente para que os braços quase se encostassem. Longe o bastante para respeitar o abismo entre eles.
Por minutos, ficaram em silêncio. Só o tique-taque invisível do relógio no corredor e a respiração pesada de Olívia.
Até que Ian quebrou o silêncio:
— Quando eu tinha a idade do Léo… — começou, devagar, quase como se confessasse um crime. — …eu passava noites sozinho, esperando minha mãe aparecer. Ela nunca aparecia. Só promessas quebradas. Só silêncios. Acho que é por isso que eu não suporto ver o Léo passar por isso.
Olívia virou o rosto para ele, surpresa. Ian nunca falava do passado.
— Você…? — começou, mas ele interrompeu, balançando a cabeça.
— Eu não vou ser como ela. — disse baixo, firme, quase uma promessa que não percebeu que estava fazendo. — Eu não vou deixar vocês dois sozinhos.
As palavras ficaram no ar. O coração dela doeu, mas de um jeito estranho. Queria acreditar. Parte dela acreditava. Parte dela gritava para não.
Antes que pudesse responder, a porta do consultório se abriu.
O médico saiu, de jaleco, expressão grave.
O sorriso protocolar não estava lá. Apenas aquele olhar sério demais, que fez o sangue de Olívia gelar.
— Senhora Belmonte? Senhor Moretti? — chamou.
O coração dela parou.
O médico os encara, a voz calma demais para a gravidade do olhar:
— Precisamos conversar.

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