Depois de alguns minutos de tortura e incerteza, o médico voltou a sala.
— E então? Precisamos da autorização de vocês. A equipe já está pronta.
Olívia piscou, perdida. O mundo girava, o coração batia no ouvido, as mãos não obedeciam, mas ela assentiu lentamente. O papel estava diante dela, parecia pesar tonelada em suas mãos, a a caneta deslizava em seus dedos trêmulos, como se recusasse a tocar aquele destino. Cada letra que teria de escrever era como assinar uma sentença de vida ou morte.
Tentou assinar, mas a letra vacilava, ilegível. A respiração dela acelerava, e foi nesse instante que Ian estendeu a mão, firme, e tomou o papel, antes que ela deixasse cair.
Os olhos dele encontraram os dela. Sérios. Firmes. Sem espaço para hesitação. Não havia pressa, nem piedade. Apenas uma certeza inabalável.
E ele assinou.
E, num gesto que a deixou sem ar, ele assinou no espaço de “responsável”. Assinou como se fosse sua própria vida que estivesse colocando na linha.
Olívia arfou.
— Ian… — a voz dela era vacilante, surpresa, quase um sussurro.
Ele não lhe deu tempo para terminar, a interrompeu apenas com o olhar. Um olhar que queimava. A voz dele foi baixa, mas cortante:
— Não discute. Estamos juntos nessa.
Por um segundo, ela quis acreditar. Quis agarrar-se a esse “juntos”.
O médico recolheu o papel e saiu, deixando-os sozinhos. E o silêncio que restou não era vazio, era um silêncio pesado, cheio de gritos que nenhum dos dois ousava soltar. O ar parecia vibrar com o coração acelerado de Olivia.
Ela sentia a garganta arder, o peito apertado. Tentava se controlar, mas as lágrimas vinham sem pedir licença. Respirava com dificuldade, como se cada suspiro fosse um esforço para não despencar, as mãos não paravam de tremer. Até que Ian se aproximou.
Não a tocou, não tentou consolá-la de forma óbvia. Apenas inclinou-se, sua presença firme, como se fosse uma muralha segurando o chão sob seus pés.
— Olivia. — ele disse, baixo, quase íntimo.
Ela não aguentou mais. O peito se abriu em palavras que vinham como tempestade.
— Eu não consigo… — a voz dela quebrou. — Eu não consigo ser forte o bastante.
Ian deu um passo à frente.
— Consegue, sim.
Ela ergueu os olhos, aflita, como quem pede socorro.
— E se não? E se eu perder ele? E se tudo isso for culpa minha?
A raiva contra si mesma a fez apertar os punhos até doer.
Ian respirou fundo, o maxilar marcado pela tensão.
— Não se atreva a falar isso.
— Mas é a verdade! — ela rebateu, num desabafo sufocado. — Eu trouxe ele até aqui, eu aceitei esse acordo maldito, eu deixei o meu filho no meio dessa guerra. — as lagrimas desciam copiosamente. — … se ele… se ele não voltar pra mim, eu nunca vou me perdoar.
As palavras ecoaram como facadas no ar.
— Eu estou morrendo de medo, Ian. — ela não parava de falar, de soluçar, de tremer. — Medo de não ouvir mais a risada dele. Medo de nunca mais sentir os bracinhos dele me abraçando. Medo de... se ele não resistir? E se eu perder a única coisa que me dá sentido?
A cada palavra, sua voz se despedaçava mais. Ian a olhava em silêncio, mas os olhos dele denunciavam a frieza habitual que deixara de existir há muito tempo naquela noite.
— Não fala isso. — ele murmurou com firmeza. — Nada disso vai acontecer.
Ela arfou.
— E como você pode ter tanta certeza?
O queixo de Ian endureceu, ele respirou fundo, como se lutasse contra algo dentro de si.
— Porque ele vai acordar. — disse, firme, sem vacilar, sem sombra de dúvidas. — E quando acordar, vai precisar de você inteira. Forte. Não quebrada.
Olívia respirava entrecortado, como se as palavras dele fossem cordas puxando-a de volta da beira do abismo.
Ela o encarou, surpresa pela convicção. Havia algo nele... não era consolo vazio. Era como se ele tivesse roubado toda a força que ela não tinha, apenas para devolver a ela.
Nesse instante, o médico retornou, e dessa vez o olhar dele era mais sério.
— Vamos iniciar a cirurgia. Pode ser longa. Vocês não precisam esperar aqui. Avisaremos quando terminar.
— Eu vou ficar. — Olívia respondeu, instintiva.
Ian a olhou, balançando a cabeça.
— Não, você não vai. Você precisa descansar.
Ela arqueou as sobrancelhas, furiosa.
— Não vou sair daqui.
— Vai, sim. — ele se aproximou, olhos fixos nos dela, baixando o tom com que tenta romper uma barreira invisível. — Olivia... Qual foi a última vez que você comeu alguma coisa?
Ela pensou. O silêncio já era resposta suficiente. Olívia tentou responder, mas percebeu que nem lembrava. Baixou os olhos, envergonhada.
— No jantar. — murmurou. — Aquele jantar que tivemos…
Ian ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo aquilo. O rosto dele mudou, como se tivesse levado um soco. A fitou, incrédulo.
— Isso foi há mais de vinte e quatro horas. — ele deixou escapar, sem conseguir esconder o choque. — Você passou o dia todo sem comer?
Ela tentou se defender.
— Eu não… não tive cabeça.
— Você precisa ter. — ele cortou. — Você vai desmaiar antes mesmo de vê-lo acordar.
Ela abriu a boca, pronta para retrucar, mas ele continuou, firme, a voz quase um comando:
— Você precisa comer. Precisa dormir. Precisa estar inteira. O Leo vai precisar de você quando abrir os olhos.
Olívia piscou, aquelas palavras a atingiram em cheio. Algo na firmeza dele não soava como imposição, mas como verdade. Uma promessa.
E só então percebeu que o corpo realmente não respondia. As pernas bambas, as mãos frias.
— Eu… não consigo.
E foi aí que Ian se aproximou ainda mais, e, num gesto inesperado, segurou as mãos dela. Quentes. Firmes.
— Então deixa eu segurar por você. — disse, baixo.
Ela sentiu o coração despencar. Não havia ironia, nem cálculo, nem a máscara habitual. Só Ian.
— Nada. Só não esperava encontra-lo aqui. Faz tempo que não o via nesse espaço.
Ele fez uma pausa, os olhos vagando pela cozinha.
— Me lembro... quando você era garoto, gostava de cozinhar escondido. Fazia a bagunça na cozinha só para provar que podia. Achava que podia me impressionar com seus pratos malfeitos.
Ian não respondeu. Continuou cortando o pão, sem erguer os olhos.
O silencio se alongou, até que Nicolau voltou a falar:
— Como está o menino?
Ian ergueu os olhos por um instante, avaliando o avô, a faca suspensa no ar.
— Estão cuidando dele. — A resposta foi seca, cortada, sem espaço para discussão.
Nicolau assentiu lentamente, sem revelar nada no rosto. Por um instante, deixou escapar algo raro: um olhar quase pensativo. Mas logo se recompôs. Apoiou as mãos na bancada e o encarou de frente.
— Ian… já decidiu?
O corte da faca parou no ar. Ian ergueu a sobrancelha, mas não respondeu.
— Vai mesmo se casar com ela? — Nicolau insistiu, as palavras saindo lentas, como uma sentença. — Ou finalmente vai usar a saída que eu lhe dei?
Ian largou a faca sobre a tábua com mais força do que gostaria. Olhou diretamente para o avô, e seus olhos eram uma chama contida.
— Eu não quero a sua saída.
Nicolau arqueou a sobrancelha, satisfeito com a resistência. Mas, como sempre, não se deu por vencido:
— Dei a você a chance de encerrar essa farsa agora. De manter sua herança. De não se arrastar em escândalos que só diminuem o nome da família. Mas você… continua preso a essa mulher.
O silêncio pesou na cozinha. Ian respirou fundo, o maxilar contraído, como se precisasse reunir força para não explodir.
— Eu já fiz a minha escolha. — a voz dele saiu firme, grave, um tom que mais parecia um juramento.
Nicolau sorriu, lento. Um sorriso enigmático, quase perigoso.
— Interessante. Mas será que é desafio que ela representa ou... por ela?
Ian não respondeu. Apenas sustentou o olhar do avô, o fogo nos olhos dizendo muito mais do que as palavras permitiam.
Foi então que passos leves ecoaram no corredor.
Olívia.
Ela vinha descendo a escada em direção à cozinha, o cabelo ainda úmido do banho, o rosto cansado, mas um pouco mais sereno. Ou pelo menos deveria estar. Porque antes mesmo de entrar, ela ouviu.
As palavras congelaram no ar. “Saída”. “Farsa”. “Herança.”
O coração dela disparou, e seus pés pararam no limite da porta. O corpo colado à parede, ela ouviu a última frase de Ian, firme, cortante:
— Eu já fiz a minha escolha.
A respiração de Olívia falhou. A mente dela gritava, tentando juntar as peças.
De que saída Nicolau estava falando? Que farsa? Nicolau havia descoberto tudo e o liberado daquele noivado falso? Mas então, por que Ian ainda estava ali… se podia ter acabado com aquilo tudo?

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