A noite caía densa quando Clara saiu do hospital. Seus saltos batiam firme no asfalto molhado, cada passo apressado como se quisesse se livrar do cheiro de antisséptico que impregnara sua pele. Pegou o carro e dirigiu sem olhar para trás.
O destino não era a mansão. Nem Benjamin.
Era um hotel discreto, afastado, de fachada simples mas de quartos luxuosos, perfeito para encontros que não podiam existir à luz do dia.
A chuva fina escorria pelas janelas do hotel, iluminadas pelo néon da rua. Clara atravessou o saguão como quem carrega um segredo nos ombros. O salto alto batia no mármore e cada som parecia anunciar: ela não estava onde deveria estar.
O elevador subiu devagar. A respiração dela também.
No terceiro andar, a porta 307 já estava entreaberta.
Ele a esperava.
Alto, ombros largos, olhar de faca. Não usava terno como os Moretti da mansão, estava com a camisa aberta, mangas dobradas, um ar de rebeldia que contrastava com a rigidez do clã. Tinha no rosto traços da família, mas mais rudes, mais marcados, como uma versão distorcida de Ian e Benjamin.
— Pensei que não viria. — Sua voz era grave, arrastada, carregada de ironia.
Clara entrou sem pedir licença, fechou a porta com a mão trêmula, mas o olhar decidido. Jogou a bolsa sobre a poltrona.
— Eu não ia perder isso por nada. — O sorriso dela era uma lâmina.
O silêncio queimou por um segundo. Eles se encaram por um instante longo, intenso. Era mais do que desejo, era aliança, era fúria compartilhada. Em segundos, como se uma força inevitável os puxasse, os dois se encontraram. Os lábios se encontraram, famintos, e os corpos colidiram como dois conspiradores que transformavam rancor em prazer.
O beijo foi imediato, faminto, um choque de dentes e respiração, como se ódio e desejo fossem a mesma coisa.
Os corpos colidiram, roupas caíram pelo chão até o quarto ser engolido pelo som abafado de gemidos e da chuva batendo lá fora.
Depois de meia hora, o quarto estava mergulhado em penumbra. Os lençóis amassados guardavam o calor da pele, o cheiro de sexo e suor.
Clara, nua, deitada de lado, tragava um cigarro devagar, soltando a fumaça em círculos lentos que se desfaziam no ar.
Ele estava ao lado, apoiado no cotovelo, também nu. O peito ainda arfava, mas os olhos não descansavam. Observava Clara como quem observa uma arma recém-afiada.
— Você gosta desse jogo, não gosta? — ele murmurou, quase sorrindo. — Finge que está submissa naquela casa, mas no fundo… só está esperando o momento certo pra destruir cada um deles.
Clara soltou a fumaça, sorrindo de canto.
— E não é exatamente isso que eles merecem?
Clara virou o rosto para ele, os lábios vermelhos ainda inchados.
— Eu não finjo nada. Eles é que acreditam na mentira que querem ver. — Tragou de novo, soltando a fumaça devagar. — Pra Nicolau, eu só sou uma incubadora. Acha que só estou na mansão porque posso ou não carregar um herdeiro Moretti no ventre. Mal sabem que, na verdade, eu tenho algo muito mais perigoso: você.
Ele riu baixo, sem humor.
— Pra Ian, uma pedra no sapato. Pra Olívia, a ameaça. Pra Benjamin… — ela riu, seca. — Benjamin acha que me controla.
— Benjamin vai se destruir sozinho. A obsessão dele por Olívia é a arma que eu preciso. Ele já provou que não é pai do menino, e isso o corrói por dentro. Eu vou usar isso até o último fio de ódio que restar nele.
Ele a encarou sério.
— E quando ele cair?
Clara tragou fundo, apagou o cigarro no cinzeiro e se inclinou sobre ele, os cabelos caindo como cortina.
— Quando ele cair… eu já sei exatamente como.
O beijo veio de novo, lento no começo, depois urgente, selando o pacto. O quarto se encheu de calor outra vez, não só de corpos, mas de conspiração.
— No fim, você sabe… o verdadeiro herdeiro dessa história será você.
Horas depois, Clara sai do hotel disfarçada: óculos escuros, lenço sobre o cabelo. Caminha rápido até o carro.
Mas não percebe.
Na esquina, dentro de um carro estacionado, alguém a observa. Um isqueiro acende, revelando apenas o brilho de olhos atentos refletidos na chama.
Alguém já sabe do segredo de Clara.

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