O relógio da sala de espera marcava 03h12.
O tempo parecia zombar deles. O ponteiro avançava com lentidão cruel, e cada segundo era uma tortura. O tique-taque ecoava como um martelo na cabeça de Olívia. E a cada instante, parecia que o coração dela parava e voltava a bater com violência.
O silêncio daquele lugar não era paz: era uma prisão. O cheiro de éter, misturado a frieza do ar-condicionado, criava uma atmosfera sufocante.
Olivia estava sentada na ponta de uma cadeira desconfortável e fria, o corpo encolhido, os braços abraçando as próprias pernas como se pudesse se proteger do vazio que a engolia. A pele fria, os dedos entrelaçados com força, as unhas marcando a pele. Não lembrava a última vez que tinha respirado fundo sem sentir o peito doer. Os olhos ardiam, mas ela se recusava a fechar, como se, ao piscar, pudesse perder alguma noticia de Leo.
À sua esquerda, estava Ian. Imóvel. O corpo ereto, o semblante inexpressivo, mas o silêncio dele dizia mais que qualquer palavra. Era pesado, denso, atravessado que lembrança de que o sangue dele havia corrido para o salvar o filho dela. Um garoto que sequer tivera tempo para conhecer profundamente, mas que, naquele momento, dependia dele para viver.
Por isso, o ar entre os dois estava pesado, por algo que os dois tentavam ignorar: o fato de que o sangue dele corria agora nas veias de Léo.
Olívia virou lentamente o rosto para ele, encarando-se. O coração dela disparou. Os olhos marejados, vermelhos, implorando por uma resposta que talvez não existisse. Não conseguia mais segurar o medo que a devorava por dentro.
A voz saiu trêmula, quebrada:
— Ian… e se... eu perder o Léo? Se algo der errado?
A pergunta saiu como um sopro, um fio de voz quebrado.
Ele não respondeu de imediato. Apenas piscou devagar, a mandíbula dele se contraindo, como se lutasse contra algo interno. Contra a própria natureza de frieza. O olhar fixo à frente. Depois virou-se para ela.
Os olhos dele tinham algo que ela não estava acostumada: rachaduras. A dureza estava ali, mas por trás dela… dor. Como se aquele lugar, aquele hospital, trouxesse memórias ainda mais dolorosas para ele. Agora Olivia sabia o quê.
Quando ele finalmente respondeu, não houve discurso. Não houve racionalidade. Só verdade crua em palavras curtas.
— Não vai. — a voz dele era firma, mas rouca.
Ela deixou escapar um soluço, baixando o olhar quando uma lágrima escapou.
— Mas… e se…
Ele se inclinou um pouco para frente, aproximando o rosto do dela, os olhos fixos, intensos. A voz mais baixa, quase um sussurro, mas carregada de aço.
— Ele vai voltar. Ele vai acordar. — afirmou. — Porque você precisa dele. E porque ele precisa de você.
Olívia piscou rápido, tentando segurar as lágrimas, mas não conseguiu. Ela engoliu em seco, o peito subindo e descendo rápido demais. Aquilo não era apenas um consolo; era quase uma promessa, uma confissão. Uma sensibilidade na armadura dele. Não era mais o homem frio. Era humano. Era apenas... Ian. Não um Moretti.
O momento foi interrompido pelo ranger da porta se abrindo em frente a ele. Um médico entrou, com o jaleco amarrotado, os olhos cansados, a expressão séria.
— Senhora Belmonte, senhor Moretti. — Olhou para eles e pigarreou. — A transfusão correu bem. O corpo dele reagiu. Agora, a cirurgia está em andamento.
Olívia sentiu o corpo vacilar, suas pernas fraquejaram e segurou com força a barra da cadeira. Mas logo levantou-se num ímpeto, como se precisasse estar mais perto da notícia. Um fio de esperança a atravessou, mas frágil, quase transparente.
— Ele… ele vai ficar bem? Vai demorar? — perguntou, a voz urgente.
O médico respirou fundo enquanto assentia.
— É uma cirurgia longa. Delicada. Vai demorar horas. Mas, até agora, tudo corre dentro do esperado. E a equipe está fazendo todo o possível.
Ela assentiu rápido, lágrimas escorrendo, o corpo tremendo. O médico se retirou, deixando-os novamente no vazio daquela espera e atrás de si, o silêncio de novo.
Foi então que outro som invadiu o corredor: o eco lento de uma bengala.
Nicolau estava voltando. Havia se retirado para ter uma conversa com o diretor do hospital.
Ele avançava com passos firmes, mesmo que o corpo já denunciasse os sinais da idade. Os olhos, contudo, estavam tão afiados quanto sempre. Diferente de outras vezes, não havia enigma em sua expressão, apenas domínio.
Ele não parecia ter voltado ali para consolar, mas sim para observar.
— Ian. — chamou, sem rodeios. — Preciso de você. Há assuntos práticos para resolver das Indústrias Moretti.
Ian ergueu o olhar, irritado.
— Não. — respondeu seco. — Não vou sair daqui.
A palavra seca ecoou pelo corredor.
Nicolau arqueou a sobrancelha, surpreso.
— O mundo não para porque o garoto está na mesa de cirurgia. Você não pode se dar ao luxo de fraquejar agora.
Ian se levantou devagar, ficando frente a frente com o avô. A tensão era palpável.
— Pela primeira vez, o mundo pode esperar. — Ian o cortou. A postura dele era rígida, o olhar faiscando. — Porque agora… é a família que importa.
O silêncio caiu pesado. O corredor inteiro pareceu segurar o ar.
Olívia o encarou, atônita. Aquela palavra, família, dita por Ian, parecia um terremoto. Ele realmente conseguia atuar naquele momento?
Nicolau o analisou longamente em silêncio, como quem pesa uma joia rara, observando cada detalhe. E então… um leve sorriso se formou em seus lábios.
— Finalmente. — murmurou. — Finalmente você entendeu o que significa ser um Moretti.
Mas o olhar de Nicolau era ambíguo demais para ser lido como aprovação. Ele parecia satisfeito não pelo que Ian dissera, mas porque, de algum modo, o havia testado.
Não era aprovação plena. Era quase um teste, e Ian havia passado.
Não podia ser o pai.
O destino tinha cravado aquilo como uma sentença.
Afundou-se no sofá, os olhos marejados, mas não chorava. Não permitia a si mesmo. Apenas encarava o copo vazio como se fosse um espelho de tudo o que perdera.
Foi nesse instante que ouviu o som dos saltos no piso de mármore.
Clara.
Ela entrou radiante, o rosto maquiado, o perfume doce demais, como se tivesse acabado de sair de uma festa ou de um segredo. Os olhos dela brilhavam, e Benjamin percebeu na hora: ela estava feliz, mas não por ele.
— Onde diabos você estava? — rosnou, a voz rouca, embriagada de uísque e rancor.
Clara não respondeu. Apenas caminhou até a poltrona, tirou calmamente a bolsa do ombro e, com a teatralidade de quem sabe o poder que tem nas mãos, puxou um envelope branco.
— O que é isso? — Benjamin perguntou, desconfiado.
Ela sorriu, aquele sorriso venenoso que misturava triunfo e desafio.
E então revelou, como quem j**a uma bomba no meio da sala:
— O resultado.
Benjamin franziu a testa.
— Resultado do quê?
Clara ergueu o papel como uma coroa, os olhos faiscando.
— Da clínica. Estou grávida.
Silêncio.
O tempo pareceu congelar.
O copo de Benjamin escorregou da mão, caindo no tapete, o líquido se espalhando sem que ele percebesse.
Ele a encarava, atônito, sem conseguir mover um músculo.
A alma em pedaços, mas de repente com um lampejo de esperança.
Clara, porém, saboreava cada segundo da cena. O poder estava, finalmente, do lado dela.

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