Entrar Via

Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 65

A sala de triagem tinha uma luz branca quase cruel, mas havia também um tipo de silêncio quase confortável, quebrado apenas pelo zumbido de um monitor cardíaco e o barulho constante do ar-condicionado.

O som ritmado do gotejar compassado do soro escorrendo pelo equipo também parecia zombar da exaustão que dominava Olívia. A luz forte refletia o seu rosto, revelando não apenas o cansaço físico, mas a exaustão da alma.

Ela se manteve sentada, encolhida na poltrona, os braços cruzados sobre o colo, como se quisesse se recolher ao menor espaço possível e se proteger do mundo.

Helena ajeitou as luvas e o jaleco, verificou a agulha no braço dela, e só depois puxou uma cadeira para se sentar ao lado, com aquele jeito que misturava firmeza e doçura. Não havia pressa nos gestos. Era como se soubesse que Olívia precisava de silêncio antes de qualquer palavra. Esperou alguns instantes, como quem mede a temperatura do amor antes de ousar outra.

Por minutos inteiros, ficaram assim: Olívia respirando fundo, tentando não desabar, e Helena ao lado, apenas presente.

Até que Helena, com cuidado, abriu a boca:

— Olivia... — começou devagar, a voz quase um sussurro respeitoso. — Posso te perguntar uma coisa?

Olívia ergueu os olhos, desconfiada. Não estava acostumada com delicadeza. Esperava um golpe, uma crítica, uma sentença e ela já estava pronta para se defender. Mas no olhar de Helena não havia nada disso. Só sinceridade. Serenidade. O que a fez relaxar um pouco.

Ela respirou fundo e assentiu.

— Pergunta. — respondeu com um fio de voz.

Helena apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinando-se um pouco. Sua voz saiu baixa, quase hesitante a princípio, mas prosseguiu:

— O pai do Léo… ele sabia da sua condição? Do coraçãozinho dele?

A pergunta atingiu Olívia como uma bofetada inesperada, caindo como uma pedra no meio do silêncio. Seus dedos se apertaram contra os braços, os olhos se encheram de lágrimas que ela não queria derramar. Por um instante, ficou muda, sem saber se gritava, se ria, se simplesmente caía em prantos.

Havia apenas congelado. Sua respiração falhou, e por segundos, não soube o que responder. O rosto dele mostrava claramente que não esperava aquilo.

Mas Helena não parecia acusá-la. Não havia veneno em sua voz. Ou julgamento. Apenas um cuidado genuíno. Era uma pergunta honesta, simples.

Olívia baixou os olhos, respirou fundo, e depois de alguns segundos de hesitação, apenas balançou a cabeça. Com a voz falha, murmurou:

— Não. Ele não sabe. E… nunca vai saber. — disse, quase para si mesmo. — E nem importa. Ele... nunca fez parte da vida do meu filho.

Silêncio.

Helena apenas assentiu devagar, respeitando aquele limite. Mas depois de alguns segundos, arriscou com delicadeza.

— É que… eu achei mesmo que fosse. — ela suspirou ao admitir. — Com todos os boatos que correm pela mansão. As vezes é difícil não acreditar.

Olivia respirou fundo. Pela primeira vez em horas, seus lábios se curvaram num sorriso irônico.

— Benjamin? — ergueu as sobrancelhas. — Nunca foi. Ele queria acreditar nisso. Se agarrou nisso porque… era conveniente pra ele. Mas eu sempre deixei claro que não era.

Helena a observava com atenção, curiosa, mas sem invadir.

Olívia respirou fundo, como quem decide se abre mais uma ferida. Então deixou escapar:

— Na verdade… — ela mordeu os lábios antes de continuar e olhou para o soro, como se buscasse coragem ali. — Acho que Benjamin não pode ter filhos.

O olhar dela se desviou, meio divertido, meio cruel.

— Tentamos… durante meses. Tentando tanto que já não restava nada entre nós, além da frustração. Era como se cada mês fosse mais uma sentença. Cada silêncio, mais um abismo entre nós.

Olívia fechou os olhos por um instante.

— Mas bastou uma noite… uma única noite longe dele. E eu engravidei.

Os olhos dela brilharam. Havia uma pontinha de orgulho em sua voz, quase malicia. Um sorriso quase imperceptível curvou seus lábios. Mas Helena percebeu, como quem vê um raio de sol entre nuvens pesadas. E percebeu também que Olívia precisava daquilo. De leveza. De respiro.

Helena apoiou o queixo na mão, inclinando-se um pouco.

— E você... não se arrepende? — perguntou, não sobre Benjamin, mas sobre tudo.

Olivia a encarou, séria. Depois, balançou a cabeça.

— Nunca. O Leo foi... a melhor coisa da minha vida. A única coisa que realmente me fez lutar até hoje.

A emoção tomou sua voz, mas Helena era sensível e soube que ela precisava conversar sobre algo bom. Leve. Bonito.

Mudou de assunto com naturalidade, buscando aliviar o peso;

— E Leo… puxou o quê de você? — perguntou, com um sorriso suave. — É teimoso igual?

Olívia foi pega de surpresa. O coração doía, mas só de ouvir o nome do filho, seu semblante se transformou.

Ela riu baixo, ainda atordoada pelo rumo da pergunta.

— Teimoso? Não... ele é muito mais doce. Acho que puxou de mim só a coragem. O jeito que enfrenta as coisas… como se fosse maior que ele. Isso… é meu. — suspirou, pensativa. — Mas... os olhos. Ele tem os meus olhos. Quando ele nasceu e me encarou pela primeira vez… parecia que eu estava olhando no espelho.

— Tudo bem.

Por um momento, nenhum dos dois se mexeu. O ar entre eles estava carregado de tudo o que não era dito. Até que, finalmente, cada um seguiu por um lado diferente do corredor.

Ian desceu até a recepção com passos firmes, mas por dentro o corpo parecia feito de chumbo. A conversa com Olívia ecoava na mente, mas havia outra coisa que o corroía desde que Carolina falara com ele: o avô.

Chegando ao balcão, aproximou-se da atendente.

— Boa noite. Preciso de informações sobre um paciente. Nicolau Moretti.

A enfermeira, já habituada ao peso do sobrenome, ergueu os olhos para ele com cautela.

— O senhor é parente?

Ian sustentou o olhar dela, frio, mas a mandíbula tensa denunciava algo mais.

— Sou neto dele. Ian Moretti.

Ela assentiu, checou rapidamente o sistema e então desapareceu por alguns segundos em uma sala ao lado. O tempo pareceu uma eternidade.

Quando voltou, trazia um envelope pardo nas mãos. Estendeu a ele.

— Está autorizado a ver.

Ian pegou o prontuário com dedos firmes, mas o coração acelerava como um tambor. Abriu. Os olhos correram pelas linhas técnicas, pelos termos médicos que ele conhecia apenas de ouvir, até que encontrou o que importava.

E ali, em letras secas, o mundo pareceu vacilar debaixo dos pés dele:

Nicolau Moretti — diagnóstico: doença grave e progressiva. Prognóstico reservado.

A respiração de Ian travou. O velho leão, que sempre parecera inabalável, estava ruindo por dentro.

Ele fechou o prontuário devagar, os olhos marejados sem que percebesse.

Um turbilhão se formava: o que Nicolau escondia, o que planejava… e quanto tempo restava.

Ian também estava prestes a perder o único de sua família que ainda o restara?

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido