Ian ficou parado diante do balcão da recepção por longos segundos, o envelope ainda quente em suas mãos, como se queimasse sua pele. Sentia o coração trovejando, mas o rosto permaneceu impassível, a máscara que aprendera a usar desde criança.
Abriu novamente o prontuário, relendo cada palavra como se pudesse encontrar algum erro, uma falha que desmentisse a sentença. Mas estava lá, frio e incontestável: doença grave, progressiva, prognóstico reservado.
Nicolau estava morrendo.
O velho que sempre parecera invencível, aquele que se erguia como uma fortaleza em cada sala, que controlava os destinos da família Moretti como se fosse um rei absoluto, estava desmoronando por dentro.
Ian fechou os olhos, pressionando a ponte do nariz. O peito parecia se fechar, um nó denso subindo pela garganta.
— É por isso… — murmurou, quase inaudível, como se falasse apenas consigo. — É por isso que está com tanta pressa.
E de repente, os fios se conectaram na mente dele.
A insistência do avô em “herdeiros”, em um casamento apressado, em manter a família “inteira” custe o que custar. As frases enigmáticas, os testes, os ultimatos… não eram apenas jogo de poder. Nicolau sabia. Ele estava escolhendo quem herdaria o trono porque o tempo o estava empurrando para fora.
Ian fechou o envelope com força, como se quisesse esmagar o papel. A raiva queimava.
— Maldito velho… — cuspiu baixo, com a voz embargada. — Você sabia. E mesmo assim continuou a brincar com todos nós… comigo.
Por dentro, o conflito era cruel.
Depois da morte do pai, seis anos antes, e do irmão, que o marcara para sempre, só restara Nicolau. Era tudo o que tinha. O porto seguro e a prisão ao mesmo tempo.
Pensar em perder isso… deixava um buraco imenso dentro dele.
Quanto à mãe… Ian se recusava a deixar a lembrança atravessar sua mente. Havia ali uma ferida tão funda que até mesmo o ódio se calava. E ainda mais forte que isso: a culpa.
Mesmo assim, a raiva contra Nicolau não apagava a dor que latejava em silêncio. E quanto mais tentava conter, mais se sentia prestes a explodir.
Ele passou horas vagando pelos corredores do hospital, como uma sombra. Às vezes sentado em uma poltrona dura, olhando fixamente para nada. Outras vezes, caminhando sem rumo, tentando colocar os pensamentos em ordem. Mas cada tentativa o deixava mais perdido.
Quando finalmente voltou à sala de espera, já havia luz atravessando os vidros. O sol começava a nascer, tingindo o corredor com tons dourados que pareciam zombar da exaustão da noite.
Olívia ainda estava ali. Encolhida numa cadeira, como se o corpo tivesse esquecido o que era conforto. Mas estava desperta. Os olhos vermelhos denunciavam a noite em claro, mas ainda havia neles aquela chama teimosa, quase feroz, de quem não desiste.
Ian parou por um instante à porta, apenas a observando. O peito se apertou. O rosto dela estava marcado pela dor, pela espera, pela angústia… mas também pela coragem. Ele sabia que ela não tinha ideia do peso real que o mundo estava prestes a jogar sobre ela. Sobre eles.
Quando ele deu o primeiro passo para dentro, o som do solado contra o chão ecoou, suave, mas suficiente para que ela erguesse o olhar.
Um instante. Só isso. Um olhar.
E nesse instante, Ian soube que não podia. Não podia despejar sobre ela o que acabara de descobrir, não podia mostrar a raiva, a impotência, o medo que o corroíam. Ela já carregava mais do que deveria. Seus ombros já estavam pesados demais.
Então, vestiu a máscara. A mesma de sempre. O Ian frio, controlado, feito de pedra.
Sentou-se ao lado dela, tão perto que podia sentir a respiração dela, mas sem tocá-la. O silêncio entre eles tinha um peso próprio.
— Onde você estava? — ela perguntou, a voz baixa. Não era uma acusação, nem cobrança. Era uma mistura de desconfiança e delicadeza, como quem não queria perder o pouco de chão que tinha.
E, sem perceber, a forma como seus olhos se demoraram nos dela dizia muito mais do que qualquer frase.
O silêncio caiu entre eles logo em seguida, era tão denso que até o som distante de passos ecoava como uma martelada. Olívia mantinha os olhos fixos no sol que invadia o corredor, como se pudesse arrancar forças daquela luz. Ian, imóvel ao lado, parecia uma estátua, mas por dentro, lutava contra um turbilhão.
Então, o som de uma porta se abrindo fez os dois erguerem a cabeça ao mesmo tempo.
Um médico caminhava em direção a eles, a expressão grave, cansada, mas controlada.
Olívia sentiu o coração disparar, as pernas prontas para falhar. Segurou instintivamente no braço da cadeira, enquanto Ian apenas endireitou os ombros, a rigidez de sempre voltando, como se se preparasse para enfrentar qualquer sentença.
O médico parou diante deles.
Respirou fundo, ajeitou os óculos, e disse com a voz firme:
— A cirurgia do Léo… terminou.
O ar pareceu sumir do corredor.
Olívia levou a mão à boca, os olhos marejando, sem conseguir perguntar nada.
Ian fechou o punho sobre o joelho, o maxilar travado, esperando pela continuação.
O silêncio que o médico fez antes de completar a frase foi o mais cruel de todos.

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