Ian permaneceu parado no corredor por alguns segundos, os dedos ainda cravados firmes no braço de Olívia. Era como se o corpo se recusasse a soltá-la. Ele observava Nicolau se afastar e cada passo dele, cada batida seca e ritmada da bengala contra o piso branco, ecoava dentro dele como um aviso: se você não for agora, nunca mais terá respostas.
O coração de Ian estava dividido e ardia em duas direções: ficar com Olívia, ser o porto que ela precisava naquele instante de fragilidade, permanecendo ao lado da mulher que tremia, mas não permitia se desmoronar, ou seguir o avô e correr atrás do homem que sempre ditou o ritmo da sua vida, e que agora caminhava como se levasse embora um segredo que podia destruir tudo.
Ian apenas soube que precisava arrancar dele as respostas que queimavam dentro de si.
Os olhos de Ian buscaram instintivamente os de Helena, que estava ali no canto, observando em silêncio. Com um simples olhar, ele pediu que ela se aproximasse, sem dizer nada.
— Pode ficar com ela por um instante? — sua voz saiu mais baixa do que de costume, quase... humana.
Helena assentiu com um sorriso sereno, como quem entendia exatamente a guerra que se travava por trás da máscara dele.
Olívia ergueu os olhos cansados, percebendo o movimento, confusa. Os cabelos caindo em desalinho sobre o rosto. Virou para ele.
— Ian… você precisa trabalhar, não é? — disse, a voz quase quebrada, mas ainda habitava um pouco de firmeza. — Eu entendo que você precisa ir. De verdade. Apenas faça suas coisas.
Ian a fitou por alguns segundos, incrédulo que ela ainda pudesse pensar nisso. A própria sugestão soou como uma afronta pra ele.
— Eu não vou trabalhar.
Ela franziu o cenho, piscando surpresa.
— Eu já cancelei toda a minha agenda de hoje. — completou, a firmeza na voz não escondendo o peso no peito, os olhos ainda fixos nela.
Olivia sentiu o corpo estremecer. Piscou, surpresa. Lembrava das anotações frias das antigas assistentes dele: “Senhor Moretti nunca falta ao trabalho. Nunca permite atrasos. Nunca admite ausências.” Aquilo não fazia sentido. Ele mudar a rotina… por ela? Pelo Léo?
O que aquilo significava?
Sem dar espaço para mais perguntas, Ian apenas murmurou:
— Eu volto logo. — disse, curvando-se apenas o suficiente para que ela não pudesse questioná-lo.
E então se afastou, deixando-a com Helena.
O som da bengala de Nicolau ainda ecoava pelo corredor silencioso quando Ian acelerou os passos para alcança-lo. Ele já se aproximava da saída quando Ian se aproximou.
— Precisamos conversar. — a voz grave cortou o silêncio, firme, áspera.
O velho não parou. Apenas virou um pouco o rosto, mostrando o perfil severo e exibindo aquele olhar cinzento e calculado que nunca revelava nada.
— Já tomou sua decisão?
— Não é sobre isso. É sobre o senhor. — Ian rebateu, e o maxilar marcado endureceu ainda mais.
Nicolau, no entanto, seguiu em frente, sem pressa, mas com autoridade. Era como se não tivesse ouvido.
— O que você está fazendo? — Ian insistiu, indo atrás dele.
— Acha mesmo que vou me abrir no meio de um hospital? — murmurou. — Já perdi tempo demais aqui.
Foi então que Ian percebeu: Nicolau já sabia. Sabia o que ele tinha descoberto. Sabia o peso que queimava em sua mente desde que lera aquele prontuário.
Ian sentiu o estômago revirar. O avô sabia. Claro que sabia. Sempre sabia.
Como diabos aquele velho parecia controlar até os pensamentos dele?
— Então por que veio tão cedo ao hospital? — Ian insistiu, a voz dura.
Nicolau parou diante do carro. O motorista já esperava, imóvel. O velho girou o rosto lentamente, os olhos pesados.
— Não é óbvio? Vim ver como o menino está.
Depois abriu a porta, com a calma cruel de sempre.
Ian fechou os punhos sob a mesa, a respiração presa. Queria gritar, mas não conseguia. Depois da morte do pai, depois da perda do irmão… só restara Nicolau. E agora até isso se desfazia diante dele.
Ele ouviu sua própria voz sair rouca:
— Quanto tempo você tem?
Nicolau levou a xícara aos lábios, sorvendo o café como se conversassem sobre o clima.
— Mais tempo do que eu imaginava. Menos tempo do que você queria.
Ian o encarou, os olhos úmidos pela primeira vez em anos.
— E por que esconder? Por que fazer desse jeito?
Nicolau apoiou a bengala contra a mesa. Seu olhar, pela primeira vez, pareceu humano.
— Porque não queria compaixão. Nem luto antecipado. E porque você precisava aprender a se tornar o que deve ser.
Ian sentiu o coração disparar.
— O que devo ser?
— O herdeiro. — Nicolau respondeu, firme. — A única coisa que resta.
Ian inclinou-se para frente, o rosto duro, a voz carregada de raiva e dor:
— E há quanto tempo você sabia?
Nicolau não desviou os olhos. Sua resposta foi lenta, quase solene:
— Desde antes de você nascer.

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