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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 69

O silêncio do restaurante era tão pesado que Ian podia ouvir o som do próprio coração, irregular, como se não encontrasse ritmo. O cheiro de café fresco preenchia o ar, misturando-se a lembrança vivida de manhãs ao lado do seu pai, bem ali, mas agora essa lembrança doía como punhaladas.

— Desde antes de você nascer. — Nicolau repetiu, a voz calma, sem remorso e Ian arregalou os olhos assim que aquelas palavras saíram da boca do avô.

Ao fundo: o café esfriava devagar sobre a mesa, soltando uma fumaça tênue que se dissipava no ar do restaurante quase vazio. O lugar ainda carregava o silêncio da madrugada anterior. Apenas o som distante de talheres em outras mesas, o tilintar do relógio na parede e o coração de Ian batendo rápido demais.

— O quê? — Ian arfou, completamente confuso.

Ian recostou-se na cadeira, o peito em chamas.

— Isso é um jogo? — a voz saiu mais grave do que pretendia. — Porque se for, é cruel até para você.

Nicolau encostou-se na cadeira, sereno, como quem j**a uma bomba no tabuleiro e observa as peças caírem. Ele pousou a xícara com precisão milimétrica no pires.

— Não é jogo. É vida. — respirou fundo. — E a vida sempre foi cruel com os Moretti.

Ian franziu o cenho, os olhos faiscando.

— Então todo esse teatro com herança, com “testes”, com mentiras... era só porque você sabia que ia morrer?

— Não só isso. — o velho respondeu, firme. — Eu precisava de certeza. Precisava saber quem carregaria esse nome.

Ian apertou os punhos, quando Nicolau acrescentou:

— Sempre soube que o tempo me seria curto. Não importa o quanto eu vivesse… já estava condenado desde cedo. Só restava decidir como usaria meus anos. — bebeu um gole de café, tranquilo. — Usei para construir um império. Para que nenhum de vocês tivesse que rastejar pelo mundo como eu rastejei.

Ian apenas encarava a mesa de madeira riscada, como se a superfície pudesse lhe dar forças para dizer o que precisava. A mente girava com a imagem do prontuário, aquelas palavras que não saíam da sua cabeça.

Finalmente ergueu os olhos.

— Não preciso dos seus enigmas, avô. Você está doente. — disse, a voz grave, mais rouca do que gostaria. — Grave.

Nicolau não pareceu surpreso com sua recusa. Apenas mexeu devagar o café com a colher, como se a conversa fosse sobre o clima.

— E quanto tempo pretendia esconder? — Ian insistiu, o maxilar travado.

Nicolau ergueu os olhos. O olhar cinzento, impenetrável.

— Até o último instante.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ian respirou fundo, tentando não socar a mesa.

— Por quê? — explodiu, finalmente. — Por que esconder? Por que me deixar descobrir assim? Eu tinha o direito de saber!

O velho inclinou-se para frente, apoiando a bengala contra a mesa, o olhar frio e implacável.

— Você não tinha direito nenhum, Ian. Não sobre a minha morte.

Essas palavras acertaram o peito dele como lâminas. Ian apertou os punhos, respirando com força.

— Você é tudo o que eu tenho. — a voz saiu baixa, mas carregada de dor crua. — Eu perdi meu pai. Eu perdi meu irmão. E agora você. — disse, sem perceber a voz falhar. — Eu só tinha você.

Nicolau o observou em silêncio. E, pela primeira vez, havia uma sombra de humanidade em seus olhos, sua expressão tremeu. Mas foi rápida, tão rápida que Ian duvidou se não tinha imaginado. Havia sido pequena, mas foi real.

Ele endireitou a postura e respondeu mais baixo:

— E eu também só tinha você.

Ian desviou o olhar, porque encarar o avô naquele instante era doloroso demais. Os olhos dele correram pelo ambiente, meses de madeira, o balcão antigo, e de repente tudo cheirava a perda.

O lugar ficou completamente silencioso, exceto pelo tilintar da colher de Nicolau contra a porcelana. Ele mexia o café com calma, como se não tivesse acabado de largar uma granada no colo do neto. Ian o observava em silêncio, o peso da frase ainda latejando dentro dele: “Sim. Estou morrendo.”

O peito de Ian ardia como se tivesse levado um soco. O sangue gelado. As palavras rodopiavam, mas nada parecia fazer sentido. Apertou os punhos sobre a mesa.

—O quê exatamente você tem? — perguntou, a voz rouca. — Qual a doença?

Nicolau ergueu os olhos devagar, como quem escolhe as palavras com precisão.

— O coração. Ironia, não? Um Moretti ser derrotado pelo próprio coração. Depois de uma vida inteira suportando guerras, traições, negócios sangrentos, é o coração que me leva. — tomou um gole do café, sem pressa. — Há algum tempo já.

Ian ficou imóvel, o olhar pesado.

— E já começou o tratamento? — Ian insistiu. — O senhor tem recursos, poderia ter ido aos melhores especialistas do mundo.

O velho deu de ombros, quase desdenhoso, um meio sorriso surgindo nos lábios do patriarca.

— E para quê? O que há para tratar? Prolongar a inevitável decadência? Eu prefiro decidir como e quando a minha história termina. O que é frágil, cedo ou tarde, se quebra.

A raiva subiu em Ian. Ele recostou-se na cadeira, descrente.

— Isso é desculpa. — O cuspiu, o maxilar trincado. — O senhor poderia ter procurado os melhores médicos do mundo, mas preferiu esconder de todos. Mentir para todos.

— Eu não escondi. E não menti. — corrigiu Nicolau, firme. — Eu apenas não dei explicações. É diferente. Eu protegi. Não queria pena. Nem olhares de abutres esperando minha queda.

— Quanto tempo? — murmurou.

— Meses. Talvez um ano. — Nicolau disse, como quem fala de um contrato prestes a vencer. — Mas não muito mais.

Ian respirou fundo, as mãos trêmulas sob a mesa.

— E ninguém sabe?

— Ninguém. — Nicolau confirmou. — Nem saberão até eu decidir.

O neto apoiou os cotovelos na mesa, enterrando o rosto entre as mãos por alguns segundos. Lutava contra a lágrimas que ardiam. O homem a sua frente, aquele mesmo que moldara sua vida com punho de ferro, estava morrendo.

Quando os abriu, havia apenas dor.

— Eu não sei se consigo.

Nicolau observou em silêncio. Então, pela primeira vez em muito tempo, sua voz suavizou:

— Você já consegue, Ian. Só não percebeu ainda.

O silêncio que se seguiu foi cruel. Dois homens, dois mundos. O velho rei em seu último ato e o herdeiro tentando decidir se usaria a coroa… ou a quebraria.

Ian respirava fundo, tentando manter o controle. Então, lembrou-se do que Carolina havia dito naquela madrugada. Inclusive, ela quem o alertara, mesmo que Ian já tivesse desconfiado.

— A Carolina sabia. — ele acusou. — Foi ela quem me alertou.

Os olhos de Nicolau cintilaram, um brilho raro em meio a frieza.

— Inteligente, aquela garota. Atenta. Percebeu rápido demais.

Ian estreitou os olhos.

— O senhor apenas gosta dela.

— Claro que gostou. — Nicolau afirmou, sem rodeios. — Carolina tem fibra. Elegância. É astuta. Sabe se mover no mundo. Eu sempre a vi como a mulher certa para você.

Ian soltou um riso seco, incrédulo.

— Não é isso. Os Moretti apenas têm o rabo preso com ela. — Ian cuspiu, não se importando em medir as palavras.

— Mais uma razão para você se manter com ela. Ela compartilha nossos segredos. Ainda não entendi a razão do término de vocês. Apenas lembro que foi pouco tempo que o seu pai morreu.

Ian bufou. Não queria falar daquilo. Não queria lembrar de nada daquela época. Foi o pior dos tempos. De todos os modos imagináveis.

— Ainda dá tempo de reatarem. — Nicolau insistiu.

E aquilo foi o suficiente para Ian explodir.

— Qual é o seu problema? Todo esse tempo, toda sua implicância com a Olivia. Era porque você queria que eu ficasse com a Carolina.

Nicolau arqueou uma sobrancelha. Frio. Calculista.

— E eu estava errado? Veja o que se tornou desde que aquela mulher apareceu. Escândalos, desordem, um neto meu exposto em público, agora até sangue se mistura. Você perdeu o foco, Ian.

— Mas não é com a Carolina com quem eu quero estar. — Ian rebateu, a voz alta, cortante.

Nicolau o encarou por longos segundos. E, pela primeira vez naquela manhã, não havia desprezo em seu olhar. Apenas uma curiosidade incômoda, quase um lampejo de piedade.

— Então me diga, Ian. — murmurou. — Com quem você quer estar?

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