Nicolau ajeitou o paletó, e sem olhar para trás, foi o primeiro a sair da sala.
O eco da bengala de Nicolau ainda tilintava contra o mármore quando ele deixou o lugar, impondo sua marcha lenta, mas implacável. Como sempre, o patriarca saía assim: com a frieza de quem não precisava assistir ao incêndio porque já sabia que as chamas o serviriam. Deixndo o caos para trás, como um maestro satisfeito após o clímax da sinfonia.
O silêncio que restou não era vazio. Era tão carregado de mágoa, raiva e veneno que se tornara tão denso que parecia pesar nos ombros.
Olívia sentiu o corpo pedir ar, e deu um passo para seguir Ian, mas antes que pudesse se mover, sentiu uma mão forte agarrar seu braço, dedos firme se fechando em torno de sua pele.
Benjamin.
O aperto foi forte, quase violento.
— O que diabos você quis dizer com aquilo? — a voz dele era grave, um rosnado, os olhos vermelhos e faiscando de raiva. — Quando perguntou se Clara tinha certeza de que o filho era meu?
Olívia congelou por um instante e engoliu seco, surpresa com a violência do gesto. O coração acelerou, mas antes que pudesse reagir, Ian estava lá.
Ele se colocou entre os dois.
Rápido.
Implacável.
Não houve hesitação.
Ele arrancou a mão de Benjamin do braço dela com brutalidade em um movimento seco e o afastou com o ombro, a expressão carregada de uma fúria que raramente deixava escapar, ficando entre eles como uma muralha.
A voz de Ian sai como um trovão contido, grave, baixo, mas carregado de ameaça que até Clara estremeceu:
— Encoste um dedo nela outra vez… e você não terá mais nenhum na sua mão.
O ar saiu do peito de Benjamin em um suspiro curto.
Ele recuou um passo, mas não o bastante. O orgulho não permitia.
Ainda que estivesse surpreso pela seriedade, ele não cedeu. O sorriso dele era mais nervoso do que vitorioso.
— Está me ameaçando por ela, tio? — cuspiu. — Por ela?
Ian não respondeu. Seu corpo era um muro entre Olívia e o sobrinho.
Benjamin o ignorou e tentou se inclinar para o lado, tentando alcançar o olhar de Olivia. Quando o fez, rosnou mais uma vez:
— Responda, Olívia. O que você quis dizer? Você está insinuando que Clara mente?
Clara, que até então observava, ficou rígida, o corpo dela como uma corda prestes a estourar, empalidecendo de imediato. O nome dela junto à palavra mentira fez suas pupilas dilatarem como as de um animal encurralado.
— Benjamin… — tentou intervir, mas a voz tremeu.
Olívia, no entanto, não perdeu a chance. Respirou fundo e virou-se devagar. O medo cedeu espaço ao veneno acumulado por anos. Um sorriso pequeno, frio, curvou seus lábios.
— Você realmente está inseguro assim? — perguntou, em tom baixo, quase suave, mas era letal.
Benjamin fechou os punhos, os olhos faiscando.
— Responda!
Ian não se moveu, permanecia entre eles, os olhos fixos no sobrinho.
Ela avançou um passo adiante, ignorando o muro de Ian, ignorando o risco. Ela se aproximava como quem pisa em terreno minado, mas sem medo da explosão.
— Durante três anos, Benjamin... — começou, cada palavra arrastada, carregada de rancor. — Durante três anos, você foi um problema para mim, enquanto me fazia acreditar que o problema era meu. Três anos de tentativas, de tratamentos, de discussões e humilhações silenciosas. Três anos em que você jurava que o problema não era você.
Benjamin piscou, o rosto perdendo a cor.
Olivia inclinou a cabeça, o sorriso sem humor.
— E agora, milagrosamente, você consegue ser pai? — ela sibilou, o sorriso sem humor cortando o ar. — Até você sabe que isso é… estranho.
Benjamin largou os braços dela de repente, a raiva transbordando. Girou para ela, os olhos fasicando.
— O que ela quis dizer, Clara? — gritou, a voz ecoando pelas paredes, carregada de insegurança. — Hein? O que você está escondendo de mim?
Clara piscou, rápido demais, o coração acelerado. Ela respirou fundo, erguendo o queixo. Mas a máscara de frieza voltou quase no mesmo instante. Ainda que houvesse algo quebrado no seu olhar.
— Não se rebaixe a esse nível. É isso que ela quer: plantar dúvidas.
— Não brinque comigo! — ele bateu o punho contra a mesa, fazendo o exame de gravidez tremer.
— Não alimente essas paranoias ridículas. Você é o pai. Ponto.
Benjamin deu uma risada nervosa, sem humor.
— Jura? — perguntou, a voz carregada de desconfiança. — Porque até você parecia desesperada para mudar de assunto. Estava com medo!
— Medo? — Clara deu um passo em direção a ele, lenta felina, o olhar feroz, mas a voz melosa como toxicidade. — Benjamin, eu sou a única pessoa neste mundo que ainda está do seu lado. A única.
Benjamin a encarou. Ele respirava rápido, o peito subindo e descendo, dividido entre o ódio e o medo. E, como sempre, Clara percebeu a fenda... e enfiou a faca.
Ela encostou a ponta dos dedos no rosto dele, com delicadeza cruel.
— Se você continuar a me questionar, vai perder tudo. Inclusive a mim.
Benjamin fechou os olhos por um instante, o corpo tenso, preso em seu ódio e rendição.
Clara sorriu. Um sorriso lento, satisfeito, de quem via a marionete se render ao fio.
— Então seja inteligente, Benjamin. Use o que tem. Use a mim. Use o bebê. — aproximou os lábios do ouvido dele. — E cale a boca.
Os olhos dele marejaram de frustração, mas a raiva não encontrava saída. O suspiro que escapou dele não era de alívio, mas de derrota.
E Clara sorriu, satisfeita, porque sabia: o controle ainda era dela.

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