O portão da mansão fechou-se atrás deles com um rangido metálico, pesado, como se o próprio ferro soubesse que estava aprisionando tudo o que tinham deixado lá dentro: Nicolau e suas manipulações, Benjamin e sua fúria, Clara e seu veneno.
O carro avançou pela estrada ladeada de árvores, mergulhado em silêncio absoluto.
Olívia mantinha os olhos fixos no vidro da janela, vendo as sombras das arvores sucederem em flashs e borrões rápido. As mãos estavam entrelaçadas no colo, tão tensas que os dedos doíam. Ela queria falar, mas cada palavra parecia um risco.
O coração ainda batia rápido demais. A cena na sala ecoava dentro dela; Benjamin gritando, Clara atacando, Ian segurando seu pulso, firme, prometendo que ninguém nunca mais a tocaria.
O que aquilo significava?
Por que aquelas palavras, tão duras, soavam como proteção, quase como… cuidado?
Engoliu em seco e apertou mais os dedos no colo. Sentia-se frágil, cansada, como se todo o corpo fosse feito de vidro prestes a estilhaçar.
Do outro lado, Ian ao volante, mantinha os olhos fixos na estrada, nunca desviando. A postura era rígida, o maxilar travado denunciava a fúria ainda presente. Ele nunca deixava transparecer, mas o ambiente estava carregado, cada respiração, cada olhar furtivo, cada lembrança do que havia acabado de acontecer.
Ele parecia impassível, mas Olívia já o conhecia o suficiente para perceber os sinais: os dedos apertados no volante, o músculo da têmpora latejando, a respiração irregular. Ele estava furioso. Não só com Benjamin e Clara; mas consigo mesmo.
A quietude era insuportável. Foram minutos que pareceram uma eternidade. Olívia tentou ignorar, mas as palavras escaparam antes que conseguisse se conter:
— Você não precisava... ter falado daquele jeito.
Ian desviou os olhos da estrada apenas por um instante, um olhar rápido, penetrante, e depois voltou a fitar a estrada, encarando-a de relance.
— Precisava, sim. — disse, seco. — Ou ele teria passado dos limites.
Olivia mordeu o lábio.
— Benjamin sempre passa dos limites. — retrucou ela, a voz mais baixa, mas carregada de exaustão. — Não é com ameaças que isso vai mudar.
— Não foram ameaças. — Ian replicou, firme, o tom mais grave como um rosnado. — Foi uma promessa.
As palavras dele reverberaram dentro dela. Promessa.
O coração de Olívia deu um salto desconfortável, acelerando com a intensidade daquelas palavras. Quis retrucar, mas não conseguiu. Não era só a raiva dele que estava em jogo, era o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, alguém a havia defendido com convicção.
O silêncio voltou com mais força e apertou mais os dedos no colo. Ian respirou fundo.
Ele continuou, sem olhar para ela:
— Eu não vou permitir que ele encoste em você outra vez.
Olívia fechou os olhos por um instante, tentando conter a avalanche de emoções. As lágrimas ameaçaram vir, mas ela as conteve. Parte dela queria agradecer, parte queria gritar. Quando abriu os olhos, virou-se para ele, a voz embargada:
— Por quê, Ian?
Ele piscou, confuso.
— O quê?
— Por quê? — insistiu, mais firme. — Você não me deve nada. Nosso acordo não incluía isso. Não incluía você me proteger como se... como se eu fosse mais do que…
Ela parou, as palavras morreram na garganta. Não conseguiu terminar ou não teve coragem pra isso.
Tudo ficou quieto de novo, mas desta vez parecia vibrar.
Ian apertou o volante com força, os nós dos dedos ficando brancos. A respiração dele também mudou, ficou mais pesada.
Quando respondeu, a voz era rouca, quase um sussurro, longe da sua frieza habitual, como se fosse algo arrancado de dentro dele contra a própria vontade:
— Porque você fala demais.
Olívia arregalou os olhos, chocada.
— Como é que é?
Ele finalmente se virou, encarando-a. Os olhos escuros brilhavam, carregados de uma intensidade que a fez prender a respiração. Depois, sua atenção voltou a estrada.
— Você fala demais. — disse, baixo, cada palavra arrastada. — Provoca demais. Mexe onde não devia. E me obriga a reagir.
Ela ficou sem fôlego, totalmente sem palavras. O coração disparava, a raiva e outra coisa, mais profunda e muito mais sombrio, dolorosa, uma sensação perigosa, quente se misturavam.
— Então a culpa é minha? — perguntou, incrédula, tentando esconder o tremor na voz.
Ian bufou, frustrado.
— Não estou dizendo isso. — ele parou, a mandíbula tensa, procurando as palavras. — Estou dizendo que você me tira do controle.
O ar sumiu dos pulmões de Olívia. As palavras rondando entre eles, carregadas de uma verdade que nenhum dos dois queria admitir.
Por um instante, só conseguiram se encarar.
E ela soube. Ele estava dizendo a verdade.
Um riso nervoso escapou de seus lábios, trêmulo, sem humor.
— Eu? Tirar você do controle? Você, Ian Moretti, o homem que calcula cada passo, que nunca deixa nada escapar do planejamento?
— Exato. — ele respondeu sem hesitar. — Só você consegue isso.
Olívia sentiu o estômago revirar, o coração disparar ainda mais, mas a mente tentou negar. Virou o rosto de volta para a janela, como se o vidro pudesse protegê-la. Mas o reflexo no vidro denunciava: estava corando, estava vulnerável, a respiração curta.
O carro seguiu em frente, e por alguns minutos, só o som do motor preenchia o silêncio. Até que ela, quase sem perceber, murmurou:
— Eu estou cansada, Ian. Exausta. Minha vida virou uma arena, uma luta diária. Não sei se aguento muto mais.
Carla veio quase correndo em direção a ela. O olhar preocupado, mas também carregado daquela intensidade curiosa que sempre parecia ultrapassar os limites.
— Alguma novidade? — Olívia perguntou, a voz trêmula, o coração já acelerando como se fosse receber um veredito.
Carla segurou seus braços com firmeza, olhando fundo em seus olhos.
— Não, nada mudou. Ele está estável. Você precisa se acalmar.
A respiração de Olívia falhou em alívio. As pernas ficaram bambas, mas ela forçou um sorriso trêmulo.
— Estável… — repetiu, como se precisasse saborear a palavra.
Ian, ao lado, interveio. A voz dele foi baixa, mas carregada de autoridade suave:
— Você devia ir tomar um banho. Depois, eu levo você para comer alguma coisa decente.
Olívia virou o rosto para ele, surpresa pela oferta. E por um instante, quis aceitar. Mas a lembrança de Nicolau cortou a fantasia como uma lâmina.
— Você não pode. — disse, balançando a cabeça. — Nicolau está esperando você na empresa.
Ian ficou tenso de imediato. O maxilar travou, os olhos escureceram. Ele parecia ter esquecido momentaneamente da convocação do avô, e agora a lembrança o atingia com o peso de um fardo inevitável.
— Eu… — começou, mas não terminou.
Olívia tocou de leve o braço dele, em um gesto rápido, quase impulsivo.
— Não precisa se preocupar. Eu vou ficar bem.
Carla, que observava a troca com atenção aguda, sorriu e interveio, a voz carregada de ironia disfarçada em doçura:
— Claro que vai. Ela tem a amiga dela aqui, não tem?
Olívia sorriu de leve, mas Ian franziu o cenho. O olhar dele se demorou um segundo a mais sobre Carla, como se não confiasse totalmente na suavidade daquelas palavras.
Ele respirou fundo, desviando o olhar para Olívia.
— Eu volto assim que puder.
Ela assentiu, tentando sorrir.
— Boa sorte na reunião.
Ele segurou o olhar dela por alguns segundos a mais, como se quisesse dizer algo que não conseguia. Então, simplesmente virou-se e caminhou em direção à saída.
Olívia o acompanhou com os olhos até ele desaparecer pelas portas do hospital. O peito dela se apertou com uma mistura de preocupação e decepção.
Ela sabia, e Ian também sabia, que nada de bom os esperava naquela reunião.

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