O prédio das Indústrias Moretti erguia-se no horizonte como uma fortaleza de aço e vidro contra o céu da manhã, refletindo a luz solar que batia nas janelas altas, e a imponência parecia sussurrar uma verdade: aquele lugar não era apenas um centro de negócios, era o trono de Nicolau.
Ian estacionou o carro na vaga reservada e, por um instante, ficou imóvel, as mãos no volante. Respirou fundo, fechou os olhos e deixou que a sensação conhecida o tomasse: aquela mistura de fardo e pertencimento. Crescera naquele mundo, moldado para se tornar um sucessor. Mas agora, o jogo havia se tornado mais perigoso do que nunca.
Ao entrar no saguão principal com passos firmes, cumprimentou com um aceno rápido os funcionários que já trabalhavam. Subiu no elevador sem trocar palavras, o olhar fixo no painel, a mente já no andar superior. O peso da convocação do avô o acompanhava como uma sombra.
Quando as portas do elevador se abriram no último andar, a cena o atingiu em cheio. Ele não encontrou apenas Nicolau.
A sala ampla de vidro, usada apenas quando reuniões decisivas e estratégica aconteciam, estava cheia. Os sócios principais das Indústrias Moretti, homens e mulheres que Ian conhecia bem, há anos, nomes que carregavam décadas de poder e influência, em seus rostos marcados pelo tempo e pela ganância. Todos estavam sentados, ocupando seus lugares ao redor da longa mesa de mármore. O ambiente exalava dinheiro, poder e rivalidade.
Mas o som baixo de conversas foi silenciado quase de imediato quando Ian entrou.
No centro, à cabeceira, estava Nicolau Moretti.
Imponente. Sorriso discreto nos lábios, bengala apoiada ao lado, os olhos faiscando com uma energia quase cruel, como o de um jogador prestes a mexer a peça decisiva.
À esquerda dele, sentado com ares de dono do mundo, estava Benjamin.
Camisa impecável, gravata alinhada, o sorriso de quem acreditava já ter vencido o jogo antes mesmo de começar.
Ian sentiu o estômago se contrair, mas não demonstrou, se manteve impassível. Entrou na sala em silêncio, cumprimentou com um aceno seco e se sentou à direita do avô.
Nicolau esperou alguns segundos, deixando o peso do silêncio se espalhar pela sala, até que finalmente falou.
— Senhores. — a voz grave preencheu cada canto, reverberando contra as paredes de vidro. — Hoje não é uma reunião comum. Convidei-os aqui hoje não para apresentar números, nem balanços ou novas parcerias. Convidei-os para observar.
Alguns sócios trocaram olhares curiosos. Nicolau inclinou-se levemente para frente, apoiando as mãos sobre a mesa.
— Tenho diante de mim dois homens que carregam meu sangue. Duas promessas da família Moretti. Dois jovens que, em breve, precisarão carregar o peso deste império. — seu olhar se demorou em Ian, depois em Benjamin. — Mas não escolherei às cegas. Hoje, quero ver, com meus próprios olhos, quem está preparado.
Um murmúrio percorreu a mesa. Ian se manteve impassível, o rosto neutro, mas sentiu o coração acelerar. Benjamin, por outro lado, ajeitou a gravata com um sorriso presunçoso, saboreando cada segundo de protagonismo.
Nicolau abriu um dossiê grosso diante de si e espalhou algumas folhas sobre a mesa.
— Temos um problema. — começou, a voz cortante. — Um de nossos parceiros internacionais travou negociações. Interrompeu o fornecimento de matéria-prima. Isso significa prejuízos imediatos, multas contratuais, investidores pressionando. — fez uma pausa dramática, os olhos brilhando, cada palavra uma isca. — O que vocês fariam?
O silêncio inicial caiu como um manto pesado.
Até que Benjamin pigarreou, e se adiantou, ansioso para brilhar.
— É simples. — começou, recostando-se na cadeira com autoconfiança ensaiada. — Romperíamos o contrato e buscaríamos fornecedores alternativos. Há várias empresas emergentes no mercado asiático. Com as cláusulas bem redigidas, transferiríamos as multas e custos para eles. Rápido, prático, eficaz.
Alguns sócios assentiram. O senhor Bianchi murmurou:
— Perspicaz.
Benjamin sorriu. O rosto irradiava triunfo ao receber elogios, como se já tivesse conquistado a sala.
Mas Ian não se deixou levar. Ele já tinha identificado o erro.
Cruel. Óbvio para quem entendia.
Conhecia bem esse jogo. E já havia encontrado a falha.
Quando Nicolau voltou o olhar para ele, Ian endireitou a postura, as mãos sobre a mesa.
— Parece convincente. — disse, com calma. — Mas só na superfície.
Benjamin virou o rosto em sua direção, a expressão mudando de vitória para irritação.
Ian continuou, a voz firme, segura:
— Romper contratos dessa forma, sem negociar contrapartidas, acionaria um efeito cascata. Perderíamos credibilidade com parceiros de décadas. Investidores fugiriam. O mercado emergente que você citou é instável, e qualquer cláusula tentando transferir custos seria contestada judicialmente. — inclinou-se levemente para frente, encarando cada sócio nos olhos. — Não só gastaríamos mais, como ficaríamos anos em litígios.
O murmúrio que percorreu a mesa agora era outro. Um de preocupação, não de aprovação.
Benjamin apertou os lábios, o rosto ficando vermelho.
Ian prosseguiu, implacável:
— A solução não é romper. É renegociar. O corte no fornecimento não é definitivo, é estratégico. O parceiro quer aumentar margem. O que devemos fazer é oferecer benefícios adicionais temporários, incentivos controlados, em troca de retomar o fornecimento imediato. Isso estabiliza o fluxo, mantém os acionistas seguros e, no processo nos dá tempo para desenvolver fornecedores paralelos em silêncio.
O senhor Ricci, o sócio mais velho, coçou o queixo, impressionado.
— Isso preservaria a imagem da companhia no mercado.
Uma das sócias, Marta Costa, concordou:
— E mostra que não reagimos com impulsividade, mas com estratégia.
Benjamin tentou interromper, mas Ian prosseguiu, sem levantar a voz:
— Gestão não é só cortar laços. É saber quando usar firmeza e quando usar sutileza. Moretti não é só aço e vidro. É reputação. Uma herança que não pode ser rasgada em um contrato mal passado.
Alguns sócios assentiram, como se a resposta fosse convincente. Nicolau, no entanto, não se moveu. Apenas ergueu as sobrancelhas, curioso.
Ian respirou fundo. Sabia que precisava falar, mas não podia se permitir parecer vulnerável demais.
— Família não é apenas gerar herdeiros. — disse, firme, mas a voz carregava algo mais profundo. — É manter o que se tem, mesmo quando tudo parece desmoronar.
Benjamin riu, debochado.
— Palavras bonitas. Mas o que isso significa, na prática?
Ian virou o rosto para ele, os olhos escuros faiscando.
— Significa que enquanto você fala de conquistas futuras, eu já lido com perdas passadas. — disse, o tom mais grave. — Já sei o que é perder pai, mãe e irmão, e ainda assim estar aqui, mantendo o nome desta família em pé.
O ar pareceu rarefeito na sala. Os sócios se entreolharam, alguns desconfortáveis.
Ian prosseguiu, e a firmeza na voz contrastava com a dor que atravessava cada palavra:
— Família é proteger os que ainda restam, mesmo quando não pedem. — Olhou para seu avô quando disse essas palavras, ele sabia exatamente o que Ian queria falar. — É não permitir que sejam usados como armas em disputas de poder.
Por um segundo, uma imagem cruzou sua mente: Olívia. Léo.
A garganta se apertou, mas ele não desviou o olhar do avô.
— O peso do legado não está apenas em expandi-lo. Está em sustentá-lo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até Benjamin, por um instante, pareceu sem resposta.
Nicolau recostou-se na cadeira, um leve sorriso nos lábios, mas os olhos intensos.
— Interessante. — murmurou. — Dois caminhos diferentes para o mesmo trono.
Os sócios respiraram, aliviados pelo encerramento, mas Ian sabia: nada estava encerrado.
Era apenas mais uma camada do jogo.
E, no fundo, sentiu que Nicolau havia conseguido exatamente o que queria: expor não apenas a capacidade deles de negociar contratos, mas também as feridas e ambições que guardavam mais fundo.
O velho patriarca não estava testando só a mente.
Estava testando o coração.

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