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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 84

A reunião terminou com um estalar seco da bengala de Nicolau contra o piso.

— Por hoje é suficiente. — declarou, e os sócios começaram a se levantar, murmurando entre si.

O ambiente ainda carregava resquícios da batalha velada que haviam presenciado, mas todos fingiam normalidade. O som das cadeiras sendo empurradas, das pastas recolhidas, dos passos ecoando contra o vidro foi se apagando aos poucos.

O último dos sócios fechou a pasta, murmurou algo em voz baixa e deixou a sala. O eco dos passos foi diminuindo até desaparecer completamente no corredor.

Até restarem apenas duas presenças naquela sala de vidro.

Dois homens.

Dois Moretti.

Dois inimigos.

Ian e Benjamin.

O silêncio era sufocante. Denso, pulsante, pronto para explodir. Não havia mais plateia, não havia Nicolau para intervir. Só eles, as paredes de vidro e os fantasmas que carregavam.

Benjamin foi o primeiro a se mover. Encostou-se na cadeira, cruzou os braços e deixou o silêncio se arrastar até se tornar provocação. O sorriso que surgiu nos lábios era carregado de ironia.

— Você fala bonito, Ian. — disse, num tom preguiçoso, quase debochado. — Sobre legado, sobre família, sobre sustentar o que resta. Mas parece se esquecer um pequeno detalhe.

Ian ergueu o olhar lentamente, e manteve os olhos fixos nele, frio, mas o maxilar latejava.

— Que detalhe?

Benjamin inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa, os olhos faiscando. O rosto ficou a poucos centímetros do de Ian, e sua voz saiu como um sussurro envenenado:

— Quando você perdeu o seu irmão… eu perdi o meu pai.

A frase caiu como uma garra no peito.

Ian não piscou, mas os músculos de seu rosto endureceram. O sangue fervendo subiu-lhe ao rosto, e uma fúria surda começou a latejar em suas têmporas.

Não havia nada mais difícil do que aprender a mentir, fingir que você estar vivo quando já morreu por dentro. Benjamin jamais conheceria essa sensação.

— Perdeu? — repetiu, a voz baixa, grave, perigosa cheia de fúria contida. — Você se atreve a usar essa palavra?

Benjamin não recuou. Apenas arqueou as sobrancelhas, provocador.

Ian bateu a palma da mão contra a mesa, um som seco que fez tremer as folhas espalhadas que ainda restaram.

— Ele passou anos tentando se aproximar de você! — disse, com uma intensidade que não permitia interrupções, a voz como um trovão. — Tentou ligar, tentou escrever, te procurou em cada cidade em que sabia que você estava, tentou... tudo. E você, Benjamin? Você nunca respondeu.

Benjamin abriu a boca, mas Ian não permitiu que a voz dele preenchesse o espaço.

— Você nunca quis saber. Nunca quis olhar para ele. — a voz agora era um grito contido. — E ele morreu sem saber se você ainda existia! Sem saber se ainda tinha um filho! — a tom agora era de dor misturada a raiva.

Ian respirou fundo, tentando controlar o tremor na voz.

Lembrou de quando tinha seis anos, e quebrou sua perna enquanto estava fugindo do seu irmão. Ou como ele o ensinou andar de skate. Em como ele sempre o socorria quando se metia em confusão. Ainda que Carlo fosse bem mais velho que ele, ele não se importava em se jogar nas brincadeiras infantis que Ian tinha. Lembranças assim, com seu irmão o acompanhando, o transformaram em quem ele era hoje.

— Ela chorava por mim, Ian. Chorava porque não era suficiente. Você pode beijá-la, pode fingir que a possui, mas sempre haverá uma parte dela que eu marquei.

Foi nesse instante que algo se rompeu dentro de Ian. Ele percebeu a força devastadora do ciúme que o consumia. Talvez também não houvesse tempo de andar fingindo.

Não era apenas irritação. Não era orgulho ferido.

Era mais profundo, mais perigoso. Era ciúme puro. Era dor. Era a certeza de que Benjamin tinha tocado no que havia de mais vulnerável nele.

Ian levantou-se de repente, a cadeira rangendo contra o piso. A sombra dele cobriu Benjamin, e o olhar escuro, como uma noite sem lua, carregava uma fúria que parecia impossível de conter.

— Cuidado com cada palavra que sai da sua boca. — disse, a voz baixa, rouca, cada palavra como chamas. — Se você ousar falar dela assim de novo... não vou responder por mim.

Benjamin manteve o sorriso, mas o olhar vacilou por um instante diante da intensidade do outro. Mesmo que o sorriso irônico permanecesse.

— Olha só… — murmurou. — Então é isso. O tio frio, o calculista, o homem que nunca se envolve… está se queimando por uma mulher.

Ian respirava rápido, como se cada fôlego fosse uma batalha. Ele não respondeu. Não precisava. O fogo nos olhos dele era a confissão que nunca seria dita em voz alta.

E Benjamin sabia.

Sabia que havia tocado a ferida.

E, naquele momento, Ian soube, que Benjamin tinha razão em uma coisa: Olivia não era mais parte de um acordo.

Ela já era muito mais.

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