A porta de vidro da sala de reuniões abriu-se de repente.
E então, a bengala de Nicolau bateu contra o mármore. Um som seco, autoritário.
— Já chega. — disse o patriarca, entrando devagar, os passos lentos, mas firmes, os olhos duros como aço.
O silêncio que restara entre Benjamin e Ian foi engolido pelo som rítmico da madeira contra o mármore.
Benjamin endireitou-se, tentando recuperar o ar de confiança, mas não conseguiu disfarçar a irritação. Nicolau não lhe deu espaço para palavras.
— Pode sair. Preciso falar com Ian. A sós.
Benjamin hesitou, cerrou os punhos, os olhos faiscando de raiva. Queria protestar, mas o olhar do avô o calou e ele obedeceu. Com um último suspiro de frustração, empurro a cadeira atrás de sair, mas antes de atravessar a porta, lançou um último olhar para Ian, carregado de ódio e promessas de guerra.
Nicolau esperou o silêncio voltar. Caminhou até o centro da sala, e parou diante da parede de vidro, onde a cidade brilhava em miniatura sob seus olhos cansados. O reflexo da cidade mostrava um homem envelhecido, mas ainda imponente, os traços marcados pela luta contra o próprio corpo.
— Venha. — ordenou, sem virar o rosto.
Ian o seguiu em silêncio até o escritório particular.
O ambiente ali era outro, era uma sala diferente da pompa usual da empresa: longe da frieza corporativa, a sala era um relicário de poder. O espaço carregava marcas de outra época: quadros antigos da família, móveis de madeira escura, o bar com garrafas de uísque esquecidas abertas há anos e uma poltrona que parecia ter sido moldada ao corpo de Nicolau. O ar era pesado, impregnado de fumaça envelhecida, couro e memórias.
Nicolau sentou-se na poltrona, apoiando a bengala contra o braço da cadeira. Por um instante, fechou os olhos, respirando fundo, com quem luta contra o próprio corpo. O silêncio foi tão longo que Ian quase falou primeiro, mas então o avô quebrou a quietude.
— Estou velho. — disse, simples e sem preâmbulos, como quem anuncia o óbvio. — E velho não dura para sempre.
Ian franziu o cenho.
— Você não vai me dizer agora que desistiu de lutar, vai? Você não é o tipo que admite fraqueza.
Um riso curto escapou dos lábios de Nicolau. Era um som seco, sem alegria.
— Fraqueza? Não. Realidade. Lutar contra o tempo é burrice, rapaz. O tempo sempre vence.
A resposta ficou suspensa. Ian sentiu o estômago se apertar.
— Então é verdade. — disse, voz contida. — Está doente mesmo doente e não vai lutar com isso.
Nicolau abriu os olhos lentamente, e encarou-o com uma frieza que não deixava espaço para compaixão. Com aquela intensidade cruel que sempre o definira.
— Estou. Mas não é isso que importa. O que importa é quem estará pronto para carregar o nome Moretti quando eu me for. Não morrerei antes de decidir quem merece o que construí.
A fresa ficou presa no ar. Ian engoliu em seco.
— E você acha que Benjamin pode?
Nicolau sorriu, um traço cínico nos lábios.
— Acho que nenhum dos dois me convenceu ainda.
Ian respirou fundo. O coração batia rápido, mas sua voz saiu firme:
— Se quer testar quem é capaz de carregar o peso, faça. Mas não use a doença como arma.
O velho sorriu de canto, quase divertido.
— Você fala como se não fosse exatamente isso que eu sempre fiz: usar tudo o que tenho como arma.
Ian sentia as veias latejarem nas têmporas, mas manteve a postura ereta. Sabia que cada palavra era um teste.
Nicolau se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. O rosto, por um momento, pareceu mais velho, mais cansado que Ian jamais vira.
— Não se trata só da empresa. — disse baixo. — Trata-se de quem será capaz de manter a família em pé quando eu não estiver mais aqui.
Ian engoliu em seco.
— Sabe o que é mais difícil em liderar uma família como a nossa? — perguntou. — Não são os negócios, nem os rivais. É manter os próprios sentimentos sob controle.
Ian apertou a mandíbula.
— Talvez porque você nunca soube liderar com outra coisa além do medo.
Um brilho de satisfação surgiu nos olhos do velho.
— Exato. O medo mantém todos no lugar. O amor… o amor é para os fracos.
As palavras ecoaram no peito de Ian, um peso que o sufocava. Pensou em Olívia. Pensou em como ela tinha se tornado a única brecha em sua armadura.
— E o Ian? — perguntou, quase casual.
Olívia se virou rápido.
— O quê?
— Não me venha com esse “o quê”. Vai me dizer o que está acontecendo entre você e ele, ou vai continuar fingindo? — Carla provocou. — Eu vi o jeito que você olha pra ele.
Olivia se virou rápido, surpresa com a acusação direta.
— Não está acontecendo nada. — ela disse, mas a voz falhou.
Carla arqueou a sobrancelha, descrente.
— Nada? — repetiu provocadora. — Então por que você cora toda vez que ele se aproxima? Por que, mesmo aqui, seu olhar ainda procura o dele?
Olívia abriu a boca, mas fechou de novo. Não tinha resposta. Desviou rápido o olhar para o filho, como se isso fosse resposta suficiente. Mas a amiga não desistiu. Ela riu baixinho.
— É engraçado. Ele sempre pareceu inalcançável, frio, distante. Mas quando está perto de você… parece humano. É como se outra versão dele aparecesse.
O coração de Olívia disparou. Não queria falar sobre isso, não quando o filho estava lutando pela vida, mas as palavras de Carla plantavam dúvidas que ela não já conseguia calar. Dúvidas que cresciam a cada dia.
Tentou ignorar tudo ao redor, mas as palavras de Carla ecoavam dentro dela.
Ian. Sempre Ian.
— Nada disso importa, Carla, porque tudo que eu tenho está logo ali em frente— sussurrou. — Tudo que tenho é o Leo.
Carla passou o braço em volta dela.
— Só quero que você saiba que não está sozinha, sabia?
Olívia fechou os olhos. Por um instante, deixou-se amparar. Mas dentro dela, uma voz gritava: estou sozinha sim.
E ainda assim, quando pensava em Ian, lembrava do sorriso raro dele no hospital, do abraço que a sustentou quando ela quase caiu, dos dois beijos…
E odiava admitir que parte de si se sentia menos sozinha quando ele estava por perto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido