O som da mala caindo ecoou pela sala como um trovão. O coração de Olívia parou por um segundo, depois disparou num ritmo frenético, como se fosse escapar pelo peito.
Ela não acreditava no que via.
Ali, diante dela, estavam dois rostos que pertenciam ao passado, rostos que ela acreditara nunca mais precisar rever. Não eram lembranças, não eram pesadelos; estavam ali, de carne e osso.
Rostos que a ensinaram cedo que o sangue nem sempre significava família.
Ela sentiu a garganta fechar. A visão embaçou.
As lembranças vêm em memórias e ecos da própria voz de Olívia dizendo a si mesma que agora é a hora, precisava esquecê-los, deixar o passado para trás. E ela recorda como havia sido difícil seguir em frente depois de tudo que havia sofrido por anos, era quase impossível, quando, todas as noites antes de dormir, via tudo em sua cabeça. Revivendo uma e outra vez.
— O que diabos… — a voz falhou, mas ela tentou de novo, mais firme, embora trêmula. — O que diabos vocês estão fazendo aqui?
O pai, de terno escuro, a postura rígida como sempre, a mesma expressão severa que a fizera sentir-se pequena a vida inteira. A mãe, de vestido sóbrio, os olhos ainda mais frios do que recordava, cruzando os braços com aquele ar de julgamento que Olívia conhecia desde menina.
O homem deu um passo à frente. Os cabelos grisalhos, o olhar duro como pedra. A mãe, ao lado, sustentava a mesma expressão de reprovação que Olívia reconheceria em qualquer lugar.
Eles estavam mais velhos, sim, mas não menos austeros.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Só se ouvia a respiração acelerada dela e o leve bip dos aparelhos médicos que Léo ainda carregava em seu corpo.
Léo, confuso, apertou a mão da mãe, puxando a barra da blusa.
— Quem são, mamãe? — perguntou baixinho.
Olívia engoliu em seco, os olhos ainda fixos nos pais. Depois piscou rápido, tentando conter o desespero.
— Ninguém que importe. — disse, rápido, a voz falhando.
Foi então que o som da bengala cortou o ar: toc, toc, toc.
Nicolau entrou no hall como quem já esperava o espetáculo. O som cadenciado da bengala batendo contra o chão.
A sombra de um sorriso habitava seus lábios.
Nicolau surgiu pela lateral, apoiado em seu bastão, o sorriso de quem acabara de assistir a uma peça cujo final já conhecia.
— Ah, vejo que já se encontraram. — disse, quase divertido.
Olívia se virou para ele, incrédula, o rosto em chamas, as lágrimas querendo romper.
— Foi você. — cuspiu as palavras. — Você os trouxe aqui.
Nicolau ergueu o queixo, a sombra de um sorriso nos lábios.
— Ora, achei que seria apropriado que a família da noiva estivesse presente.
— Você não tinha esse direito! — Olívia gritou, a voz embargada pela dor.
— Eu tenho todos os direitos. — Nicolau rebateu, a calma cruel em contraste com o turbilhão dela. — Se quer ocupar este lugar, precisa mostrar que é capaz de enfrentar até as raízes que tanto tenta enterrar.
Ian, até então em silêncio, observava tudo. E de repente entendeu: Nicolau não queria apenas um casamento para amarrá-los. Ele queria um espetáculo. Queria arrancar de Olívia cada cicatriz, expô-la, usá-la como parte de seu jogo de poder.
O pai de Olívia pigarreou, a voz grave cortando o ar.
— Mamãe… eles são meus avós? — perguntou olhando para os dois estranhos com inocência.
O mundo de Olívia desmoronou.
Ela sentiu o ar sumir dos pulmões, as pernas fraquejarem.
Os pais a encararam sem responder. Nicolau arqueou uma sobrancelha, curioso para ver como ela lidaria com aquilo.
Ela se ajoelhou diante do filho, segurando-lhe o rosto frágil com delicadeza.
— Léo, querido… — a voz saiu trêmula, quase quebrada. — Eles… não são parte da nossa vida. Você só precisa de mim e você me tem. E só isso importa.
O menino franziu a testa, confuso, mas aceitou o abraço apertado da mãe.
Ian colocou uma mão firme no ombro de Olívia, sem dizer nada. O gesto, simples, era um escudo silencioso.
Quando finalmente ergueu o rosto, os olhos de Olívia estavam vermelhos, marejados, mas havia algo diferente neles: não apenas dor, mas uma chama de resistência.
Ela olhou para Nicolau, para os pais, e disse com firmeza:
— Eu não sou mais aquela menina que vocês puderam destruir.
O silêncio foi absoluto.
E, pela primeira vez em muito tempo, Olívia acreditou nas próprias palavras.

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