— Bem. — a voz de Nicolau ecoou pelo hall, grave, implacável. — Como todos já se comunicaram… vamos nos preparar para o jantar.
Era como se nada tivesse acontecido. Como se ele não tivesse acabado de arrancar feridas antigas do peito de Olívia. Como se expor a rejeição de uma filha pelos pais fosse apenas mais uma jogada de xadrez para entreter a família.
Olívia manteve-se de pé, o rosto pálido, o coração disparado.
— Eu não vou jantar. — disse, firme, mas com a voz embargada.
A mãe dela deu um passo à frente, e o tom usado fez o estômago de Olívia se revirar.
— Ora, filha… — disse, doce demais, quase melado. — Este é o momento de se sentar, conversar, entender e… quem sabe, perdoar as diferenças.
Olívia riu. Um riso curto, amargo, sem humor.
— Perdoar? — repetiu, as lágrimas queimando os olhos. — Depois de tudo o que vocês fizeram?
O silêncio caiu. Nicolau a observava com interesse, como um diretor satisfeito diante de um ator que improvisava melhor do que o roteiro.
Olívia não aguentou mais. Segurou a mão de Léo com firmeza e ergueu o queixo.
— Vamos, filho. — disse, ignorando todos. — Não precisamos estar aqui.
E sem esperar resposta, subiu as escadas. Cada degrau parecia pesar uma tonelada. Ela sentia os olhos deles cravados em suas costas; os pais, Nicolau, talvez até Ian. Mas não olhou para trás.
No quarto, ao abrir a porta, o peito de Olívia quase desabou.
Helena estava ali.
A enfermeira arrumava alguns frascos sobre a mesa lateral, ajeitando tudo com cuidado. Quando ergueu os olhos e viu Olívia, o sorriso dela foi imediato. Um sorriso doce, genuíno.
— Olívia? — perguntou, com ternura. — O que aconteceu?
Olívia sentiu as lágrimas ameaçarem. Aquele cuidado tão simples… tão raro. Por um instante, quase se permitiu chorar nos braços dela.
Mas respirou fundo, balançando a cabeça.
— Está tudo bem. — murmurou, disfarçando, embora a voz vacilasse.
Helena não insistiu, mas o olhar dela dizia que acreditava em nada daquilo.
Olívia desviou, olhando em volta. O quarto não era mais o mesmo.
A cama estava adaptada para Léo. Aparelhos discretos foram instalados. Ao lado, uma pequena bancada de apoio com medicamentos, seringas, compressas, tudo organizado como uma mini farmácia. Era como se o quarto tivesse se transformado em um refúgio médico, pensado em cada detalhe.
Olívia levou a mão à boca, surpresa.
— Quem fez isso?
Helena ajeitou os óculos, como quem hesitava em falar, mas respondeu com simplicidade:
— O senhor Ian. Foi ele quem mandou preparar tudo. Eu só ajudei a organizar os itens necessários para o estado de Léo.
O coração de Olívia acelerou. Sentiu um calor estranho no peito, algo entre gratidão e vulnerabilidade.
Ian…
Helena sorriu de leve, mas havia significado em suas palavras seguintes:
— Ele deve gostar muito do menino. — fez uma pausa, olhando para Olívia com doçura. — E de você também.
Olívia piscou rápido, tentando conter o impacto. O rosto ficou quente. Não respondeu, apenas desviou o olhar para o filho. Mas a frase ficou ecoando como uma confissão não dita.
Antes que pudesse reagir, a vozinha de Léo cortou o silêncio.
— Mamãe… eu não quero ser o Superman. Eu prefiro o Batman.
Olívia soltou uma risada embargada. Helena gargalhou também, e o peso do ar se dissipou um pouco.
— Então vamos cuidar de você agora para ficar forte como o Batman. — disse Helena. — Só não sei se consigo arranjar uma capa.
— Mas precisa ter o cinto de utilidades! — Léo rebateu, sério, fazendo as duas rirem ainda mais.
E assim, entre risos e cuidados, deram banho nele, trocaram curativos, ajustaram a roupa. Helena falava com ele como quem fala com o próprio filho, transformando cada gesto em carinho.
Olívia observava em silêncio, o coração dividido: parte queria chorar pela dor que carregava dos próprios pais; parte queria agradecer pela sorte de ter alguém como Helena por perto. E parte… parte não conseguia parar de pensar em Ian e no que ele tinha feito por Léo.
Quando tudo terminou, Léo já estava aconchegado na cama, com um sorriso satisfeito.
— Mamãe, estou pronto para o jantar. — disse, animado.
Olívia beijou sua testa. Toda sua nova dieta já havia sido passada para a cozinheira da casa.
— Eu vou buscar para você.
Saiu do quarto, inspirando fundo, tentando se recompor.
Mas, ao chegar à cozinha, o corpo dela travou.
E então jogou sua cartada.
— Vocês nunca acharam estranho que Olívia se separou de mim e, nove meses depois, já tinha um filho?
Os olhos dos pais de Olívia se arregalaram. Ela viu, em tempo real, a conta mental sendo feita, os rostos se iluminando de conclusão.
— Meu Deus… — a mãe dela ofegou. — Então… você é o pai?
Olívia sentiu o coração disparar, o ar preso na garganta. Não conseguia respirar. Não podia deixar aquela mentira ganhar espaço.
Benjamin balançou a cabeça, a voz impregnada de falsa dor:
— Infelizmente, não sou. — suspirou, teatral. — Eu também pensei que fosse… Mas isso só significa uma coisa.
Ele se virou, olhando diretamente para Olívia, os olhos brilhando de triunfo.
— Ela já estava com outro homem enquanto ainda estava comigo. — a voz dele se elevou, cruel. — Quem é a vadia agora?
O golpe foi tão brutal que Olívia não conseguiu reagir. As pernas fraquejaram, o rosto queimava de vergonha e ódio, mas as palavras se perderam.
E foi nesse instante que se ouviu o som seco de um soco.
Um murro certeiro, firme, estourando contra o rosto de Benjamin.
O impacto ecoou pela cozinha, seguido pelo som do corpo dele cambaleando contra a mesa.
Olívia piscou, confusa, até perceber.
Era Ian.
Ele estava ali, o punho ainda fechado, o peito arfando. Os olhos negros incandescentes de fúria.
— Tenta falar dela desse jeito de novo. — a voz dele saiu grave, baixa, perigosa. — E eu te quebro inteiro.
Benjamin levou a mão ao rosto, o sangue escorrendo pelo canto da boca. Mas mesmo assim, sorriu. Um sorriso torto, provocador.
Olívia, no entanto, não viu nada disso.
O choque, a humilhação e a súbita onda de proteção vinda de Ian a deixaram sem chão. O coração dela batia tão rápido que doía.
E pela primeira vez em muito tempo, ela não sabia se queria gritar, chorar… ou simplesmente se jogar nos braços dele.

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