O som do soco ainda reverberava nas paredes da cozinha, como um trovão contido.
O silêncio que se seguiu era tão denso que parecia sufocar. Por um instante, ninguém respirou.
Benjamin cambaleou para trás, o corpo esbarrando contra a mesa de jantar. O copo que estava à beira da toalha tombou e se espatifou no chão, mas o som do vidro não foi nada diante do impacto de Ian.
Com o canto da boca sangrando, ele arqueou o corpo contra a mesa. O sorriso torto não desapareceu, pelo contrário, se alargou, como se a dor fosse combustível para sua provocação.
O punho de Ian ainda pairava no ar, trêmulo de raiva.
O peito arfava pesado, subindo e descendo rapidamente, como se cada inspiração fosse um estopim para conter a fúria que transbordava e vinha em ondas. Os olhos negros estavam escuros demais, duas brasas incandescentes fixas em Benjamin.
Ele permanecia firme, os ombros tensos, o punho se fechando com mais força, como se qualquer movimento em falso fosse motivo para um segundo ataque.
— Ian! — a voz de Teresa, a mãe de Olívia, rompeu o silêncio, horrorizada, as mãos nos lábios. — Meu Deus, o que você fez? Que absurdo é esse?
Mas ele não respondeu. Nem sequer desviou o olhar.
Não se virou.
Não precisava.
A única pessoa que importava naquele instante estava a dois passos dele.
Olívia.
Ela estava imóvel, como se o chão tivesse sumido sob seus pés. O coração batia tão alto que abafava todos os sons. As mãos tremiam, mas não de medo, era outra coisa. Um turbilhão de sentimentos que ela não conseguia nomear.
Ian tinha feito aquilo por ela.
Por ela.
Benjamin, com o sangue ainda escorrendo da sua boca, passou a língua devagar sobre o ferimento, quase saboreando o gosto metálico. E riu. Uma risada curta, áspera, que fez Olívia estremecer.
— Ainda é o mesmo idiota impulsivo. — murmurou, cuspindo um fio de sangue no chão. — Sempre reagindo como um cão de guarda…
Os olhos dele subiram lentamente até Olívia.
E ela sentiu a pele gelar.
— …mas quem garante que você não está guardando a pessoa errada?
Olívia travou. As pernas pareceram fraquejar.
Ela queria responder, queria se defender, mas sua garganta estava seca, apertada. O coração martelava tão alto que abafava qualquer pensamento.
Ian avançou meio passo, o corpo rígido como aço.
— Abre essa boca mais uma vez, Benjamin. Só mais uma. — A voz dele saiu baixa, carregada de veneno, quase um rosnado. — E não vai ser apenas um soco que você vai receber.
Benjamin ergueu uma sobrancelha, ainda sorrindo.
— Está com medo do que eu posso dizer? — perguntou, debochado. — Ou do que ela pode acreditar?
Olívia sentiu o ar faltar. O peito queimava com cada palavra.
Era como se Benjamin tivesse encontrado a ferida aberta e, cruel, enfiado a faca até o fundo.
— Cale a boca. — Ian falou, baixo, a voz cortante, cada palavra carregada de ameaça. — Ou eu garanto que você não vai conseguir nem mastigar a própria arrogância.
Benjamin riu, cuspindo sangue no chão.
— Sempre tão nobre… — disse, o tom encharcado de ironia. — Mas não esqueça, Ian: você não passa de uma marionete do velho. E ela… — olhou para Olívia, devagar, cruel — …não passa de um contrato.
As palavras caíram como ácido.
Olívia recuou um passo, sentindo o peito rasgar. O ar ficou pesado, sufocante.
Ela odiava Benjamin por aquilo, mas odiava ainda mais a reação do próprio corpo: uma pontada de dúvida, de medo, de fragilidade.
Ian percebeu. Ele a encarou, e naquele instante, sua frieza habitual quebrou. Os olhos dele se suavizaram, mesmo que por segundos, e havia ali algo cru, humano, inegável: dor.
Ele não suportava que ela acreditasse nas palavras de Benjamin.
— Cuidado com o que você fala, Benjamin. — Ian murmurou, mas agora a voz estava menos cortante, mais baixa, como se o recado fosse também para Olívia.
Ian se virou para ela, devagar.
E naquele olhar, havia um pedido silencioso: acredite em mim.
Mas o orgulho dela não deixou.
Ela desviou, o coração pesado, e se agarrou à primeira desculpa.
— Eu vou subir. — murmurou, e não esperou resposta.
Ela girou nos calcanhares antes que alguém pudesse responder. Subiu as escadas devagar, cada passo pesado, as mãos tremendo ao segurar o corrimão. O coração parecia se partir em cada batida.
Sentia a garganta queimar, as lágrimas ameaçando cair. Mas antes de sumir, ela olhou uma última vez para trás.
Ian ainda estava ali, parado, imóvel, como se quisesse segui-la… mas algo o prendia ao chão.
Os olhos negros fixos nela, ardendo de raiva, mas também de algo mais profundo. Algo que ele não dizia, mas que queimava no silêncio.
Benjamin percebeu e riu de novo, baixo, venenoso.
— Parece que nem precisa de mim para se destruir, tio. Ela mesma já faz isso por você.
Ian fechou os olhos por um instante. Respirou fundo.
Quando os abriu, não havia mais resquício de controle.
Ele não atacou de novo.
Mas o olhar que lançou a Benjamin foi tão cortante que parecia uma promessa.
Mas o punho dele não se ergueu dessa vez.
Não.
O que Ian faria agora seria muito mais perigoso.

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