A porta se fechou atrás de Olívia com um estrondo surdo.
O peito dela ardia, a respiração entrecortada. O sangue parecia gritar dentro das veias.
Os pais, Benjamin, Nicolau, Ian.
Cada um tinha arrancado mais um pedaço do pouco de sanidade que ainda restava nela.
Por um instante, só queria deslizar pelas paredes e se encolher no chão.
Mas, quando ergueu os olhos, encontrou dois pares de olhares sobre si.
Helena estava em pé, próxima à cama, atenta.
E Léo, sentado, com os olhos grandes, inocentes, perguntou com a simplicidade que só uma criança podia ter:
— Mamãe… você não trouxe minha comida?
A pergunta foi como uma faca girando dentro dela.
O choque e a raiva contra si mesma explodiram.
Como pôde? Estava tão mergulhada em raiva, em ressentimento, em guerras que não pedira para travar… que esqueceu o único motivo de estar ali. O único que importava.
— Eu… — a voz falhou.
Ela engoliu em seco, forçou um sorriso trêmulo.
— Eu já vou pegar, amor.
Mas antes que pudesse se mover, um som de batidas baixas à porta a fez congelar.
O corpo reagiu de imediato, alerta, esperando a próxima batalha.
Mais um confronto, mais um veneno, mais um fardo?
Com as mãos trêmulas, abriu a porta.
E o que viu quebrou os restos dos cacos do seu coração.
Era Ian.
Ele estava ali, alto, a expressão séria, mas não fria. Nos braços, uma bandeja equilibrada com cuidado. O prato específico do Léo, a dieta passada pela equipe médica, cada detalhe preparado.
Olívia arfou, a mão foi instintivamente ao peito, como se tentasse segurar o coração que disparava.
— Eu trouxe o jantar dele. — disse Ian, a voz grave, mas suave, quase contida. — Não queria que ele esperasse mais.
Por um segundo, Olívia não soube se chorava ou sorria.
Não conseguiu disfarçar. Aquilo… aquela gentileza simples, prática, mas carregada de significado… valia mais do que qualquer promessa.
Ela abriu a boca para agradecer, mas antes que conseguisse, ouviu de dentro do quarto:
— Ian! — Léo gritou, animado, o rosto iluminado.
Ian nem pensou.
Passou por ela, atravessando o quarto com passos firmes, mas não invasivos, como se já soubesse onde pertencia.
— Oi, campeão. — respondeu, agachando-se ao lado da cama.
O menino sorriu e, com a energia que ainda lhe restava, disparou a pergunta:
— Quem é melhor, o Superman ou o Batman?
Ian franziu levemente a testa, fingindo reflexão.
— O Superman é forte, pode voar… mas o Batman é inteligente e tem coragem. Eu diria que os dois empatam.
Léo riu, vibrando.
— Não! O Batman ganha. Sempre ganha!
Os dois começaram uma conversa animada, cheia de risadas, teorias, comparações.
E Olívia, parada ali, sentiu o coração prestes a explodir.
Ela pegou a bandeja, as mãos ainda trêmulas, e se aproximou devagar.
Sentou-se à beira da cama, começando a alimentar o filho com cuidado, colher por colher.
Cada palavra de Léo era como um punhal.
Ela sentiu as lágrimas queimarem, mas não podia chorar ali. Não diante do filho.
Porque a verdade era insuportável: Ian não era o pai. Ian não poderia ser o pai.
E, ainda assim, por um momento, parecia que nada no mundo faria Léo mais feliz.
Ela continuou alimentando o filho em silêncio, o peito em chamas.
E, enquanto os risos leves ecoavam no quarto, Olívia sabia que aquela cena ficaria marcada para sempre, como um milagre e como uma maldição.
Como a inocência de toda criança, logo aquele assunto foi deixado de lado, como se não fosse o responsável por arrancar tudo de Olivia. Leo continuou a conversa animado e Ian parecia tão entretido quanto.
Mas assim que terminou de se alimentar e suas pílulas noturnas foram administradas por Helena, logo o menino bocejou e o cansaço o chamava lentamente. Ian notou e se despediu do menino, indo em direção a porta.
Léo, já deitado, com os olhos pesados de sono, ainda segurava firme a mão de Olívia. A respiração dele estava calma, mas havia uma urgência na voz quando murmurou:
— Mamãe… promete que o Ian nunca vai embora?
O mundo parou.
Olívia sentiu o coração ser atravessado por aquela frase.
A garganta se fechou, as lágrimas ameaçaram vir, mas nenhuma palavra saiu.
Ela queria dizer sim, queria gravar esperança na alma do filho. Mas como prometer o que nem ela mesma acreditava?
O silêncio se arrastou, sufocante.
Foi então que Ian, que até aquele momento apenas observava à distância, prestes a ir embora, deu um passo à frente. A voz grave e rouca rompeu o ar carregado:
— Eu não vou a lugar nenhum, Léo.
Olívia fechou os olhos, o coração em ruínas.
Porque aquela promessa, dita com tanta firmeza, não tinha sido feita apenas para o menino.
Tinha sido feita para ela também.

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