O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pelo abajur no criado-mudo ao lado da cama. A luz emitia um suave dourado que acariciava o rosto de tranquilo de Léo, adormecido, e agora, entregue ao sono sua respiração calma subia e descia em ritmo constante. Finalmente uma respiração serena. Um quadro de paz absoluta. A mão pequena dele ainda repousava sobre a de Olivia, mesmo inconsciente.
O mundo lá fora parecia distante, irrelevante. Mas dentro de Olívia, não havia paz alguma, tudo era guerra.
Ela ainda sentia o eco da pergunta do filho latejando no peito:
“Mamãe… promete que o Ian nunca vai embora?”
E o silêncio dela, que nunca conseguira responder.
E a resposta dele, firme, definitiva, que atravessou a alma dela como uma adaga:
“Eu não vou a lugar nenhum, Léo.”
Agora, observando o menino dormir, ela queria chorar.
Chorar de alívio por ver Léo feliz, mas também de medo, porque sabia que toda felicidade tinha prazo de validade naquela casa.
Com cuidado, Olivia se obrigou a soltar a mão pequena que ainda segurava a sua, devagar, como quem se desprende de um juramente. Levantou-se lentamente, sentindo as pernas vacilarem, engolindo em seco, e girou para trás.
Ian estava lá.
De pé, parado no canto do quarto, como se fosse parte da sombra projetada na parede.
As mãos estavam enterradas nos bolsos da calça, mas os olhos… os olhos estavam cravados nela. Não em Léo. Nela. E mais nada além.
Por um segundo, ela quis se esconder. Quis pedir para ele parar de olhar assim, porque parecia que enxergava o que ela tentava desesperadamente esconder.
O silêncio entre os dois pesava mais do que qualquer discussão. Ela tentou sustentar o olhar, mas o peito apertava tanto que precisou quebrar a distância.
No entanto, as palavras escaparam antes que conseguisse controlar:
— Por que você disse isso?
A voz dela soou baixa, quase um sussurro, mas firme.
Um sussurro carregado de uma tempestade inteira.
Ian não respondeu de imediato. A calmaria dele era tão espessa que parecia preencher o quarto. Ele respirou fundo, como se buscasse a frieza habitual, o peito se movendo devagar, como se escolhesse cada palavra com cuidado.
Quando abriu a boca, a voz não veio como um escudo. Veio rouca, carregada:
— Porque ele precisava ouvir. — disse, por fim.
Olívia sentiu o estômago se revirar. O coração disparado. Ela franziu o cenho. A raiva se misturava ao medo, e o medo, à esperança.
— E eu? — retrucou, a voz embargada. — Você acha que eu precisava ouvir também?
Os olhos dele se estreitaram, como se tivesse levado um golpe invisível, um músculo da mandíbula saltando.
Por um instante, não havia a frieza calculada, nem a máscara do homem que sempre tinha controle.
Só havia Ian. Nu. Humano.
— Você não entende. — murmurou, a voz grave, quase falhando. — Eu não podia deixar ele dormir pensando que um dia seria abandonado.
A palavra a atingiu em cheio. Abandonado.
Ardeu dentro dela como álcool em uma ferida aberta.
— Abandonado? — repetiu, quase sem ar. — É assim que você vê as coisas? Você fala como se...
A frase morreu.
Porque ela viu.
Naquele instante, ela viu.
Ele desviou os olhos, só por um segundo. Mas foi suficiente para ela perceber.
Aquela palavra não era só sobre Léo. Era sobre ele. Sobre as perdas, as ausências, os fantasmas que o perseguiam.
Sobre o menino que perdera os pais cedo demais, sobre o jovem que viu o irmão ser arrancado dele, sobre o homem que carregava fantasmas de perda que não admitia.
Ele baixou o olhar como um segundo, como se tivesse revelado demais. Mas logo, voltou a encará-la.
Olívia engoliu em seco, o coração apertado.
— Ian… — começou, mas a voz falhou.
Ele a interrompeu, firme:
— Eu não vou virar as costas para ele. — a voz rouca, quase um voto. — Nem para você.
Olivia sentiu as pernas fraquejarem. Quis acreditar, quis se entregar aquele tom firme, quase protetor. Mas o medo girou dentro dela. As lágrimas queimaram os olhos.
Quis acreditar, quis tanto… mas não podia.
Não podia permitir que uma promessa assim a envolvesse.
Olívia respirou fundo, o coração em ruínas.
Engoliu as lágrimas, limpou o rosto às pressas e se afastou um passo.
— Pode entrar. — respondeu, forçando firmeza.
Ian fechou os olhos por um instante, como se precisasse se recompor.
Quando os abriu, recuou um passo, enfiando de novo as mãos nos bolsos.
E assim, o momento que quase os uniu se quebrou.
O momento tinha acabado.
Mas nada no mundo apagaria o que fora dito.
E ambos sabiam: a promessa que queimava não tinha sido feita apenas a Léo.
Tinha sido feita entre eles também.
Olívia respirou fundo, tentando recuperar o controle depois que Helena entrou para cuidar do medicamento de Léo.
— Irei buscar a babá eletrônica. — Olivia sussurrou para Helena, já indo em direção ao cômodo da frente.
Saiu do quarto com passos curtos, o coração ainda acelerado, o rosto ainda marcado por lágrimas que não queria que ninguém visse.
Mas assim que fechou a porta atrás de si, uma figura a esperava no corredor.
Teresa.
A mãe.
A mesma que a expulsara de casa anos atrás.
A mesma que agora, por capricho de Nicolau, voltava a circular em sua vida como se nada tivesse acontecido.
— Precisamos conversar, Olívia. — disse, a voz doce, quase calma demais, mas os olhos… os olhos tinham aquela mesma frieza calculista que Olívia conhecia desde a infância.
O coração dela se apertou, os dedos formigaram.
A última coisa que queria era abrir feridas antigas.
Mas ali estava sua mãe, bloqueando o corredor, exigindo espaço na vida dela mais uma vez.

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