O abraço de Ian não foi imediato; foi hesitante, como se ele temesse perder o controle ao tocá-la. Mas quando Olívia se jogou contra ele, o instinto venceu. Ele a segurou com força, como se cada pedaço dela pudesse escapar por entre seus dedos. Não era apenas um abraço correspondido. Foi um mergulho.
Ele a segurou como quem segura o próprio ar, os dedos entrelaçando-se aos fios soltos do cabelo dela, o rosto inclinado, aspirando o perfume leve de lavanda que sempre parecia cerca-la. A respiração dela batia quente contra seu peito, o corpo tremia como se estivesse em ruínas.
Os dedos dele deslizaram ainda até os cabelos dela, afundando suavemente, sentindo a maciez como se fosse um fio de ligação entre eles.
— O que aconteceu, Olívia? — a voz dele saiu baixa, grave, quebrada pela preocupação. Como se tivesse medo de quebrar ainda mais o que já estava frágil.
Olívia fechou os olhos com força, apertou mais o rosto contra ele, como se o mundo inteiro pudesse desaparecer dentro daquele abraço. As palavras custaram a sair, engasgadas por lágrimas que ainda queimavam.
— Eu estou… exausta, Ian. — sussurrou, a voz falhando em um sussurro. — Ver meus pais ali… foi como abrir todas as feridas que eu passei anos tentando enterrar. Eu pensei que tinha superado, mas não. Eu só escondi. Eu não estou nada curada.
Ian apertou o abraço e silêncio dele Ian pesou, ainda que fosse um peso confortável. Não havia julgamento, não havia pressa. Apenas a respiração dele contra o topo da cabeça dela. Até que, finalmente, murmurou, a voz baixa, quase uma confissão:
— Me desculpa.
Olívia se afastou um pouco, o suficiente para encarar o rosto dele, erguendo os olhos úmidos. O coração dela parecia bater contra as próprias costelas, acelerado, ferido, confuso. Viu as sobrancelhas arqueadas, a tensão na mandíbula, a sombra de algo que parecia culpa;
— Por quê? — perguntou, com um tremor nos lábios. — Por que você está pedindo desculpas?
Os olhos de Ian perderam a firmeza. Ele desviou, como se as palavras fossem pedras demais para carregar e ele não suportasse o peso do olhar dela.
— Porque tudo isso só está acontecendo por minha causa. — profere, finalmente. — Por Nicolau, por esse contrato. Se eu não tivesse aparecido na sua vida, você não estaria passando por nada disso.
A dor atravessou Olívia, mas também uma indignação. Ela respirou fundo, o peito subindo e descendo e ergueu o queixo, os olhos marejados queimando contra os dele.
— Se você não tivesse aparecido… — ela começou, hesitou, e o coração disparou. — Eu também não teria conseguido a cirurgia do Léo. Eu também não teria…
Ela parou. As palavras morreram, presas entre os lábios. Um nó se formou na garganta, sufocando o resto da frase. O que vinha depois seria uma verdade grande demais para deixar escapar. Ian a encarou, a pupila dilatada, ansioso, faminto por aquilo que ela não disse. Mas ela apenas mordeu o lábio inferior e desviou o rosto, envergonhada.
Ian inclinou o rosto, tentando decifrar, os olhos ardendo de curiosidade e… medo.
— Não teria o quê, Olívia? — perguntou, quase num sussurro, como se temesse a resposta.
Mas ela não disse. Mordeu o lábio, o olhar através dele, sufocada pela intensidade daquela proximidade.
O silêncio virou uma chama invisível entre os dois. A proximidade deles era sufocante. O coração parecia tentar escapar pelas costelas e Ian... Ian se perguntava quando, em que momento, havia perdido o controle de si.
— Vai até a varanda. — pediu, num tom baixo, quase autoritário, mas sem dureza. — Por favor.
Olívia franziu o cenho, confusa.
— O quê? Ian, eu...
Os olhos dele encontraram os dela, intensos, quentes, cheios de algo que ela não conseguiu nomear.
— Confia em mim. — ele interrompeu, o olhar preso ao dela, intenso demais para permitir recusa.
Contra todas as razões, contra todas as paredes que havia construído, ela foi. Ainda que desconfiada.
Cada passo até a varanda pareceu ecoar no coração dela, pesando toneladas. O que ele queria mostrar? O que mais ainda estava escondido naquela mansão que parecia guardar segredos em cada canto?
Quando empurrou a porta de vidro, o ar frio da noite a envolveu. Mas o que viu a fez parar no mesmo instante.
O coração dela quase saiu do peito.

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