Ela parou.
Uma mesa estava posta no centro da varanda. Velas acesas espalhavam pontos de luz suave, refletidas nas taças de vinho cuidadosamente dispostas. A toalha clara, pratos alinhados. O arome leve de flores frescas completavam a cena, espalhando um aroma suave que se misturava à noite estrelada que se abria acima deles. O céu, límpido, tão imenso, parecia se abrir só para eles, acolhendo toda a dor dela.
Por um instante, Olivia esqueceu como respirar.
As mãos foram instintivamente ao peito, tentando conter o ritmo enlouquecido do coração.
— Ian… — murmurou, quase sem voz, os olhos brilhando entre incredulidade e emoção.
E, naquele instante, sem precisar de explicações, ela soube: Ian já era mais apenas o homem frio que conhecera. Não era apenas o sócio estratégico que Nicolau moldara. Havia algo ali. Algo profundo, escondido, que ele estava deixando transbordar e que a assustava tanto quanto a atraía.
E o coração dela, traidor, bateu ainda mais forte.
De repente, Ian surgiu logo atrás dela, silencioso, mas presente. A postura rígida, mas os olhos; os olhos entregavam tudo.
— Eu não sabia como… — começou, parando no meio da frase. Passou a mão pelos cabelos, nervoso. — Você não jantou direito nos últimos dias. Léo está em recuperação. E você… você também precisa cuidar de você.
Olívia ficou imóvel, observando aquele homem que jurava não sentir nada, mas que estava ali, tentando cuidar dela de um jeito que ninguém jamais fizera.
O peito dela doía, não só pela emoção, mas pelo medo. Porque, no fundo, sabia: cada gesto desse só tornava mais impossível o que ambos tentavam negar.
Ela o encarou. O silêncio carregava perguntas demais, respostas de menos.
— Por que você faz isso? — perguntou, quase um sussurro.
Ian desviou os olhos por um instante, depois voltou a fitá-la.
— Porque você merece. — disse simplesmente.
A frase caiu como um trovão no coração de Olívia.
E, diante do céu infinito, diante da mesa iluminada, diante dele… ela percebeu que estava perdida.
O gesto foi simples, mas carregado de algo que Olívia não estava acostumada a receber: cuidado. Ian puxou a cadeira para ela, sem pressa, e esperou até que ela se sentasse. Por um instante, ela ficou paralisada, observando aquele homem que sempre se apresentava como frio, calculista, agora desempenhando um papel tão… humano.
— Você não iria jantar depois de tudo — disse ele, em voz baixa, firme, como quem não queria admitir que havia prestado atenção demais. — Então achei que… talvez isso ajudasse.
Olívia mordeu o lábio, o coração acelerado. Os olhos marejados não eram apenas de cansaço, mas de gratidão.
— Obrigada… — murmurou, sem conseguir encarar por muito tempo.
O jantar foi simples, mas cada garfada parecia devolver a Olívia um pedaço de vida. O silêncio entre eles não era pesado, mas tranquilo, quase reconfortante. Pela primeira vez em dias, o peso no peito dela diminuiu.
Quando terminaram, Ian arrastou duas espreguiçadeiras para a beira da varanda. O céu estrelado se abria acima deles, amplo, infinito. A brisa noturna balançava os cabelos de Olívia, e ela sentiu como se finalmente pudesse respirar.
Ambos seguravam taças de vinho. O silêncio era bom, mas Ian foi o primeiro a quebrá-lo.
— Está melhor?
Ela assentiu, olhando o céu.
— Sim… — a voz dela era suave. — Só… tudo isso me fez pensar.
— Pensar em quê?
Ela respirou fundo, girando a taça entre os dedos.
— Na minha relação com meus pais. — O tom saiu mais pesado do que ela esperava. — Não sei se dá pra chamar de relação. Desde que nasci… eu fui um erro para eles.
Ian se inclinou para ouvir. Olívia engoliu em seco e continuou.
Olívia o encarou, sentindo que sabia tão pouco sobre ele.
— Me fala da sua mãe. — pediu, com delicadeza.
Ian ficou rígido. A mão deslizou pela borda da taça, o olhar se perdeu no horizonte.
— Ela… era boa. Gentil. Sempre me tratou bem. Eu era pequeno, e ela… parecia ser tudo o que um filho podia querer.
Ele parou, o maxilar se fechando, a respiração ficando mais pesada.
— Mas algo aconteceu. Ela mudou. De um jeito que nunca consegui entender completamente. — Ele desviou os olhos para Olívia, e havia uma escuridão ali, algo que a fez arrepiar. — Eu aprendi a desprezar o que ela se tornou.
Olívia engoliu em seco, os olhos fixos nele.
— E como… ela morreu?
O olhar dele voltou para ela, e o que ela viu a fez estremecer. Era como se sombras antigas tivessem atravessado o peito dele.
— Se eu te contar… — a voz dele era baixa, grave, quase um sussurro. — Você vai me odiar.
Ele respirou fundo, os olhos presos nos dela.
— E eu não quero ser odiado por você, Olívia.
O coração dela disparou, a taça tremendo em sua mão. As estrelas acima pareciam girar mais rápido.
O que Ian estava escondendo?
E por que, diante de toda a dor, ele parecia mais vulnerável do que nunca?

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