Chegamos no domingo por volta das 11h. O dia passou rápido, num borrão de cores quentes e cheiro de sal. Vimos o pôr do sol abraçadas, conversando sobre tudo e sobre nada, nadamos até nossos dedos enrugarem e, à noite, comemos marshmallows assados na fogueira, acompanhados de algumas biritas que a Isa insistiu em preparar. Ela me prometeu uma semana inesquecível, e eu finalmente estava começando a acreditar que seri.
Na segunda, o primeiro dia oficial de diversão, o dia amanheceu com um céu tão azul que chegava a arder nos olhos. Isadora, com sua energia inesgotável e seu cartão de crédito sem limites, havia alugado um barco particular uma lancha branca impecável, brilhando sob o sol, comandada por um guia chamado Seu Tião, um senhor super gentil que parecia ter o mapa do oceano desenhado nas rugas do rosto.
O balanço do mar era um acalento, um movimento de vai e vem que parecia ninar a minha ansiedade crônica. Navegamos para longe da costa, onde a civilização se tornava apenas uma linha tênue e insignificante no horizonte. Vi a água mudar de um verde-esmeralda translúcido para um azul-safira tão profundo que parecia esconder todos os segredos do universo. Eu estava lá, sentada na proa, tentando fazer a linha "profunda e pensativa", olhando para o nada como se estivesse num clipe melancólico da Adele.
— Clara, para de olhar para o horizonte com essa cara de quem está compondo uma tragédia grega! — Isa gritou, segurando uma garrafa de champanhe como se fosse um troféu.
— Beba logo isso, celebra essa rabeira que o Brasil respeita e esquece que homem existe! Se algum aparecer querendo encher o saco, a gente j**a para os tubarões!
Ela tentou fazer uma abertura triunfal, mas na hora do "pouc", a rolha voou como um míssil, raspando na orelha do Seu Tião que nem piscou, já devia estar acostumado com turistas doidas e a espuma deu um banho na gente. Eu comecei a rir tanto que o champanhe saiu pelo nariz, acabando com qualquer elegância que eu pretendia ter.
— Está editorial, tá Vogue, tá rica! — ela gritava, tentando me fotografar enquanto eu lutava para tirar o cabelo da boca. Eu tentava ser uma "sereia mística", mas o vento da Bahia transformou meu cabelo num espanador vermelho gigante que chicoteava meu rosto.
De repente, o silêncio do motor em marcha lenta foi quebrado por um grito eufórico da Isa:
— Olha ali, Clara! No flanco direito! Meu Deus, olha o tamanho daquilo!
Um grupo de golfinhos, majestosos e livres, começou a acompanhar o barco. Eles saltavam em arcos perfeitos, as barrigas de prata brilhando sob o sol do meio-dia, como se estivessem dando um show particular apenas para nós. O vento batia no meu rosto, levando embora, pedaço por pedaço, o peso de todos os meus problemas.



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