POV/ CLARA
À noite, deitadas nas espreguiçadeiras, o cansaço físico era um alívio para a mente. Bebíamos caipirinha de seriguela e ouvíamos o som de um violão distante.
— Eu te amo, Isadora Ferreira.
— Eu te amo mais, Clara Menezes.
No dia três, após visitarmos museus e shoppings, a Bahia nos entregou um perfume diferente; uma mistura de maresia e jasmim. O resort ao lado montou um palco rústico na areia, com tochas de bambu cujas chamas dançavam loucamente. Quando os primeiros acordes de "Nocaute", de Jorge & Mateus, ecoaram, meu coração falhou.
— “Pois é, o pior é que eu sinto falta... De toda a confusão, de tudo que a gente faz...”
A letra era a minha biografia. Isadora posicionou a câmera perto do meu rosto, capturando o brilho nos meus olhos inundados por uma mistura perigosa de caipirinha de umbu, melancolia e uma saudade que queimava. Eu cantei. Gritei o refrão com toda a força, deixando que a música levasse meu desespero. Isadora postou o vídeo imediatamente e me marcou. Como era bom ser livre.
O quarto dia terminou com uma energia surreal. À medida que o sol se punha em tons violeta, uma fogueira gigantesca foi acesa. Era noite de Luau. Dançamos com os moradores locais ao ritmo dos tambores do Olodum. Eu sentia a percussão vibrar no meu osso esterno, batendo no meu peito em perfeita sincronia com meu coração.
Foi nesse momento que a Isa apareceu com um "cigarrinho de artista".
— Só um peguinha, Clara. Para abrir os chakras e fechar as feridas!
Eu, que nunca tinha feito nada disso, resolvi testar. Dei uma tragada e... meu Deus. Comecei uma crise de tosse que parecia que eu ia botar os pulmões para fora na areia. A Isa batia nas minhas costas e ria até chorar. Quando a tosse passou, uma lerdeza feliz me atingiu. Olhei para um caranguejo na areia e tive certeza de que ele estava tentando me dar direções para o buffet. Ri tanto, mas tanto, que minha barriga doeu de verdade.
— Chega! Nunca mais! — eu dizia entre as gargalhadas, tentando recuperar o fôlego. — Minha barriga vai explodir, Isa!
O quinto dia começou lento. Isadora me levou a uma lagoa escondida para um banho de argila medicinal. Ficamos lá, mergulhadas até o pescoço, rindo como duas adolescentes com os rostos cobertos de lama cinzenta. Parecíamos dois monstros do pântano de luxo. Foi um momento de paz genuína...
Assim que saímos da lama e peguei no telemóvel para ver as horas, o ecrã brilhou. Não era uma chamada de quem eu queria. Não era um pedido de desculpas. Era uma mensagem de texto da Adelaide.
Li as palavras uma, duas, três vezes.



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