POV/ CLARA
A transição da Bahia para Goiás foi um borrão de cores e sentimentos conflitantes. Abandonamos o azul infinito do mar para buscar o abraço térmico do interior do Brasil. Mas, por mais que o cenário mudasse, o fantasma de Adrian Cavallieri me perseguia através da tela iluminada do celular.
Durante as horas de espera no aeroporto e o voo até Goiânia, eu cometi o erro masoquista que toda mulher de coração partido comete: eu entrei nas redes sociais.
O algoritmo, sempre cruel, jogou na minha cara o que eu menos queria ver. Fotos de colunas sociais de Porto Alegre mostravam o "Imperador" em jantares de negócios, e em uma delas, Sara aparecia ao fundo, elegante. Em outra postagem, um flagra de Adrian conversando ao pé do ouvido com uma empresária influente em um evento beneficente.
— Clara, larga esse celular! — Isadora ralhou, arrancando o aparelho da minha mão enquanto esperávamos o embarque. — Você está se torturando por alguém que enviou uma mensagem de "férias forçadas" pela governanta. Olhe para mim.
Eu olhei, com os olhos vermelhos e a alma exausta.
— Você precisa se permitir viver, Clara. Você não é a viúva de um homem vivo. Você é jovem, linda e está de férias! Deixa o Adrian com o museu de sombras dele. Vamos para Goiás, e eu te proíbo de abrir o I*******m até cruzarmos a divisa do estado.
Pousamos em Goiânia e pegamos um carro em direção a Caldas Novas. A estrada, cercada pelo cerrado brasileiro, tinha uma beleza rústica que começou a me acalmar. Quando chegamos ao Lagoa Quente, o vapor que subia das piscinas naturais parecia prometer uma limpeza espiritual.
Ficamos lá uma semana inteira. Foi uma semana de "molho", literalmente. Passávamos horas mergulhadas naquelas águas que brotavam da terra a 38 graus. Eu sentia cada músculo do meu corpo, que estava tenso desde o sequestro e a festa de aniversário, relaxar. Isadora pedia coquetéis de frutas e me obrigava a rir das suas histórias de encontros desastrosos.
Fizemos massagens com pedras quentes, jantamos pamonhas autênticas e deixamos o tempo escorrer como a água das cascatas térmicas.
No fim da semana, decidimos voltar a Goiânia para um dia de "civilização" antes de planejarmos o próximo passo. Isadora queria fazer compras e eu precisava de um filme para desligar o resto do meu cérebro.
— Oi, Vitor... — eu respondi, sentindo minhas bochechas arderem. — Viagem de férias. Precisava de um pouco de água quente.
Ele se aproximou, e o cheiro dele era limpo, sem o perfume amadeirado e caro de Adrian que costumava me entorpecer. Conversamos por minutos que pareceram horas. Ele estava estranho, um pouco nervoso, talvez porque já estivéssemos no fim de junho e as férias escolares estivessem batendo à porta. Ele me contou sobre seus planos, sobre como sentia minha falta, e a falta de Porto Alegre e como as mensagens que trocamos durante a minha recuperação foram o ponto alto do dia dele.
Eu via o esforço dele para ser agradável, para me fazer sentir especial. Era um contraste absurdo com o silêncio de Adrian. Estar perto da Isadora tinha sido o meu salvamento, mas estar ali, diante do Vitor, me fazia questionar: por que eu ainda estava sofrendo e porque eu não tinha ficado com este homem real?
— Você quer tomar um sorvete? — Vitor perguntou, apontando para a sorveteria ao lado. — Quero saber tudo sobre a Bahia e como você veio parar no meu quintal.
Olhei para Isadora, que me deu um joinha discreto e se afastou para "ver uma vitrine de sapatos". Eu aceitei.

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