POV- Clara Menezes
Acordei com a luz entrando pela cortina fina do apartamento e com aquela sensação criminosa de que tinha feito algo imperdoável na noite anterior. Minha cabeça latejava. Meu orgulho também.
Depois do vexame, Adelaide me emprestou um roupão enorme e pedido para o motorista, o Victor, que era bonito demais para a minha dignidade me trazer para casa, porque eu não tinha a menor condição de voltar sozinha naquele estado e que vergonha que passei na frente dele. O pior é que ele foi um amor, super gentil, ficou conversando comigo o caminho inteiro, perguntando se eu estava bem… e quanto mais gentil ele era, mais eu queria desaparecer.
O desastre na piscina voltou inteiro quando meus olhos encontraram a garrafa vazia na escrivaninha.
Além da vergonha, a última coisa de que eu lembrava era de ter encontrado uma garrafa de vodca esquecida no armário da Isa e decidido que aquilo era uma ótima solução.
Eu era um gênio. Um gênio do fracasso.
Queria dissolver. Virar pó. Evaporar. Mas tudo o que consegui foi uma dor de cabeça tão grande que parecia que alguém tinha estacionado um caminhão na minha mente.
O cheiro de café queimado vinha da cozinha, sinal infalível de que Isadora estava acordada e pronta para destruir a minha sanidade.
Me arrastei para fora do sofá. Assim que me sentei, a memória me atingiu com a força de uma marreta:
eu, molhada, de sutiã vermelho transparente, na frente do Cavallieri.
Gemi e enterrei o rosto nas mãos. Eu merecia uma bola de demolição bem no meio da cara.
Isadora apareceu na porta usando a camisa “EU SOU A CERVEJA” e um sorriso que anunciava o apocalipse.
— Então… você realmente caiu na frente dele — ela comentou, com aquela cara de “me dá fofoca agora”. — Você estava muito bêbada. Eu não entendi nada que você falou ontem.
Ela gargalhou como se minha humilhação fosse seu esporte favorito.
Eu desabei de volta no sofá.
— Não fala assim. Foi horrível. Minha blusa abriu. O sutiã apareceu. Eu virei um farol sexual aceso no meio da piscina. E ele estava lá. Olhando. Bem na minha frente.
Isadora riu tanto que quase entornou café na própria cara.
— Clara, pelo amor de Deus, isso é destino! O homem mais lindo do estado viu teus peitos!
— NÃO é destino! É tragédia! Ele deve ter me achado ridícula. Podre. — Eu senti minha alma murchar. — Eu só queria um emprego…
Meu celular trincado vibrou na mesa. Eu congelei.
Pronto. Acabou. Vou ser processada por exposição involuntária de lingerie de pobre.
— Atende! — Isadora sussurrou como se estivéssemos numa cena de suspense.
Atendi tremendo.
— Alô?
A voz impecável da Adelaide cortou o ar como uma lâmina de aço.
— Senhorita Menezes, preciso confirmar algumas informações para o contrato. O que faz da vida atualmente além de estar desempregada?
Eu pisquei e cerrei os dentes. Quanta audácia.
— Eu… faço faculdade. Indo para o terceiro semestre.
— Curso?
— Psicologia na PUC..
— Numeração de roupas?
Eu me engasguei com a própria saliva.
— Quarenta e quatro.
— Algum vício? Namorado? Algo que precisamos saber?
— Não. Nada. Só… não. — Eu já estava suando.
— Você é de onde mesmo? Seus pais?
— Sou de Parauapebas, no Pará. Meus pais… já morreram.
Isadora, na minha frente, fez um protesto silencioso.
Mas não era mentira.
Era só… a versão suportável da verdade.
— Certo. Traga seus documentos hoje, pode vir as 14h vai ter que ficar até mais tarde um pouco. O senhor Cavallieri aprovou sua permanência no teste de dois meses.
Eu fiquei muda por três segundos inteiros.
— Eu… consegui? — perguntei, soando burra e chocada ao mesmo tempo.
— Sim. Não se atrase.
Ela desligou.
Fiquei segurando o celular como se fosse uma bomba prestes a explodir.
— MEU DEUS, CLARAAAA! VOCÊ CONSEGUIU! — Isadora deu um grito que fez o vizinho de cima chutar o chão.
— Isa… — Eu olhei para o teto como se buscasse ajuda divina. — Adelaide perguntou a numeração das minhas roupas. Isso é normal?
— Normal para gente rica — ela respondeu, sentando-se ao meu lado e colocando a mão no meu ombro. — Eles medem até tua alma.
Suspirei fundo.
— Não devia ter mentido sobre meu pai…

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