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O Bilionário Obcecado e a Babá Virgem do Clube Proibido romance Capítulo 11

POV- Clara Menezes

Acordei com a luz entrando pela cortina fina do apartamento e com aquela sensação criminosa de que tinha feito algo imperdoável na noite anterior. Minha cabeça latejava. Meu orgulho também.

Depois do vexame, Adelaide me emprestou um roupão enorme e pedido para o motorista, o Victor, que era bonito demais para a minha dignidade me trazer para casa, porque eu não tinha a menor condição de voltar sozinha naquele estado e que vergonha que passei na frente dele. O pior é que ele foi um amor, super gentil, ficou conversando comigo o caminho inteiro, perguntando se eu estava bem… e quanto mais gentil ele era, mais eu queria desaparecer.

O desastre na piscina voltou inteiro quando meus olhos encontraram a garrafa vazia na escrivaninha.

Além da vergonha, a última coisa de que eu lembrava era de ter encontrado uma garrafa de vodca esquecida no armário da Isa e decidido que aquilo era uma ótima solução.

Eu era um gênio. Um gênio do fracasso.

Queria dissolver. Virar pó. Evaporar. Mas tudo o que consegui foi uma dor de cabeça tão grande que parecia que alguém tinha estacionado um caminhão na minha mente.

O cheiro de café queimado vinha da cozinha, sinal infalível de que Isadora estava acordada e pronta para destruir a minha sanidade.

Me arrastei para fora do sofá. Assim que me sentei, a memória me atingiu com a força de uma marreta:

eu, molhada, de sutiã vermelho transparente, na frente do Cavallieri.

Gemi e enterrei o rosto nas mãos. Eu merecia uma bola de demolição bem no meio da cara.

Isadora apareceu na porta usando a camisa “EU SOU A CERVEJA” e um sorriso que anunciava o apocalipse.

— Então… você realmente caiu na frente dele — ela comentou, com aquela cara de “me dá fofoca agora”. — Você estava muito bêbada. Eu não entendi nada que você falou ontem.

Ela gargalhou como se minha humilhação fosse seu esporte favorito.

Eu desabei de volta no sofá.

— Não fala assim. Foi horrível. Minha blusa abriu. O sutiã apareceu. Eu virei um farol sexual aceso no meio da piscina. E ele estava lá. Olhando. Bem na minha frente.

Isadora riu tanto que quase entornou café na própria cara.

— Clara, pelo amor de Deus, isso é destino! O homem mais lindo do estado viu teus peitos!

— NÃO é destino! É tragédia! Ele deve ter me achado ridícula. Podre. — Eu senti minha alma murchar. — Eu só queria um emprego…

Meu celular trincado vibrou na mesa. Eu congelei.

Pronto. Acabou. Vou ser processada por exposição involuntária de lingerie de pobre.

— Atende! — Isadora sussurrou como se estivéssemos numa cena de suspense.

Atendi tremendo.

— Alô?

A voz impecável da Adelaide cortou o ar como uma lâmina de aço.

— Senhorita Menezes, preciso confirmar algumas informações para o contrato. O que faz da vida atualmente além de estar desempregada?

Eu pisquei e cerrei os dentes. Quanta audácia.

— Eu… faço faculdade. Indo para o terceiro semestre.

— Curso?

— Psicologia na PUC..

— Numeração de roupas?

Eu me engasguei com a própria saliva.

— Quarenta e quatro.

— Algum vício? Namorado? Algo que precisamos saber?

— Não. Nada. Só… não. — Eu já estava suando.

— Você é de onde mesmo? Seus pais?

— Sou de Parauapebas, no Pará. Meus pais… já morreram.

Isadora, na minha frente, fez um protesto silencioso.

Mas não era mentira.

Era só… a versão suportável da verdade.

— Certo. Traga seus documentos hoje, pode vir as 14h vai ter que ficar até mais tarde um pouco. O senhor Cavallieri aprovou sua permanência no teste de dois meses.

Eu fiquei muda por três segundos inteiros.

— Eu… consegui? — perguntei, soando burra e chocada ao mesmo tempo.

— Sim. Não se atrase.

Ela desligou.

Fiquei segurando o celular como se fosse uma bomba prestes a explodir.

— MEU DEUS, CLARAAAA! VOCÊ CONSEGUIU! — Isadora deu um grito que fez o vizinho de cima chutar o chão.

— Isa… — Eu olhei para o teto como se buscasse ajuda divina. — Adelaide perguntou a numeração das minhas roupas. Isso é normal?

— Normal para gente rica — ela respondeu, sentando-se ao meu lado e colocando a mão no meu ombro. — Eles medem até tua alma.

Suspirei fundo.

— Não devia ter mentido sobre meu pai…

— Antes você não trabalhava. Agora tem um emprego e uma amiga genial como eu. Vamos fazer dar certo.

Suspirei, sentindo a existência me esmurrar com carinho e ódio ao mesmo tempo.

— Vou… vou precisar desse emprego de babá — engoli seco, sentindo a bile subir — e acho que vou precisar do emprego no clube também.

A frase saiu e eu senti o vômito bater na garganta.

Pior do que ter ficado de sutiã na frente do meu chefe era imaginar ficar sem sutiã e sem qualquer outra coisa na frente de um desconhecido.

Meu corpo sempre pareceu um lugar interditado. Um espaço onde ninguém deveria entrar. Onde ninguém nunca entrou.

Eu era virgem por escolha e por trauma, e, principalmente, porque eu nunca tinha conseguido imaginar alguém chegando perto de mim sem que minha pele arrepiada gritasse não.

E agora lá estava eu… pensando em vender “algo” não meu corpo exatamente, mas na verdade além da minha presença, minha coragem, minha dignidade para juntar dinheiro para um futuro que parecia sempre distante.

O intercâmbio era o tipo de chance que mudava vidas, que mudava currículos, que abria portas.

E eu sabia disso. Deus, como eu sabia.

Mas a pergunta batia, insistente, martelando por dentro:

O que eu estava disposta a fazer pelo meu futuro?

Até onde eu iria?

Meu estômago embrulhou.

— Tem certeza? — Isa perguntou, e a voz dela não tinha julgamento, só carinho. Aquele tipo de carinho que deixava um nó quente na garganta. — Se você não quiser, não tem problema. Eu faço mais sessões lá, eu te empresto o dinheiro, a gente dá um jeito. Você não precisa se machucar.

Aquilo me desmontou um pouco. De um jeito bom.

Apenas assenti, derrotada e enjoada, mas também confortada. Isa era uma das poucas coisas no mundo que não fazia doer.

Ela alisou meu braço com calma.

— Eu só quero que você saiba que você tem escolha. E eu tô aqui em qualquer uma delas... Agora vai trabalhar para os teus dólares. Vamos dar um jeito nisso juntas.

Eu gemi alto e joguei a cabeça para trás no sofá, dramaticamente.

O teto me encarou de volta com a mesma ironia do universo.

De todos os caminhos possíveis, o universo escolheu justamente aquele que envolvia o homem que viu meu sutiã vermelho… e, como segunda opção, talvez um desconhecido que veria mais do que meus sutiãs, caso eu realmente entrasse naquele mundo.

Mas, no meio do enjoo e do medo, tinha uma coisa pequena, incômoda e brilhante no fundo do peito:

Eu queria mudar de vida.

E talvez essa fosse minha única chance

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