Pov Clara
Quando o motorista do Uber me deixou no portão preto, minhas pernas fraquejaram.
Eu estava usando a roupa mais “decente” que eu tinha: uma blusa de oncinha com alcinhas fininhas, uma jaqueta jeans, calça legging preta e um par de All Stars velhos. Um look que gritava que eu estava indo trabalhar em uma lan house dos anos 2000.
Adelaide me recebeu no hall com o mesmo ar de diretora de escola particular que inspirava respeito e vontade de correr para os fundos do terreno.
— Vejo que não está atrasada hoje. Venha comigo, vamos resolver primeiro o uniforme.
Ela caminhou até uma sala enorme, com poltronas gigantes e uma televisão que provavelmente tinha o tamanho de um telão de estádio. Ao lado, várias sacolas alinhadas como se esperassem por mim.
Ela me entregou cinco delas.
Dentro havia calças pretas sociais, uma saia lápis elegante demais para mim, e seis camisas azul claro, com detalhes escuros que deixavam tudo mais sofisticado. Havia também sapatos pretos confortáveis e provavelmente mais caros que aluguel da casa onde moraria com a Isa.
— Eu… não tenho como pagar por isso — murmurei, afagando o tecido como quem segura ouro.
— É padrão da casa. Não se preocupe.
Ela pegou outra caixa e me entregou. Eu senti meu coração acelerar.
Quando abri, precisei me sentar.
Um iPhone 17 Pro Max, novinho, brilhando, como se fosse um objeto sagrado.
— Eu não posso aceitar isso…— estendi as mãos devolvendo.
— Pode. É ferramenta de trabalho. Tem rastreamento por segurança, e todos os contatos essenciais já estão salvos. Emergência é o número 21.
Coloquei o celular na sacola enquanto tentava esconder meu Samsung quebrado que apagava sozinho e tinha o charme de um tijolo encontrado no lixão.
Adelaide continuou:
— Sua jornada será das onze às dezenove. Um final de semana sim e outro não você dormirá aqui. Receberá um extra por isso. Seu quarto fica no andar superior.
Assenti, mesmo que minha alma estivesse gritando.
— Como você faz faculdade às sextas, no turno da noite, nós já organizamos isso. Uma substituta virá das dezoito horas às vinte e duas e meia, para assumir as meninas. Você deve estar pronta para sair quando ela chegar. — Ela me olhou de cima a baixo. — E não se atrase.
Aquilo me atravessou como uma facada educada.
— Não vou me atrasar — prometi.
— As meninas estudam pela manhã. À tarde, Geovana tem música às terças e quintas; Ângela faz jiu-jitsu e balé segunda e quarta. E às sextas elas têm inglês. O motorista levará vocês para cada atividade — Adelaide explicou no mesmo tom impecável de quem está lendo um manual. — E levará você embora todos os dias. Se em algum momento precisar, basta avisar. Ele poderá buscá-la em casa também.
— Mas… todos os dias? — perguntei, tentando não parecer totalmente perdida.
— Sim — ela respondeu, sem rodeios. — o senhor Cavallieri ordenou que fosse assim. Ele acredita que facilita o trabalho e evita atrasos. A casa teve seis babás em dois meses. Não podemos repetir esse cenário.
Adelaide continuou, prática como sempre:
— O salário é de três mil reais, pagos todo dia 1°. Nos finais de semana em que dormir aqui, recebe o extra. Por exemplo, hoje preciso sair volto amanhã cedo. Tudo bem, para você?
— Sim.
— Quando senhor Cavallieri chegar pode ir para casa e nos vemos na segunda as onze.
— Ok, ode contar comigo — eu disse, de forma surpreendentemente suave.
Aquilo quase me desmontou.
— Precisamos de alguém responsável. Pontual. Discreta. Espero que seja você.
Respirei fundo, tentando embalar meus medos dentro dessa palavra.
— Estou.
Ou pelo menos… precisava estar.
Porque naquela casa enorme e fria, entre roupas novas, regras rígidas e relógios invisíveis que marcavam minha nova rotina, eu já sentia que minha vida estava prestes a mudar completamente.
Um terremoto vindo de cima. Passos. Risadinhas. E então sugiram descendo pela escada, antes que eu processasse qualquer coisa, duas criaturas pequenas, rápidas e barulhentas vieram na minha direção como foguetes humanizados.
— Peixinhooooo! — a da esquerda gritou.
— Oi, Peixinho! — a da direita também.
Peixinho?
Ok. Pelo menos não era “farol vermelho”.
Elas se jogaram nas minhas pernas como se já fôssemos amigas de infância. Eu quase perdi o equilíbrio. Mais um vexame na mansão e eu mesma me demitia.
Adelaide pigarreou atrás delas, daquele jeito que fazia até planta obedecer.
— Meninas — ela disse, com voz de ordem militar escondida atrás de um sorriso — a senhorita Clara está no período de teste de dois meses. Espero que vocês não arranquem o cabelo dela, não rasguem o uniforme, não escondam os sapatos, não façam experimentos perigosos e, principalmente, não a façam pedir demissão.
Ângela abriu um sorriso culpado.
Geovana abriu um sorriso animado.
Eu engoli seco.
— Você vai ficar com a gente hoje? — Geovana apontou pra mim.
— Vou — respondi, tentando soar confiante enquanto me sentia um coelho jogado na frente de um leão.
— Obaaaa! — elas pularam juntas.
Era sábado, então as duas estavam com energia suficiente para iluminar Porto Alegre inteira.
Ângela ergueu o dedo:
— Podemos assistir filme?
— Podemos. Qual?
As duas se olharam como se combinassem telepaticamente.
— Moana!
— O dois! — Geovana sugeriu.
— E o um também! — Ângela completou.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O Bilionário Obcecado e a Babá Virgem do Clube Proibido