POV/ CLARA
Uma semana e alguns dias haviam se passado. Mais de semana de paredes brancas, cheiro de éter e remédios que me deixavam flutuando. A dor nas minhas costelas já não era um incêndio, apenas uma brasa persistente que latejava quando eu respirava mais fundo. Adrian queria que eu ficasse mais, queria me cercar de médicos por mais um mês se pudesse, mas eu bati o pé. Eu não aguentava mais ficar deitada. Eu precisava de ar que não fosse filtrado por máquinas.
Naquela manhã, a primeira coisa que senti não foi dor; foi o peso de algo quente sobre a minha mão. Abri os olhos devagar. A luz do sol que entrava pela janela do hospital não parecia mais me agredir; ela parecia me dar as boas-vindas de volta.
Virei a cabeça milímetro por milímetro. Geovana estava com a bochecha encostada no meu braço, dormindo sentada na poltrona, enquanto Ângela segurava meus dedos com tanta força, como se eu fosse evaporar se ela soltasse.
— Clara? — A voz dele veio do outro lado, rouca e carregada de uma exaustão que eu nunca tinha visto.
Adrian estava péssimo. A barba estava por fazer, o olhar sombrio e havia uma mancha de sangue seco no ombro da camisa um ferimento que ele parecia ignorar completamente e por isso não se curava, como se o próprio corpo não importasse mais. Antes que eu pudesse processar qualquer coisa, ele se levantou veio até mim e me envolveu em um abraço.
— Adrian... devagar... — a enfermeira protestou, entrando no quarto. — O senhor vai forçar as costelas dela, as fraturas ainda estão sensíveis!
Mas ele não ouviu. Ele me apertou com uma urgência desesperada, o rosto escondido no meu pescoço. Senti o calor da pele dele e o tremor constante nas suas mãos.
As meninas acordaram com o barulho.
— Clara! Você vai para casa hoje! — Geovana exclamou, os olhos brilhando.
Passamos o resto da manhã assim. Elas falavam sobre a escola, sobre como a casa estava silenciosa, e eu apenas ouvia, sentindo as lágrimas escorrerem silenciosas. Adrian não saiu do pé da cama. Ele observava cada movimento meu, contando as minhas respirações como se eu fosse parar a qualquer segundo.
Depois que ele foi convencido pela Adelaide a ir trocar o próprio curativo com muita resistência e uma cara de poucos amigos, a Isadora se aproximou. A enfermeira trouxe uma sopa de hospital, morna e sem gosto, mas para mim, parecia o melhor banquete do mundo. Eu conseguia engolir sem sentir que estava me afogando.
— Você me deu o maior susto da vida, sua doida — Isadora disse, sentando-se na beira da cama e pegando a colher para me ajudar. — Eu achei que... que ia perder minha melhor amiga.
— Me desculpa, Isa... — minha voz saiu falha, áspera. — Eu não queria que você passasse por isso.
— Shhh. Não pede desculpa. Você salvou aquelas meninas, Clara. Você foi uma heroína — ela me deu um sorriso triste e me abraçou com todo o cuidado do mundo. — Quando você sair daqui, as coisas vão mudar. O Adrian está obcecado em te proteger agora. Ele disse que vamos nos mudar e que ele vai te levar para um lugar onde ninguém possa te tocar.
— Eu não quero Isa. Eu não estou pronta para conversar ainda sobre isso.
— Está bem vamos arrumar um outro lugar, está bem.
Assistimos a um filme qualquer na TV pequena do quarto enquanto esperávamos a papelada da alta para manhã seguinte. Isadora comentava as cenas para me fazer rir, embora doesse as costelas toda vez que eu soltava uma gargalhada. Por um momento, ali entre as meninas e a minha melhor amiga, o galpão do Azazel parecia um pesadelo que estava ficando para trás.
POV/ CLARA
Havia postado capítulo errado! então juntei o capítulo 151/ 152 em um só ok.
POV/ ADRIAN
O cheiro não era apenas ferro.
Era ferro velho, sangue oxidado, antisséptico barato e concreto úmido. Um perfume doentio que grudava no fundo da garganta e fazia o estômago revirar, como se o próprio ar estivesse contaminado.
Aquele era o meu templo.
Mathew falava alguma coisa ao meu lado. Eu não ouvi direito. Estava sentado na maca improvisada, com o ombro aberto, sentindo o líquido morno escorrer lentamente pela lateral do braço.
O médico tremia.
Dava para ver no pulso dele. Pequenos espasmos involuntários, como se o corpo quisesse fugir antes da mente permitir.
— Adrian… pelo menos um sedativo local — Mathew insistiu, a voz controlada demais para alguém que estava à beira de entrar em colapso. — Você já perdeu sangue demais.
Levantei os olhos para ele.
Devagar.
— Não — falei. Minha voz saiu baixa, áspera, sem emoção. — Costura logo essa merda.
Eu queria sentir.
Precisava.
Cada vez que a agulha atravessava minha carne, era como se eu estivesse devolvendo ao mundo uma fração da dor que Clara sentiu sozinha naquele tanque. O fio raspava por dentro da pele. O corpo reagia, tentando se contrair, mas eu não me mexia.
Não pisquei.
Não gemi.
O médico engoliu em seco quando terminou.
— P-pronto…
Levantei-me antes mesmo de ele terminar a frase. Vesti a camisa preta por cima do curativo ainda quente, sentindo o tecido grudar levemente no sangue fresco. Aquela mancha não me incomodava. Ela combinava comigo agora.
Caminhei até o centro da sala.
O homem estava amarrado à cadeira. Capuz preto cobrindo o rosto. Corpo arqueado numa postura que misturava arrogância e medo contido.
Fiz um gesto curto com a mão.
Mathew arrancou o capuz.
Azazel piscou, desorientado pela luz branca e cruel do galpão. O rosto estava inchado, sujo, marcado. Mesmo assim, aquele sorriso torto ainda tentou existir.
— Você não pode me matar — ele disse, cuspindo sangue seco no canto da boca. — Você sabe o que acontece se eu cair. Porto Alegre vira um cemitério.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: O Bilionário Obcecado e a Babá Virgem do Clube Proibido