A segunda-feira começou bem demais. Por um momento, achei que tinha sonhado a noite anterior.
Acordei com a luz filtrando pelas cortinas do quarto do clube, o ar ainda pesado de madrugada… e com uma ausência tão gritante que me fez abrir os olhos de uma vez.
Droga. Ela fugiu de novo. E levou o meu controle junto.
A cama estava fria do lado dela, mas o travesseiro ainda guardava o cheiro leve, doce, irritante e confirmava que não tinha sido um sonho. Levantei, tomei um banho rápido, água gelada direto na pele, tentando expulsar aquela sensação estranha no peito. Uma mistura de vontade demais e controle de menos escorregando pelos meus dedos.
Vesti-me no automático, peguei as chaves e fui embora. Eu precisava ver minhas filhas. Quando cheguei em casa, era quase onze da manhã. E a casa estava silenciosa… silenciosa demais para a normalidade.
Adelaide apareceu no corredor com a expressão carregada.
— Elas não se levantaram — avisou, me entregando uma caneca de café. — Desde cedo trancadas. Não quiseram nem comer. Estão emburradas com você.
Passei a mão pelo rosto, frustrado. — Emburradas comigo? Por quê?
— Porque a viagem foi cancelada.
Ótimo. Mais uma coisa fora do meu controle.
Subi até o quarto delas e bati duas vezes.
— Ângela. Geovana. Abram a porta.
Silêncio.
— Você mentiu! — Geovana chorou do outro lado.
Fechei os olhos por um segundo. O Imperador sendo chamado de mentiroso por crianças de nove anos.
Girei a maçaneta, mas não forcei. Eu poderia, mas com as minhas filhas eu não seria esse homem.
Dei meia-volta e comecei a descer as escadas.
No segundo degrau… parei.
Ela estava subindo.
Clara.
Vestido florido. Cabelo preso num coque improvisado, deixando o pescoço exposto. Pele ainda úmida de banho. E aquele cheiro… o mesmo do travesseiro horas antes.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Foda-se a birra das meninas. Que bom que a viagem foi cancelada. Ficarei com ela.
— Bom dia — falei, tentando soar neutro.
— Bom dia — ela respondeu, tímida, confusa… e linda demais.
— Dormiu bem? — perguntei, torcendo para que sim, porque a minha noite tinha sido estranhamente tranquila. — As meninas não querem conversar comigo. Talvez com você elas se abram.
Ela assentiu e me acompanhou até o quarto das meninas.
E eu cometi o erro fatal de observá-la passar. O vestido leve roçando na coxa, o coque frouxo, a pele quente. Aquela mulher ia destruir minha sanidade.
De longe, ouvi as meninas chorando, reclamando… mas foi outra coisa que me congelou.
A frase dela.
— Eu tenho viagem marcada com o Victor. Pra Goiânia…


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