Alerta de Gatilho- temas sensíveis como pornografia infantil e tortura
POV/ ADRIAN
Abri o arquivo ainda de pé, no meio do escritório mergulhado na penumbra, sentindo o celular vibrar na palma da minha mão como se o aparelho soubesse que o que estava lá dentro ia doer, mandei o arquivo para o notebook e abri. As primeiras páginas eram frias, burocráticas: datas, nomes, endereços antigos que não diziam nada. Era o tipo de informação que não carrega emoção até o momento em que cada letra começa a queimar os seus olhos.
Nome: Clara Menezes Ferreira Marx. Pai: Wagner Marx. Mãe: Helena Menezes Ferreira Marx (falecida 33 anos).
Desci a página devagar, a respiração ficando pesada, curta. A causa da morte da mãe apareceu na tela como quem não pede licença, sem eufemismos, sem piedade.
Feminicídio. Violência doméstica. Espancamento.
Meu maxilar travou com tanta força que senti um estalo na base do crânio. Continuei lendo, porque parar agora não era uma opção; nunca foi para um homem como eu.
O processo judicial era uma colcha de retalhos cheia de lacunas convenientes. Testemunhas que simplesmente não existiam. Provas rotuladas como "insuficientes". Um arquivamento limpo demais para um crime sujo e sangrento demais.
Então o sobrenome do pai apareceu ligado a outro nome: um delegado de polícia. Irmão de Wagner. Tio de Clara.
As peças começaram a se encaixar de um jeito doentio, fazendo o gosto de bile subir novamente. Fotos de depoimentos colhidos de forma irregular. Fóruns onde a justiça foi comprada com apertos de mão e notas de cem. Uma mãe assassinada dentro de casa, e um pai condenado que, na prática, nunca passou uma única noite atrás das grades.
O sistema não tinha só falhado com a Clara. O sistema tinha sido projetado para devorá-la.
Fiquei encarando o nome de Wagner Marx, sentindo o ódio se transformar em algo sólido dentro do meu peito, uma pedra de gelo que me impedia de respirar.
Havia uma foto dela ainda criança. Estava deitada de lado, imersa em um sono profundo, apenas de calcinha de bolinhas e os seios que mal haviam começado a brotar expostos para a lente de um monstro.
— Desgraçado... — o rosnado escapou da minha garganta, carregado de um ódio que eu nunca senti em toda a minha vida, e olha que sou um homem que vive entre lobos.
Eram mais de duzentos arquivos. A náusea veio forte, ácida, me obrigando a engolir o vômito que subia. Levantei-me, tonto, e virei um copo de whisky. O líquido desceu rasgando minha garganta, mas não foi capaz de anestesiar a queimação que vinha de dentro.
Voltei aos arquivos, e foi ali, olhando para aquela tela, que eu entendi que o que eu sentia não era apenas raiva dele. Não era só o desejo de matar Wagner Marx. O ódio maior, o mais corrosivo, era da minha própria ignorância.
Eu me achei o mestre do controle, o Imperador que sabia tudo sobre desejos e limites, mas eu não sabia nada sobre a mulher que dormiu e trabalhava sob o meu teto. Ela me deu todos os sinais. Ela disse que tinha nojo de toques. Disse que o toque do pai era "diferente". Disse que tinha fugido de um inferno. E o que eu fiz?

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