GATILHOS- temas sensíveis como pornografia infantil e tortura
POV/ ADRIAN
Cliquei no próximo anexo. Lista de compradores.
A página demorou meio segundo para carregar. Meio segundo demais para a minha sanidade. Não eram dois nomes. Não eram cinco. Eram colunas intermináveis. IPs de estados diferentes, perfis descartáveis, homens com nomes e sobrenomes que você cruzaria na padaria.
Gente de verdade. Consumindo o horror.
Os pagamentos eram a parte que mais me causava náusea. Cinquenta, sessenta reais. Trocados. Valores calculados para passarem despercebidos como uma recarga de celular ou um lanche rápido. Ela valia o preço de um sanduíche para eles.
Encontrei as tags de descrição usadas pelos compradores: “Exclusivo.” “Doméstico.” “Não profissional.”
Doméstico.
A palavra me atingiu como um soco no estômago. Doméstico significa lar. Cozinha, quarto, banheiro. O lugar onde ela deveria ter sido protegida, foi onde ela foi caçada. Homens pagaram cinquenta reais para ver o que nunca deveria ter sido visto.
Eu paguei três milhões de reais para afastar de um predador. Três milhões para comprar o silêncio e a distância de uma pessoa gentil qualquer. E ele... ele a vendia por moedas.
Senti algo se romper dentro de mim. Não foi uma explosão; foi uma fissura lenta, profunda e irreversível.
Meu corpo reagiu antes da minha mente; uma lágrima caiu, pesada, sobre a mesa. Depois outra. E mais outra
O ar não vinha. Simplesmente não vinha. Servi outra dose de uísque e bebi de uma vez só. Não senti o gosto do álcool, senti apenas a queimação descendo como uma punição necessária.
A última vez que eu tinha chorado, eu tinha dezessete anos. Agora, eu chorava sem saber exatamente por quê. Se era por raiva, por culpa, ou por um pavor tão profundo que meu corpo não conseguia nomear.
Ali, eu só consegui xingar. Baixo, entre os dentes, como se as palavras pudessem impedir o que já tinha sido consumado anos atrás. Fechei o notebook com uma força que quase partiu a carcaça. Os outros vídeos permaneceram ali, intocado. Eu não o abri. Porque eu sabia que, se abrisse, eu não saberia quem eu seria depois que a tela ficasse preta.
Ela ria na minha casa. Ela dançava com as minhas filhas. Ela dormia sob o meu teto achando que o monstro estava longe, sem saber que o rastro dele ainda era vendido e replicado por centenas de depravados.
— Wagner... — o nome dele saiu com gosto de bile.
Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia fechá-las. Quebrei tudo o que pude naquele escritório. Esmurrei a parede várias vezes em seguida. Eu não sentia nada e ao mesmo tempo sentia muita dor, dor demais para fingir que eu ainda era o homem civilizado.
Limpei o rosto com brutalidade, cortando a bochecha em um caco de vidro que estava grudado na minha mão. Não senti nada.
A pergunta me golpeou: Ela sabe?
Será que ela sabia que aquele material circulava por ai? ... se aquele silêncio dela sobre o passado dela, não fosse paz? Mas o peso de uma sobrevivência solitária....
— Porra! eu to no inferno! — sussurei enquanto me sentia consumido por um sentimento que nem ao certo qual o nome dele.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: O Bilionário Obcecado e a Babá Virgem do Clube Proibido