Assim que Alexander disse aquela palavra “família” eu quase engasguei. Ele, falando de família? Era como ver um lobo pregando o veganismo. Alexander jamais ligou para os próprios parentes. Nem para a mãe, nem para o pai, e menos ainda para a irmã. Era impossível não lembrar do jeito dele nas reuniões de Natal, sempre com aquela expressão entediada, como se estivesse cumprindo uma pena e esperando o momento de sair em liberdade.
Mas, de tempos em tempos, havia exceções… e quase todas as brigas envolviam uma peça constante: eu. A mãe e a irmã de Alexander tinham uma lista infinita de reclamações sobre mim. Às vezes, eu era “fria demais”, outras, “desrespeitosa” por não saber sorrir feito Miss Simpatia para elas. Ah, e o meu favorito: “ingrata”, porque, aparentemente, ao casar com Alexander, eu deveria ter ganhado um passe vitalício para bajular toda a família.
Quando ambas começavam a se lamentar — gemendo como gatos feridos, para ser honesta —, Alexander, num rompante heroico que eu só entendia em retrospecto, quase sempre deixava a frieza de lado para me defender. Certa vez, lembro bem, ele olhou para a mãe com aquela paciência que ele reservava para os contratos mais insuportáveis e, soltando cada palavra como se fosse uma pedra, disse:
— Ela é minha esposa, e legalmente isso não te dá nenhum direito sobre ela. Não vejo por que ela deveria tratá-la como filha, sendo que você não é a mãe dela.
Confesso que fiquei surpresa. Esse tipo de lealdade era raro. Só que Alexander, ao contrário do que as novelas nos ensinaram, não era de me dar flores ou fazer declarações. Para ele, me proteger das reclamações da mãe era a mais uma forma de controle — e, no caso, o máximo de vulnerabilidade que ele estava disposto a demonstrar.
Teve outras situações onde ele dizia coisas a ela como: “Se você quer ver um rosto sorridente então pode sorrir para si mesma no espelho. Ela não tem obrigação de sorrir para você, ela é minha esposa e não sua palhaça.” Ou então “Não sou seu psicólogo, então não comece com suas ladainhas sempre que minha esposa tem um confronto com você.”
Em outra briga, quando a mãe foi mais abrupta e ameaçou cortar qualquer laço que ela “tivesse” com ele caso Alexander não me fizesse pedir desculpas de joelhos, ele apenas deu de ombros e disse, sem sequer pestanejar:
— Nossa única conexão é que você me deu à luz. E por isso usufrui de todo o conforto que lhe ofereço. Se você quiser cortar esse laço imaginário, fique à vontade. Mas eu não vou forçar a Charlotte a se ajoelhar para ninguém.
Eu quase gargalhei. Ele parecia um cavaleiro medieval sem a armadura, sem o cavalo, mas com um sarcasmo tão afiado que era capaz de assustar qualquer dragão familiar. E depois daquela cena dramática, enquanto a mãe dele fazia um show de agonia e a irmã suspirava como se fosse desmaiar, Alexander subiu as escadas, passou por mim sem um olhar, como se tivesse acabado de resolver uma questão trivial. Naquela noite, senti uma vontade imensa de esclarecer algumas coisas, só para garantir que ele soubesse no que estava se metendo.
“Alexander, você sabe que desobedecer à mãe é um atalho direto para o inferno, certo?” pensei em dizer. Mas eu sabia que ele acharia minha sugestão absurda e que não veria graça alguma. Então, mantive o pensamento para mim. Mulheres com ressentimentos são difíceis; mães com ressentimentos, ainda piores. E não que eu fosse a defensora das causas familiares ou alguém com o coração grande. Era só que, com Alexander, cada ato de rebeldia dele me intrigava, além de me atrair ainda mais problemas.
Eu o segui até o quarto, onde ele já começava a se despir, trocando a camisa por um pijama. Encostei no armário com os braços cruzados, mantendo o tom frio e firme que tentava esconder minha curiosidade.
— Não acha que exagerou? — soltei, mantendo um olhar fixo. — Afinal, aquela senhora ainda é sua mãe.
Ele ergueu uma sobrancelha, pausando apenas para puxar o pijama pela cabeça. Seu sorriso sarcástico apareceu sob o tecido do suéter, e por um segundo, vislumbrei o cabelo despenteado, como se ele tivesse acabado de sair de uma batalha.
— E você teria preferido que eu te obrigasse a se ajoelhar e pedir desculpas? — retrucou, ajustando a manga com casualidade.
— Claro que não. Nem se quisesse, conseguiria me fazer ajoelhar. — Eu sorri de lado. — Só queria entender essa sua… indiferença com eles.

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