O tempo piorava a cada minuto. Em uma hora chovia torrencialmente, e na outra, caía um chuvisco que só servia para me encharcar ainda mais. Dezembro é implacável na Cidade D, mas o frio daqui nem se compara ao da minha cidade natal, onde o vento gélido parece afiado o suficiente para arrancar a pele. Pelo menos aqui posso deixar os casacos felpudos guardados e me arriscar com algo mais leve — ou era o que eu pensava, até hoje.
Ao sair do ônibus, envolta na minha própria arrogância meteorológica, percebi que o meu guarda-chuva era tão útil quanto um pente em uma tempestade. A chuva me pegou de jeito. Quando finalmente cheguei em casa, meus cabelos estavam grudados no rosto e pescoço, e eu tremia como uma condenada. Isso só podia ser uma espécie de karma por ter reencontrado Alexander. Desde o momento em que ouvi sua voz na rádio, parecia que a má sorte decidiu me acompanhar em tempo integral.
Na tentativa de evitar uma gripe monumental, tomei um banho quente, fiz uma canja, um chá de limão e tomei analgésico. No entanto, acordei no dia seguinte com a cabeça latejando e o corpo moído. Claro, logo no meu primeiro dia de trabalho. Mas eu não ia dar o braço a torcer para o universo.
Depois de uma maratona de três ônibus, cheguei ao edifício Speredo, onde fui recepcionada por um funcionário de recursos humanos que me designou para o setor de Relações Públicas. Meu “guia” era um rapaz, jovem demais para fazer a barba direito, mas já com uma confiança de fazer inveja. Ao me ver, ele soltou, com a sutileza de uma parede:
— Que sorte termos uma bela senhorita conosco! O pessoal é bem profissional, mas, convenhamos, não se pode dizer que são revigorantes de se ver.
“Coitado, mal nos conhecemos e já está me vendo como um troféu decorativo”, pensei, revirando os olhos mentalmente. Mas, entre o incômodo e a dor de cabeça que parecia pronta para explodir, deixei a resposta ácida guardada para outra ocasião. Minhas prioridades eram duas: fazer o melhor possível e sobreviver àquela dor de cabeça.
Instalada no grande escritório, comecei a me apresentar aos novos colegas, tentando ignorar a pontada na cabeça que se recusava a diminuir. Logo, o “jovem entusiasmado” se aproximou de novo, o olhar ainda mais grudado em mim.
— A senhorita está bem? Está tão pálida… — Ele comentou, estudando meu rosto como quem avalia uma obra de arte trágica. — Acho que deveria ir à enfermaria.
A ironia é que, enquanto eu tentava me convencer de que estava “ótima”, ele fazia questão de me lembrar o quanto eu não parecia. Suspirei, vencida.
— Vou procurar um médico. — respondi, e, ao me levantar, percebi que aquele dia prometia ser longo.
O meu colega de trabalho, gentil como só ele, decidiu me acompanhar até a enfermaria. Eu suspeitava que seu entusiasmo era menos por “preocupação” comigo e mais porque ele estava adorando a oportunidade de me vigiar. Mas vá lá, nem reclamei.
Depois de uma breve consulta, o médico me colocou para tomar soro, dizendo que eu precisava me reidratar por conta da pressão baixa. E, por algum milagre, meu medo de agulhas deu uma trégua; tudo o que eu sentia era uma espécie de entorpecimento. Talvez fosse o alívio de estar longe daquele escritório gelado. Ou talvez fosse o efeito colateral de… Alexander.
Mal pude relaxar alguns minutos quando meu colega, sorrindo feito criança que encontrou a figura do álbum, se aproximou com os olhos brilhando:
— Dia de sorte, senhorita! — Ele disse, quase em êxtase. — Hoje você não só se junta a nós… mas também pode conhecer o chefão!
— Chefão? — perguntei, franzindo o cenho, mal acreditando no que ouvia.


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