Foi a pior ideia do mundo escolher aquele restaurante. Mas, no meu currículo de decisões catastróficas, já não era novidade. Mesmo que eu cancelasse a reunião, os abutres da imprensa iriam continuar farejando, especulando e, claro, infernizando Alexander por minha causa. Já tinha bagunçado tudo, então o mínimo que eu podia fazer era limpar a sujeira.
Joguei meu crachá de jornalista em volta do pescoço, segurei meu gravador como se fosse uma arma e segui para o restaurante. Estava vestida casualmente, mas o acessório dava o toque de “estou trabalhando” que eu precisava para passar pela horda de jornalistas sem levantar suspeitas. Eles me ignoraram, provavelmente acreditando que eu era só mais uma jornalista desesperada atrás de um furo.
Alexander, como sempre, estava impecável e inalcançável, sentado perto da janela, imerso no cardápio, como se o restaurante não estivesse explodindo de gente tentando capturar um vislumbre dele. Seus ombros relaxados e o olhar atento às letras no papel faziam parecer que ele estava lendo poesia, e não decidindo entre espaguete ou filé mignon.
Eu me aproximei, e ele ergueu os olhos com aquela calma que me tirava do sério.
— Você está atrasada, Charlotte.
Respirei fundo, forçando um sorriso que doía mais do que sapato apertado.
— Engarrafamento — menti, porque dizer “estava tentando bolar uma desculpa melhor para a burrada de hoje” não parecia apropriado.
Sentei-me, tentando ignorar os olhares famintos à nossa volta, como se toda aquela gente estivesse mais interessada em nossa interação do que na comida.
Alexander baixou o cardápio e inclinou a cabeça, analisando o crachá pendurado no meu pescoço.
— Pensei que quisesse falar sobre nosso casamento, não dar uma entrevista.
O sangue subiu rápido à minha cabeça. Sério? Ele achava que eu estava ali para ganhar um Pulitzer às custas dele?
— Isso é só para despistar os jornalistas. Se eles pensarem que você está dando uma entrevista, não vão te seguir depois, suspeitando que temos algum relacionamento… pessoal.
— Você está dizendo que usou isso como fachada? Para me proteger? — Ele me olhou com aquele ar cético, como se eu tivesse dito que preferia pizza fria ao invés de chocolate quente.
Eu estreitei os olhos, irritada. Lá estava eu, arriscando meu emprego para livrar a cara dele, e ele duvidando das minhas intenções.
— Acredite no que quiser, Alexander. Mas que fique claro: isso não vai acontecer de novo.
Ele assentiu, e eu soltei o ar que nem percebi estar segurando. Por um momento, pensei que tudo ficaria bem. Ilusão.
Ele pegou o telefone e, em segundos, uma tropa de seguranças vestidos de preto invadiu o restaurante. Antes que eu pudesse processar, estavam expulsando todo mundo — clientes, garçons, até jornalistas foram removidos como se fossem peças de mobília velha.
Quando o último garçom saiu, fiquei paralisada, olhando para ele.
— O que você está fazendo?!
Ele largou o telefone na mesa, apoiou o queixo na mão e me encarou com aquela expressão irritantemente imperturbável.
— Agora, podemos conversar sem interrupções.
Era oficial: eu havia casado com um lunático controlador. E o pior? Parte de mim não achava tão ruim assim.
Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos diante do rosto enquanto me observava em silêncio, como se estivesse analisando uma obra de arte confusa. Eu não sabia se ele estava tentando decifrar meu súbito acesso de raiva ou se já estava acostumado com meus picos emocionais. O silêncio só aumentava minha inquietação.
Ótimo, Charlotte. Isso definitivamente ajuda.
A sorte foi que ele começou a falar antes que eu fizesse algo ainda mais embaraçoso, como suspirar alto.
— Quando conversamos por telefone, você não mencionou que queria me encontrar para encerrar as coisas. Se tivesse dito, eu certamente não estaria aqui para isso.
— Então por que veio? — Perguntei, estreitando os olhos. — O que você esperava? Discutir um contrato pré-nupcial? Escolher alianças? Ou só veio porque ficou curioso com o restaurante?
Ele fez algo raro: sorriu. Não um sorriso largo ou caloroso, mas o suficiente para me desarmar mais uma vez.
— Que motivo um homem deve ter para encontrar sua noiva, Charlotte? Estou aqui para conhecê-la melhor.
Aquilo me pegou de surpresa. Tanta surpresa, aliás, que a única coisa que consegui fazer foi abrir e fechar a boca algumas vezes, sem emitir som algum. Ele notou, claro, e continuou.
— Já que somos obrigados a passar por isso, por que não o fazemos de forma sincera? Não sou o tipo de homem que faz algo com relutância. Se nos casarmos, serei seu marido, e isso significa que irei protegê-la. — Ele se inclinou levemente para frente, seus olhos fixos nos meus. — Mas a escolha é sua. Seja minha esposa, Charlotte. Sinceramente.
Eu engoli em seco. Aquilo era tão… inesperado. Minha mente, que sempre girava em mil direções, ficou em silêncio por um instante. O homem na minha frente, com toda sua frieza calculada, parecia de alguma forma… real. Sincero.
E, pela primeira vez, um pensamento estranho cruzou minha mente: talvez não seja tão ruim casar com ele.
Claro, isso foi antes de eu entender completamente o que significava ser esposa de Alexander Speredo. Se eu soubesse o que estava por vir, talvez tivesse fugido naquela noite mesmo. Ou não. Afinal, eu nunca fui tão racional assim.

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