Enquanto descia as escadas, minha mente tentava desesperadamente montar o quebra-cabeça daquela cena. Por que, afinal, Mattia ainda estava ali? E Lily, em sua pose dramática, gritava como se estivesse em um daqueles filmes trágicos que passam à tarde na TV.
— Se você quer me ver morta, então continue fechando a revista do Mattia! — Lily chorava histericamente, caindo de joelhos. — O que fizemos com você? Por que você insiste em destruir minha vida?
Minha sogra se lançou ao chão com ela, abraçando-a como se fossem protagonistas de uma tragédia shakespeariana. Ambas choravam tão desesperadamente que até um estranho sentiria pena. Mas eu? Estava mais preocupada tentando entender o que diabos estava acontecendo.
Foi quando Alexander, que até então assistia à cena em silêncio gélido, finalmente quebrou sua postura. Ele gritou, firme e cortante:
— Charlotte!
O tom fez meu coração saltar. Me virei rápido, quase tropeçando nos degraus. Alexander estava parado, os olhos queimando como fogo e o rosto mais vermelho do que jamais o vi.
— Vista-se adequadamente! — Sua voz, baixa e carregada de comando, fez o ar na sala parecer mais denso.
Só nesse instante percebi o motivo do escândalo: eu estava de camisola. E não uma camisola qualquer, mas uma daquelas que são tudo menos discretas. Na minha pressa para descer, esqueci completamente que minha roupa de dormir era mais adequada para o quarto — e apenas para Alexander.
Senti o calor subir pelo rosto, enquanto minha avó murmurava alguma coisa sobre os jovens de hoje. Mattia estava me encarando de um jeito que só piorava minha vergonha, e a expressão de Alexander parecia um aviso silencioso de que eu estava a um passo de um desastre.
— Simplesmente fique onde está! — Alexander rosnou, tirando o próprio casaco com um movimento rápido e vindo até mim. Ele me envolveu na peça antes que eu pudesse protestar, suas mãos fortes segurando o tecido no lugar por um segundo a mais do que o necessário.
Eu não consegui dizer nada. Com o rosto queimando, me virei e corri de volta para o quarto, deixando a confusão no salão para trás.
Minutos depois, Alexander entrou no quarto. Sua gravata já estava meio desfeita. Parecia exausto, mas seus olhos não tinham perdido o brilho gelado que me dizia que aquele assunto ainda não tinha acabado.
Eu já havia trocado de roupa — um pijama longo e até meias, para garantir que não houvesse mais motivos para discussões. Quando ele começou a tirar a gravata com movimentos impacientes, quebrou o silêncio com sua voz firme:
— Você sabia que ele ainda estava aqui?
A pergunta me atingiu como um tapa. Franzi o cenho, cruzando os braços em resposta.
— Você está insinuando que eu me vesti assim para ele? — Minha voz saiu fria, refletindo minha irritação.
Alexander apertou as têmporas e soltou um suspiro longo antes de perguntar:
— Você se vestiu assim para mim?
Quase gritei de raiva por sua desconfiança.
— Faz um mês que não nos vemos. Um mês! E você só fala de Mattia isso, Mattia aquilo! — Minha voz tremeu, mas eu continuei. — Sou uma porta para você? Um móvel nessa casa? Eu não significo nada?
Eu sabia que estava no limite, mas não consegui me conter. Sentia como se todos os meus esforços para manter nossa relação tivessem sido jogados fora. Passei um mês esperando, contando os dias até ele voltar, desejando que pudéssemos finalmente nos conectar, talvez até consertar o que parecia estar quebrado há tanto tempo.
— Enquanto você estava fora, o que eu fiz? — continuei, agora com uma amargura que nem eu sabia que carregava. — Eu trabalhei, comi, dormi e esperei. Só esperei! Por você, Alexander. Não por Mattia, não por ninguém. Só você. E você me trata assim?
Ele me encarou com uma intensidade que me fez querer recuar, mas mantive minha posição. Eu sabia que ele estava cansado, que o trabalho e tudo o mais pesavam em seus ombros, mas isso não justificava a frieza. Eu queria que ele olhasse para mim como há tempos não fazia. Queria ouvir algo tão simples quanto: “Senti sua falta, Charlotte.” Mas tudo o que recebi foi sua sombra.
— Estou cansado. — Ele disse, finalmente quebrando o silêncio. Sua voz estava mais baixa, mas não menos dura. — Vou tomar um banho primeiro. Você pode ir dormir.
Sem me dar tempo para responder, ele entrou no banheiro e fechou a porta com mais força do que o necessário. O som ecoou no quarto vazio, deixando-me sozinha com minha raiva e frustração.
Suspirei, sentindo o peso do desapontamento cair sobre mim. Ele estava agindo como o mesmo Alexander que eu deixei anos atrás, frio, inalcançável. Talvez fosse sua maneira de se proteger, mas, no momento, tudo o que eu via era uma barreira impenetrável entre nós.
Decidi que, se ele queria distância, eu daria. Levantei-me e fui até o armário, puxando a colcha extra e colocando-a no sofá. Peguei os travesseiros dele do lado da cama e joguei-os no mesmo lugar. Era óbvio que ele preferiria dormir ali. Pelo menos, assim, eu não precisaria encarar suas costas viradas para mim, algo que doía mais do que eu queria admitir.
Apaguei a luz principal, deixando apenas o abajur ligado. Deitei-me na cama, olhando para o teto, tentando convencer a mim mesma de que isso era o melhor. Mas, no fundo, eu sabia que aquela distância entre nós era tudo o que eu temia.

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