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O PAI DA MINHA AMIGA romance Capítulo 30

Alessa Sullivan

Outro dia se iniciou, dessa vez não tínhamos apenas civis ucranianos na triagem, ou em nossas mesas de cirurgia, pelo acaso um tanque militar russo foi atacado pelas tropas ucranianas e por um milagre não morreram com os ferimentos.

No meio da tarde, quando já estávamos quase finalizando a cirurgia do soldado russo, que precisava de uma laparotomia e terminávamos a sutura da amputação de seus braços. É isso que a guerra traz para os homens.

Enquanto quem enriquece a custas de soldados que entrega a sua vida em prol de outros que estão no poder, os soldados perdem suas vidas ou, na melhor das hipóteses, fica vivo como esse soldado, porém, sem os braços e apenas com uma das pernas.

— Doutora, pediram para lhe avisar que o garotinho está acordado! — Me viro em direção à voz.

Meu peito acelera em saber o que o garotinho possa ter acontecido com ele, olho para a Carmem na minha frente que parecia feliz da mesma forma como estava, sem contar que estou muito curiosa com ele.

— Eu termino aqui, pode ir lá ver o pequeno. — Carmem diz.

Olho para o paciente que já estava com todas as suturas prontas, estávamos apenas colocando os curativos onde havíamos feito as amputações.

— Tudo bem, mas se precisar de algo mande me chamar. — Me afasto da mesa retirando o avental e as luvas.

Caminho em direção à tenda onde o bambino estava. Acelero os meus passos, sinto como se aquele garotinho precisasse de mim, como se ele estivesse no lugar certo e na hora certa para vê-lo cair naquela cerca.

Entro na tenda e via a movimentação da enfermagem ao redor da maca do pequeno, pareciam estar conversando com ele. Todos olham para mim e pela primeira vez fito com clareza os mesmo olhos azuis que tenho.

Será que ele possa ser meu irmão, que meu pai tenha tido um caso com alguma mulher e tenha tido um fruto desse relacionamento.

— Doutora, essa é Yana, ela é tradutora. — Olha para a moça loira e branca ao lado da cama.

— Olá, tudo bem! — A cumprimento.

— Tudo, fui chamada para tentar tirar alguma informação dele. — A ouço e me aproximo da sua cama.

Me sento perto da sua perninha e sorrio com carinho, sinto algo crescendo dentro de mim e não consigo explicar o porquê estou tão interessada no bem-estar desse desconhecido e o desejo de tê-lo ao meu lado.

— Oi, pequeno! — Digo com carinho.

Os olhos dele estavam fixos em meu rosto, me deixando ainda mais curiosa com o que ele começa a falar.

— Você é igualzinha a minha mãe! — Ele diz com um sotaque.

— Ele fala o seu idioma, mesmo que ainda seja cheio de pequenos erros. — A Yana diz segurando em meu ombro.

— O que você se lembra pequeno? — Pergunto olhando para ele.

— Estava dormindo no quarto com meus pais, mas senti sede e sai da cama, aconteceu um barulho enorme e quando voltei para o quarto… — Olhamos para os seus olhos cheios de lágrimas. — O quarto não estava mais lá.

— Como conseguiu sair da sua casa? — Ele olha para todos os lados.

— A porta estava no chão, uma das vizinhas me ajudou, mas no meio da fumaça me perdi. — Ele deixa as lágrimas escorrerem.

Me abaixo e o abraço na frente de todos, ouço-o falando baixinho no seu idioma e não entendo nada do que ele diz, por sorte a tradutora aperta o meu ombro.

— Quando chegamos fora do prédio, o quarto dos meus pais estava ali e vi a minha mãe de olhos abertos, mas ela não respirava e o meu pai… — O choro dele ficou ainda mais sentido.

— Você não está mais sozinho, querido, cuidarei de você até que alguém surja a procura de você. — Digo com carinho.

— Não tenho parentes, pelo menos não que conheça. — Me afasto do pequeno.

Olho para todos que estão ao nosso redor e vejo no olhar de todos que encontram uma semelhança enorme entre mim e ele.

Mas não faz sentido, meus pais jamais esconderiam a presença de outro filho, ainda mais sabendo que adoraria ter um irmão. Seguro na pequena mãozinha dele e coloco em meu rosto.

— Não tenha medo, farei o meu melhor para te manter sempre protegido, aliás me chamo Alessa. — Digo deixando uma lágrima escorrer.

— Oi, Alessa, seu nome é lindo. — Ele mostra os dentes branquinhos com o sorriso que me dá. — Me chamo Ruslan Shevchenko.

Agora, sem dúvida alguma, não devemos ser parentes, já que meus pais são filhos únicos dos meus avós, mesmo assim é inevitável não fazer comparações com a nossa semelhança. O garotinho é lindo e muito inteligente também.

Ficamos um bom tempo conversando, ele tinha apenas cinco anos e já falava três idiomas, o seu idioma materno ucraniano, o russo e o meu. Por sorte conseguiria entendê-lo, agora que sei que ele é órfão, farei o que tiver que fazer para adotá-lo.

Ele diz o quanto adora a escola, que sente falta dos seus amiguinhos, menos de um deles que o discriminava por falar o idioma dos inimigos. Aproveito que estava ali com o Ruslan e ligo para o Mattia.

— Quero apresentá-lo ao meu namorado. — Digo enquanto ele continuava a desenhar no papel.

Ele sorri e vejo o sorriso dele ficar preocupado.

— Não se preocupe, Mattia está louco para te conhecer. — Digo com carinho.

Ligo para o meu italiano, com o coração cheio de esperança e felicidade por estar com o Ruslan acordado e com o Mattia atendendo a minha ligação.

“Oi ragazza mia, vejo que está feliz, o que aconteceu?”

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