Capítulo 31
Na véspera de Natal, André ligou convidando Dolores para ir à praia com ele e um ficante. Ela recusou. Disse que queria ficar sozinha, que não estava disposta a segurar vela e foi exatamente o que fez.
Para não deixar a data passar em branco, improvisou uma ceia simples: um panetone, coxas de frango com batatas e uma salada. Comeu sozinha e antes das dez da noite já estava dormindo.
No dia seguinte, recebeu mensagens de Feliz Natal da mãe e de André. Se a mãe não morasse em Portugal, certamente estaria ali com ela. Mas o jeito era aceitar: ficaria sozinha mesmo.
Algo que, antes de conhecer Zacky, Nyra e os cowboys, nunca a incomodou. Agora, porém, tudo o que vinha daquela fazenda fazia falta.
Os dias passaram. O Ano-Novo chegou, e com ele o trabalho, as contas e a rotina recomeçando. Dolores tentou se ocupar, mergulhar de cabeça nas novas coleções da boutique, ocupar a mente com tecidos, cortes e prazos. Mas, apesar de todo o esforço, esquecer estava sendo difícil.
Depois do dia quinze de janeiro, algo começou a mudar.
André passou a olhá-la diferente. Sempre que ela perguntava o que era, ele desconversava. Até que chegou o início de fevereiro, e o calor intenso começou a lhe provocar dores de cabeça diárias.
Num certo dia, ela não aguentou mais.
- O que você tem, André? - perguntou, direta. - Está me olhando estranho há dias. Fala logo.
- Ai, amiga... sei lá se devo falar...
- Vai começar a esconder as coisas de mim agora?
- Não! É que... ai, eu vou falar. Você tá engordando.
- Eu? - ela se levantou e foi até o espelho do escritório. Observou-se por alguns segundos. - Bom... estou um pouquinho mais cheinha. Mas é só fazer um regime.
André deu de ombros. Percebeu que a amiga vinha comendo mais havia dias. Talvez fosse ansiedade. Talvez fosse saudade. Talvez fosse culpa por ainda gostar do cowboy.
- Talvez se parar de comer tanto - comentou, cauteloso.
- É... vou fazer isso - disse ela, voltando para a mesa e sentando-se. - O que me incomoda mesmo é que já faz mais de quinze dias que tenho dores de cabeça.
- Já tomou algum remédio?
- Não. Detesto ficar tomando remédio.
- Às vezes precisa - respondeu ele, sério.
Dolores ficou em silêncio, encarando os papéis à sua frente e deu de ombros.
***
Dois dias depois, o mal-estar veio mais forte.
Dolores estava atendendo uma cliente quando a luz da boutique pareceu ficar intensa demais. As conversas, antes distante, começou a se misturar. O cheiro do perfume da cliente, adocicado demais, fez seu estômago embrulhar.
Ela levou a mão à têmpora, respirando fundo.
- Está tudo bem? - perguntou a cliente.
- Só um instante... - murmurou, forçando um sorriso.
Tentou dar um passo, mas as pernas falharam.
- Dolores! - a voz de André parecia distante, antes de tudo escurecer.
Quando abriu os olhos, estava sentada no chão, encostada na parede. André estava ajoelhado à sua frente, pálido, segurando um copo d'água com açúcar.
- Calma... calma... você desmaiou - disse ele, com a voz trêmula. - Já chamei um carro. Vamos ao hospital.
- Eu estou bem... - tentou argumentar, mas a própria voz saiu fraca demais para convencer até a si mesma.
No hospital, o ar gelado do ar-condicionado a fez estremecer. Fizeram perguntas, mediram pressão, colheram sangue. André não saiu de perto dela em momento algum.
Horas depois, o médico voltou com uma prancheta na mão.
- Dolores, vou ser direto - disse, sentando-se à frente dela. - Seus exames estão quase todos normais. Exceto um.
Ela sentiu o coração acelerar.
- O teste de gravidez deu positivo.
O mundo parou naquele instante.
- Isso... isso é impossível - sussurrou, sentindo o ar faltar. - Eu... não...
- Você tem aproximadamente sete semanas - continuou o médico. - Vamos solicitar uma ultrassonografia para confirmar.
André ficou boquiaberto.
- Dolores... - tentou dizer algo, mas não conseguiu.
Ela não chorou. Manteve-se firme.
Ficou sentada, imóvel, encarando um ponto qualquer na parede branca do consultório.
Grávida.
De Zacky.
Daquele homem que acreditava ter perdido para sempre.
Enquanto o médico falava sobre os próximos exames e cuidados, Dolores só conseguia pensar em uma coisa:
Como contar a ele?

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