Capítulo 30
Dolores chegou à boutique alguns minutos antes do horário de abertura. O cheiro familiar de tecidos novos, perfume suave e café recém-passado a recebeu como um reflexo automático da vida que ela conhecia tão bem.
- Bom dia! - cumprimentou as vendedoras, forçando um sorriso profissional.
- Bom dia, senhora! - responderam quase em coro.
Ela caminhou pelo salão, observando as vitrines impecáveis, os manequins perfeitamente vestidos, tudo exatamente como deveria estar. Tudo sob controle. Pelo menos ali.
Seguiu direto para o escritório e empurrou a porta de vidro fosco. André estava lá. Sentado à mesa auxiliar, com uma pilha de documentos organizado demais para alguém naturalmente inquieto como ele.
Ele ergueu os olhos assim que ela entrou.
- Bom dia, André.
- Bom dia, chefa - respondeu, hesitante, tentando decifrar se ela estava bem... ou apenas vivendo.
Dolores deixou a bolsa sobre a mesa, tirou o casaco e pendurou na cadeira. Seus gestos eram mecânicos.
- Você disse que tinham uns papéis importantes. Pode me passar, quero revisar.
André piscou uma vez, surpreso com a normalidade daquilo tudo. Nenhuma bronca. Nenhum silêncio constrangedor. Nenhuma lágrima.
- Claro - disse, levantando-se rápido demais.
Ele pegou a pasta azul e caminhou até a mesa dela, estendendo os documentos.
- São os contratos da nova coleção cápsula. E... - ele hesitou por um segundo - ...tem também a proposta do investidor que você pediu para segurar.
Dolores assentiu, puxando a pasta para perto.
- Ótimo. Vou começar por esse.
Ela abriu o primeiro contrato e passou os olhos pelas linhas, concentrada.
Ele permaneceu parado por alguns segundos, observando-a. Havia algo diferente nela. Parecia contenção.
- Dolores... - ele arriscou, em voz baixa.
Ela não levantou o olhar.
- André - disse com calma - hoje eu só preciso trabalhar. Está certo?
Ele engoliu seco.
- Está. Claro.
Ela assentiu, satisfeita com a resposta, e continuou lendo.
André voltou para a cadeira, com uma certeza incômoda apertando o peito:
Ela estava ali. Vivendo. Mas uma parte dela... tinha ficado em outro lugar.
***
O dia de Dolores seguiu em um ritmo intenso, como sempre gostou. Reuniões curtas, decisões rápidas, telefone tocando sem parar. Ela revisou contratos, aprovou vitrines, ajustou prazos com fornecedores e respondeu e-mails.
- Esse tecido precisa ser reposicionado. A luz está matando o tom - disse a uma das vendedoras, apontando para a vitrine principal.
- Certo, senhora. Já vou ajustar.
Ela caminhava pela boutique. Por fora, era a mesma mulher segura, elegante e inabalável que todos conheciam.
Por dentro, tudo doía.
Entre uma reunião e outra, ela se pegou encarando o próprio reflexo no vidro do escritório. A imagem devolvida era perfeita demais. Nenhum sinal do caos que a habitava. Nenhum vestígio do cheiro de mato, do frio da madrugada na fazenda, do calor dos braços fortes que a envolviam à noite.
Desviou o olhar rapidamente e voltou ao trabalho.
No início da tarde, sentou-se para almoçar no próprio escritório. Um prato leve, pois estava quase sem fome. Comeu mais por hábito do que por necessidade, mexendo no garfo enquanto André digitava algo no computador.
- A agenda da semana está cheia - ele comentou, tentando soar casual. - Amanhã tem reunião com o pessoal da expansão e na quinta aquele evento com a imprensa.
- Certo - respondeu, sem levantar os olhos do tablet. - Confirma tudo.
Ele assentiu, a observando com atenção. Ela estava distante. Presente e ausente ao mesmo tempo.
Em um intervalo curto, o celular vibrou sobre a mesa. Dolores olhou a tela por reflexo... e o coração deu um salto inútil antes de afundar de novo. Era apenas uma notificação de trabalho.
Bloqueou a tela e respirou fundo.
- Tudo passa - murmurou para si mesma, quase inaudível.


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