Os dias seguintes se arrastaram em uma mistura cruel de cheiro de antisséptico, bip dos monitores e noites mal dormidas. Helena praticamente passou a viver no hospital. Nem mesmo a insistência de Renato e Glória conseguiu fazê-la voltar para casa.
Ela corria contra o tempo.
Durante o dia, enfrentava médicos, exames e pilhas de documentos. À noite, sentava ao lado da cama da mãe, segurando a mão de Clara enquanto observava os aparelhos monitorando cada oscilação do seu estado.
Mas a pior batalha acontecia pelos corredores administrativos e nas intermináveis ligações para o plano de saúde.
— Senhora, o pedido ainda está em análise — repetiu a atendente pela terceira vez naquele dia.
Helena fechou os olhos por um instante, tentando controlar o desespero.
— O médico deixou claro que ela precisa começar o tratamento imediatamente.
— Entendemos a urgência…
— Não, vocês não entendem — ela interrompeu, a voz falhando de cansaço. — Minha mãe está piorando enquanto vocês pedem mais documentos!
Do outro lado, apenas silêncio protocolar. Depois, a mesma resposta fria:
— O procedimento segue em auditoria.
Helena desligou antes que perdesse completamente a paciência.
Sentou-se em uma das cadeiras do corredor e passou as mãos no rosto. Estava exausta. Os cabelos presos às pressas já tinham fios escapando por todos os lados, e as olheiras profundas denunciavam os dias sem descanso.
O médico havia sido direto: aquele tratamento era a melhor chance de estabilizar Clara. Só que fazer tudo de forma particular custava uma fortuna. Quando ouviu o valor do tratamento particular, Helena sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Uma fortuna que Helena não tinha.
Ela e Clara estavam lutando para reerguer a empresa de mármore e granito. A empresa começava a respirar outra vez, mas ainda não dava lucro de verdade.
Renato também tentou ajudar, mas a realidade era dura. O tio tinha as próprias limitações financeiras e sequer chegava perto daquela quantia absurda.
Naquela madrugada, enquanto encarava a cidade pela janela do hospital, Helena tomou uma decisão. Venderia a casa, a ideia apertou seu peito imediatamente.
Era a casa onde crescera. Onde ainda existiam fotos do pai nas paredes, marcas de aniversários na cozinha, lembranças da infância espalhadas em cada cômodo. Mas nada daquilo valia mais que a vida da mãe.
Ainda assim, o pensamento a destruiu por dentro. Porque mesmo vendendo a casa… ainda não seria o suficiente.
Ao comunicar sua decisão aos tios, um profundo pesar tomou conta deles. Sabiam que nem todo o dinheiro do mundo seria capaz de curar Clara, o tratamento poderia apenas aliviar seu sofrimento e, adiar o inevitável.
*****
No escritório da empresa Vasconcelos, Célia e Bianca faziam o possível para manter tudo funcionando normalmente. Apesar da pouca experiência, Bianca tinha boa noção de administração e conhecia bem o setor de mármore e granito. Já Célia sempre fora extremamente dedicada e competente.
Mesmo com a ausência de Helena, os contratos continuavam sendo cumpridos, os pedidos entregues e os pagamentos organizados dentro dos prazos.
Naquela tarde, Bruno chegou para uma reunião. Ele ainda não sabia o que estava acontecendo com Helena.
Ao ser informado pela recepção de que outra pessoa o atenderia, franziu levemente a testa.
— Aconteceu alguma coisa com a Helena?
Célia hesitou por um instante antes de responder:
— A mãe dela está muito doente. Helena precisou se afastar para cuidar dela.
A expressão de Bruno mudou imediatamente.
— Entendo… Sinto muito.
Havia preocupação sincera em sua voz.
Pouco depois, ele foi conduzido até a sala de reuniões. Assim que entrou, encontrou uma jovem sentada atrás da mesa organizando alguns documentos. Ao erguer os olhos, Bianca ficou visivelmente surpresa ao se deparar com o belo homem elegante à sua frente.
Por um breve instante, perdeu completamente a linha de raciocínio.

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