Eduardo virou mais uma dose.
— Eu e Helena não somos como eles.
— Como os Walkers?
Eduardo ergueu os olhos. A bebida já havia derrubado parte das muralhas que costumava erguer ao redor de si.
— Não somos um casal de verdade.
Bruno permaneceu imóvel, mas por dentro sentiu um choque. Nos últimos meses aquela suspeita vinha crescendo, agora a ouvia da boca do próprio Eduardo.
— O que quer dizer com isso?
Eduardo passou a mão pelos cabelos.
— Helena precisava de dinheiro para salvar a empresa. — Seu sorriso era vazio. — E eu precisava de uma esposa... Então fizemos um acordo, um contrato.
Bruno permaneceu em silêncio por uns segundos tentando entender o que acabou de ser revelado.
— Um contrato. — As palavras de Eduardo saíram pesadas. — Só isso. — Os dedos de Eduardo apertaram o copo.
A frase saiu baixa cheia de amargura
— Quer saber a verdade? — continuou Eduardo, com os olhos já turvos pela bebida. — Nosso casamento existe apenas no papel. — Ele riu sem alegria. — A maior mentira da minha vida.
Eduardo ia servir outra dose, mas Bruno segurou a garrafa antes que ele pudesse continuar.
— Chega.
— Me devolve.
— Você já bebeu demais.
Eduardo tentou puxar a garrafa.
Bruno a afastou.
— Vamos voltar para o hotel.
Por alguns segundos, Eduardo permaneceu imóvel.
Então encostou-se no sofá, os olhos estavam perdidos e distantes como se nem estivesse mais naquele bar.
— Sabe qual é a pior parte? — murmurou.
Bruno não respondeu.
— Eu achei que isso seria fácil. — Sua voz saiu rouca. — Era só um contrato. Só um negócio… Nada mais.
Eduardo soltou uma risada amarga.
O silêncio voltou a se instalar entre eles e Bruno ficou observando o amigo. Pouco tempo depois, Bruno conseguiu convencê-lo a deixar o bar.
Bruno voltou com Eduardo para o hotel e o ajudou a chegar ao quarto, Eduardo mal conseguia andar e desabou na cama.
Ele ficou olhando para o corpo inerte de Eduardo, finalmente encontrou a resposta para a pergunta que o perseguia há meses.
O casamento de Helena e Eduardo era real apenas no papel, mas os sentimentos envolvidos nele estavam longe de ser um contrato.
****
Assim que retornou ao país, Bruno fez questão de ir pessoalmente à empresa Vasconcelos para verificar o andamento da produção das pedras destinadas ao complexo comercial do Grupo Lima.
Ao menos, essa era a justificativa oficial. A verdade era bem mais simples: ele queria ver Helena.
Desde a conversa que tivera com Eduardo durante a viagem, não conseguia tirá-la da cabeça. E, por mais inadequado que fosse admitir, a descoberta sobre o verdadeiro estado do casamento dela lhe causara um inesperado sentimento de alívio.
Quando entrou no escritório, Helena ergueu os olhos dos esboços de seus novos designers que analisava e levantou-se imediatamente para recebê-lo.

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