O dia seguinte era domingo, e Helena despertou mais tarde do que de costume. O quarto permanecia na penumbra, protegido pelas cortinas blackout, e por alguns instantes ela ficou deitada, ainda sonolenta.
Havia demorado a adormecer na noite anterior. Repassara mentalmente os acontecimentos do casamento, as danças, os olhares e, principalmente, o beijo de boa-noite que Eduardo lhe dera diante da porta de seu quarto.
Um sorriso surgiu em seus lábios.
Apesar de tudo o que aquele simples gesto havia despertado em seu coração, quando finalmente adormeceu, seu sono foi tranquilo.
Helena levantou-se e, depois de um banho rápido, vestiu-se para descer. Ao se aproximar da cozinha, sentiu o aroma do café pela casa.
Franziu levemente a testa.
Era domingo, dia de folga dos empregados, e raramente ela e Eduardo permaneciam em casa naquele dia. Por isso, o aroma vindo da cozinha lhe pareceu estranho.
Mas a surpresa maior veio quando entrou. Eduardo estava diante do fogão, preparando o café da manhã.
Ao perceber sua presença, ele ergueu os olhos e sorriu de leve.
— Já acordou. O café está quase pronto.
Helena olhou para ele, depois para o fogão.
— Eu não sabia que você sabia cozinhar.
Eduardo lançou um olhar para a frigideira.
— Na verdade, mal sei fazer ovos mexidos com bacon e torradas.
Ela se aproximou para observar.
— A aparência está ótima. E o cheiro também.
— Obrigado. Você pode arrumar a mesa?
— Claro.
Enquanto Helena colocava a mesa, Eduardo terminou os ovos, retirou as torradas do aparelho e organizou tudo nos pratos. Em seguida, serviu o café para os dois.
Helena se sentou e observou o prato à sua frente.
— Parece muito bom.
— Diga isso depois de experimentar.
Ela pegou o garfo e provou uma pequena porção.
O sabor não era exatamente extraordinário. Talvez faltasse um pouco de tempero, mas estava longe de ser ruim.
Eduardo, que havia acabado de provar o próprio prato, observava sua reação com uma expectativa quase divertida.
— Não está bom, não é?
Helena tentou esconder um sorriso.
— Está bom, sim. Talvez...
Levantou-se, pegou o saleiro e acrescentou um pouco de sal ao seu prato e ao dele.
— Isso ajuda um pouco.
Provou novamente.
— Hum... agora ficou bem melhor.
Eduardo experimentou mais uma vez e assentiu, satisfeito.
— O toque feminino faz toda a diferença.
Helena riu.
— Então da próxima vez você já sabe o que fazer.
— Talvez eu precise de algumas aulas.
Os dois trocaram um sorriso.
Por alguns segundos, o café da manhã pareceu estranhamente simples. E justamente por isso, especial.
Eduardo tomou um gole de café e fez uma pequena expressão de aprovação.
— Pelo menos o café ficou no ponto.
Helena experimentou o seu e concordou.
— Esse você acertou.
— Ainda bem. Já estava começando a questionar minhas habilidades culinárias.
Ela riu novamente.
Era uma cena banal, mas Helena percebeu como havia algo diferente naquela manhã. Talvez fosse a maneira como ele estava ali, sem pressa, ou simplesmente o fato de os dois estarem dividindo um momento que não tinha sido planejado por ninguém.
Eduardo também parecia notar aquilo.
Depois de alguns instantes, seus olhos percorreram Helena.
— Você vai sair?
— Hoje tenho o almoço de família na casa dos meus tios. Todo mês, a tia Glória prepara um almoço especial.
— Eu não sabia.
Helena ficou um pouco séria.
Não era exatamente uma surpresa. Eles mal se encontravam em casa aos domingos e, apesar de dividirem o mesmo teto, conheciam muito pouco da rotina um do outro.
Eduardo percebeu a mudança em seu semblante e teve a mesma constatação. Havia tantas coisas sobre Helena que ele desconhecia e aquilo não lhe pareceu apenas uma consequência do contrato.
— Posso ir com você?
Helena ergueu os olhos, surpresa.
— É um almoço simples, Eduardo.
Ele sustentou o olhar dela com um olhar sereno, que Helena rara vezes viu.
— Eu também gosto das coisas simples.
O sorriso de Helena se alargou, Eduardo compartilhar um domingo com sua família era algo que ela nunca imaginou, talvez eles começavam a transformar um pequeno pedaço de vida compartilhada que ainda não deram oportunidade de acontecer.

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